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Como o castor está a transformar a tundra do Ártico canadiano

Pessoa a estudar castor junto a um rio, com equipamento de medição e tabela digital em ambiente natural.

O Ártico nunca é imóvel: o gelo desloca-se, a vegetação avança pouco a pouco e os animais adaptam os seus percursos. E há agora um protagonista bem conhecido a transformar este cenário do Norte de uma forma inesperada.

O castor, célebre por remodelar zonas húmidas mais a sul, começou a instalar-se na tundra. Esta mudança não é marginal - está a alterar a água, o solo e até o quotidiano de quem vive nessas latitudes.

O que torna este caso ainda mais marcante é a forma como foi revelado. Ninguém registou a primeira chegada dos castores, há décadas. Mesmo assim, o próprio território guardou pistas suficientes para reconstruir a história.

Sem registos da chegada dos castores

Ninguém acompanhava a tundra do Ártico canadiano com detalhe suficiente para anotar quando, exactamente, os castores apareceram.

Por isso, uma equipa liderada por Georgia M. Hole, na altura na Universidade Anglia Ruskin, teve de “ler” o passado a partir do que a paisagem conservou.

“No Ártico, muitas vezes faltam-nos as referências históricas necessárias para compreender a mudança ecológica”, disse a Dra. Hole, actualmente na Universidade de Durham.

“Este estudo mostra como desenvolvemos uma abordagem para reconstruir essa história em falta.”

Ler anéis em ramos roídos

O primeiro método usado foi a dendrocronologia, isto é, a contagem de anéis de crescimento. Em vez de grandes árvores, os cientistas analisaram plantas pequenas - como salgueiros e amieiros-verdes - que crescem nas margens de ribeiros.

Os castores cortam estes arbustos para se alimentarem e para construir. Cada corte deixa uma cicatriz, e essa marca permite aos investigadores determinar quando os castores passaram por ali.

“Os castores escrevem, na prática, a sua história na paisagem com cada arbusto que cortam e com cada lagoa que criam ao barrar linhas de água”, afirmou Hole.

“Ao datarmos cicatrizes de pastoreio em salgueiro e amieiro com técnicas dendrocronológicas, e ao ligarmos isso a alterações hidrológicas detectadas em imagens de satélite, conseguimos identificar quando e onde os castores estiveram presentes.”

Amostragem ao longo de uma estrada longa

Entre 2022 e 2024, a equipa percorreu um troço de 130 quilómetros de estrada. O trabalho foi feito em colaboração com os Imaryuk Monitors, um grupo ambiental indígena.

No terreno, registaram 60 abrigos e barragens de castores. Além disso, recolheram 94 amostras de plantas roídas em três locais principais e 99 plantas intactas.

Com estas amostras, conseguiram montar uma linha temporal que recua até 1968.

Os primeiros sinais de castores

Os resultados não deixaram dúvidas. Os indícios mais antigos de presença de castores surgiram em 2008 no local mais a norte. No local a sul, a actividade apareceu em 2011, enquanto o local central apresentou sinais em 2015.

Estas datas indicam que os castores começaram a avançar para esta região há cerca de 18 anos. A partir daí, foram alargando lentamente a sua distribuição.

Com o passar do tempo, construíram mais barragens e abrigos, o que lhes permitiu fixarem-se e expandirem-se pela paisagem de tundra.

Um rasto de evidência inequívoco

A equipa reuniu também todas as imagens de satélite Landsat da região desde 1984, calculou um índice de humidade e aplicou um modelo estatístico capaz de detectar mudanças abruptas.

Num grande complexo de abrigo e barragens, a água à superfície aumentou de forma súbita entre 2015 e 2019 - precisamente quando os anéis dos arbustos indicavam o pico de corte no mesmo local. Dois métodos independentes apontaram para a mesma conclusão.

“As actividades de engenharia dos castores deixam um rasto de evidência muito claro, e os nossos resultados confirmam aspectos importantes da ocupação por castores em locais que se estendem para norte até às margens do Oceano Árctico”, afirmou a autora sénior do estudo, a Dra. Helen Wheeler.

Mudança ambiental rápida

Comunidades Inuvialuit relatam observações de castores desde a década de 1980, e as transformações associadas tornaram-se uma preocupação reconhecida.

“As comunidades indígenas do Ártico já estão a observar uma mudança ambiental rápida, e a expansão da área de distribuição do castor faz parte dessa alteração”, disse Wheeler.

“Os impactos em lagos, rios, populações de peixe e práticas tradicionais tornam prioritário compreender estas dinâmicas para a comunidade Inuvialuit.”

Desde 1970, o ar nesta região aqueceu mais de 3 graus Celsius (o equivalente a cerca de 5,4 graus Fahrenheit). Como consequência, há hoje mais arbustos a crescer pela tundra.

Essa vegetação fornece aos castores alimento e material de construção para os seus abrigos, ajudando-os a resistir aos longos invernos, sob gelo espesso.

A história da actividade dos castores

“À medida que o Ártico continua a aquecer, a presença de castores poderá aumentar ainda mais”, afirmou Wheeler. “A abordagem que usámos nesta investigação pode ajudar a acompanhar estas mudanças e a apoiar as comunidades locais e os decisores.”

Ao longo de todo este período, os arbustos junto à Estrada Inuvik–Tuktoyaktuk foram registando a transformação. O que faltava era aplicar as ferramentas e os métodos certos para interpretar esse arquivo natural.

Com trabalho minucioso, instrumentos laboratoriais específicos e muitos anos de imagens de satélite, a equipa conseguiu decifrar esses registos e reconstruir a cronologia da actividade dos castores na região.

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