Nuvens de spray pimenta, cânticos em coro, policiamento reforçado e um convidado estrangeiro polémico cruzaram-se no centro de Sydney, deixando no ar o cheiro acre do fim da tarde.
Milhares de manifestantes concentraram-se perto do centro financeiro de Sydney quando o Presidente de Israel, Isaac Herzog, iniciou uma visita de grande visibilidade. A receção foi imediata: polícia de choque, novos poderes de emergência e uma vaga de spray pimenta voltaram a inflamar o debate australiano sobre Gaza, antissemitismo e os limites do protesto.
O protesto em Sydney fica tenso quando a polícia trava a marcha
A principal manifestação de segunda-feira foi convocada pelo Grupo de Ação pela Palestina, que apelou aos seus apoiantes para ocuparem o centro da cidade, apesar das novas restrições aos ajuntamentos públicos introduzidas após o tiroteio em massa de Bondi Beach, em dezembro passado.
Foram várias milhares as pessoas que compareceram, muitas com keffiyehs palestinianos ao pescoço e cartazes a condenar a campanha militar israelita em Gaza e a receção oficial dada por Austrália a Herzog.
“Não sou antissemita, sou contra o genocídio” e “Prendam Herzog” estavam entre os slogans erguidos acima da multidão apertada.
Os discursos e os cânticos decorreram sem incidentes no início. A tensão só aumentou quando os organizadores tentaram pôr a marcha em movimento por ruas próximas. Os agentes formaram linhas cerradas e impediram a saída do grupo.
Os gritos de “Deixem-nos marchar” ecoaram enquanto os manifestantes avançavam em direção ao cordão policial. Seguiram-se empurrões, e a polícia usou spray pimenta a curta distância contra vários participantes. Testemunhas relataram pessoas a tossir, a cambalear e a lavar a cara com água de garrafa enquanto procuravam recuar.
A polícia afirmou que houve detenções, embora não tenha apresentado números imediatos. À medida que o ambiente se tornava mais instável, foram enviados mais agentes e, pouco depois, o restante grupo dispersou-se gradualmente.
Novos poderes para “grandes eventos” sob escrutínio
A resposta policial decorreu ao abrigo de poderes alargados aprovados às pressas pelo governo de Nova Gales do Sul dias antes. Estas medidas para “grandes eventos” permitem às forças de segurança cercar zonas da cidade, revistar pessoas sem mandado e aplicar coimas até A$5,500 (£2,800; US$3,860) a quem não cumprir as ordens dadas.
As autoridades defenderam que estas regras eram necessárias para evitar a repetição do ataque de dezembro em Bondi, quando um atirador abriu fogo num festival judaico, matando 15 pessoas, incluindo uma menina de 10 anos.
Para os críticos, os novos poderes arriscam transformar o protesto político num privilégio fortemente policiado, em vez de um direito democrático básico.
Os defensores das liberdades cívicas já estão a levantar dúvidas sobre a forma como estas leis estão a ser aplicadas e sobre se o protesto pacífico está a ser desencorajado pela ameaça de multas elevadas e por uma atuação policial agressiva.
A visita de Herzog em Sydney entre consolo e confronto
O Presidente Herzog está na Austrália para uma deslocação de quatro dias, a convite do primeiro-ministro Anthony Albanese. A chegada foi marcada para coincidir com as cerimónias em memória das vítimas de Bondi Beach e para assinalar solidariedade com a comunidade judaica do país.
Ainda na segunda-feira, Herzog visitou o local do ataque, onde deixou uma coroa de flores e colocou duas pedras trazidas de Jerusalém junto ao memorial.
Perante os enlutados, disse que “quando um judeu é ferido, todos os judeus sentem a sua dor” e afirmou ter ido “abraçar e consolar as famílias enlutadas”. Para os seus apoiantes, o gesto foi uma poderosa mensagem de conforto para uma comunidade ainda traumatizada pelo ataque.
A partir de Bondi, a agenda de Herzog segue para Canberra e Melbourne, onde se reunirá com Albanese e outras figuras de topo. O líder australiano enquadrou o convite como um passo para a “coesão social” e para “um maior sentido de unidade” na sequência do tiroteio de Bondi.
Divisões dentro das comunidades judaica e muçulmana da Austrália
Nem todos os grupos judaicos receberam a visita com agrado. Enquanto entidades como o Conselho Executivo do Judaísmo Australiano descreveram a presença de Herzog como profundamente significativa para sobreviventes e famílias em luto, organizações mais recentes adotaram uma posição claramente diferente.
O Conselho Judaico da Austrália - criado este ano para combater o antissemitismo, ao mesmo tempo que apoia os direitos palestinianos - criticou o governo Albanese por usar Herzog como representante simbólico dos judeus australianos.
Uma carta assinada por 600 judeus australianos e publicada em jornais de grande circulação declarou que Herzog “não fala por nós e não é bem-vindo aqui”.
A responsável executiva do Conselho Judaico da Austrália, Sarah Schwartz, alertou que associar o apoio à liderança israelita à identidade judaica corre o risco de alimentar narrativas antissemitas que apresentam todos os judeus como responsáveis pelas ações do Estado israelita.
O Conselho Nacional de Imames da Austrália e a Rede Australiana de Defesa da Palestina também condenaram a visita. O presidente da APAN, Nasser Mashni, descreveu-a como “um remédio muito amargo de engolir” e “um dia sombrio” para os australianos que acompanham os acontecimentos em Gaza.
Acusações de genocídio acompanham Herzog até Sydney
A polémica não é apenas simbólica. Em 2023, uma comissão de inquérito da ONU concluiu que Herzog estava entre vários líderes israelitas que tinham “incitado à prática de genocídio” contra os palestinianos em Gaza através de declarações públicas feitas após os ataques do Hamas de 7 de outubro.
Herzog tinha afirmado que “uma nação inteira” partilhava a responsabilidade pelo assalto e foi fotografado a assinar um projétil de artilharia destinado a Gaza. Esses episódios acabaram por alimentar o processo apresentado pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, no qual Israel é acusado de genocídio.
Israel rejeita a acusação de genocídio, e Herzog argumenta que as suas palavras foram retiradas do contexto e não demonstram intenção de destruir um povo.
A comissão da ONU disse que uma clarificação posterior de Herzog - em que reconhecia “muitos, muitos palestinianos inocentes que não concordam” com o Hamas - parecia ter como objetivo desviar a atenção das observações originais, em vez de as retratar por completo.
O advogado australiano dos direitos humanos Chris Sidoti, membro desse painel da ONU, pediu a detenção de Herzog durante a visita, argumentando que a imunidade tradicional de chefe de Estado não deve aplicar-se ao que classifica como “crimes de atrocidade”, como o genocídio.
Embora uma detenção desse tipo continue politicamente improvável, o apelo evidencia a distância crescente entre os organismos internacionais de direitos humanos e os governos que recebem dirigentes israelitas.
Linhas de fratura em torno da visita
- Os apoiantes sublinham a solidariedade com a comunidade judaica da Austrália e os laços históricos entre os dois países.
- Os opositores destacam as mortes de civis em Gaza e acusam Herzog de legitimar ou incitar crimes de guerra.
- Os grupos de defesa das liberdades cívicas receiam que os novos poderes de policiamento normalizem respostas duras ao protesto.
- Tanto as organizações judaicas como as muçulmanas estão divididas internamente, refletindo fraturas mais amplas sobre Israel–Palestina.
Direitos, segurança e a política do protesto
O primeiro-ministro Albanese tem insistido que os australianos mantêm o direito de protestar, mas enquadrou a visita de Herzog de forma firmemente centrada no ataque de Bondi, e não na guerra em Gaza. Essa leitura incomoda ativistas que veem o conflito como inseparável de qualquer receção oficial a líderes israelitas.
O debate australiano espelha tensões observadas no Reino Unido, nos Estados Unidos e em vários países europeus: governos que prometem agir com firmeza contra o antissemitismo e o extremismo enquanto enfrentam mobilizações de rua em massa contra a atuação de Israel em Gaza.
Spray pimenta, polícia montada e cordões de segurança pesados tornaram-se imagens habituais neste tipo de protestos em todo o mundo, alimentando dúvidas sobre se as preocupações de segurança estão a sobrepor-se à liberdade de expressão.
Os confrontos em Sydney funcionam como um teste para perceber até onde as autoridades australianas irão quando a contestação colide com leis de segurança reforçadas.
O que o spray pimenta e os novos poderes significam na rua
Para os manifestantes, o uso de spray pimenta é mais do que uma tática policial; altera o cálculo sobre a própria decisão de ir ou não a uma manifestação. Os sprays à base de capsaicina podem provocar ardor intenso nos olhos, na garganta e na pele, além de desorientação e pânico.
Ao abrigo dos novos poderes de Nova Gales do Sul, os manifestantes arriscam não só a exposição à força, mas também multas substanciais se for entendido que desrespeitaram ordens da polícia. Essa combinação pode reduzir o número de participantes, sobretudo entre famílias, pessoas mais velhas e quem não disponha de apoio jurídico.
Advogados de direitos humanos avisam que, quando estes poderes são normalizados em torno de um tipo de protesto, podem facilmente alargar-se a outros - de manifestações climáticas a ações laborais. Os defensores das medidas respondem que se trata de uma reação proporcional ao aumento das ameaças à segurança.
Para o leitor: acusações de genocídio e imunidade de chefe de Estado
A palavra “genocídio” tem um significado jurídico preciso no direito internacional, e não apenas peso emocional. Refere-se a atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Provar essa intenção é notoriamente difícil.
No contexto Israel–Gaza, o Tribunal Internacional de Justiça não declarou que esteja a ocorrer genocídio. Em vez disso, afirmou que o processo apresentado pela África do Sul é plausível o suficiente para obrigar Israel a tomar medidas para impedir atos genocidas.
Chefes de Estado como Herzog costumam beneficiar de imunidade contra processos em tribunais estrangeiros, com base no princípio de que os governos precisam de funcionar sem que os seus líderes sejam detidos no exterior. Alguns juristas defendem que essa proteção não deve estender-se ao genocídio ou aos crimes contra a humanidade, embora os Estados tenham mostrado relutância em testar essa tese na prática.
As futuras visitas de líderes polémicos poderão, cada vez mais, ser acompanhadas por estas discussões. Na prática, isso significa mais desafios jurídicos, mais campanhas de ativistas a pedir detenções e mais pressão sobre os governos anfitriões para justificarem quem convidam e em que condições o fazem.
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