Cientistas recorreram a um vírus especialmente concebido para acompanhar as alterações no cérebro provocadas pela psilocibina em ratinhos, mostrando de que forma esta substância poderá estar a interromper ciclos repetitivos de pensamento depressivo.
Estes dados ajudam a perceber por que motivo a psilocibina tem repetidamente apresentado resultados encorajadores em pessoas com depressão ao longo de ensaios clínicos.
"Rumination is one of the main points for depression, where people have this unhealthy focus, and they keep dwelling on the same negative thoughts," afirma o bioengenheiro Alex Kwan, da Universidade de Cornell.
"By reducing some of these feedback loops, our findings are consistent with the interpretation that psilocybin may rewire the brain to break, or at least weaken, that cycle."
Psilocibina e depressão: a possível quebra dos ciclos de ruminação
A depressão é uma das principais causas de incapacidade a nível mundial, afetando mais de 300 milhões de pessoas com esta perturbação do humor.
Como muitas pessoas consideram que os tratamentos atuais têm efeitos secundários difíceis de gerir - ou, simplesmente, não resultam para elas - continua a existir uma procura ativa por alternativas, entre as quais se inclui a psilocibina.
Obtida inicialmente a partir dos chamados cogumelos mágicos, a psilocibina é um composto alucinogéneo que está a ser estudado pelas suas propriedades anti-inflamatórias, para além do seu potencial como antidepressivo.
Um vírus da raiva modificado para mapear circuitos cerebrais
Em 2021, o laboratório de Kwan demonstrou que a psilocibina altera a forma como as ligações cerebrais se organizam, concluindo que estas mudanças podiam manter-se durante muito tempo. Ainda assim, permanecia uma dúvida central: porque é que alguns neurónios passavam a formar mais ligações, enquanto outros as reduziam?
Num novo estudo liderado pelo bioengenheiro Quan Jiang, a equipa analisou com maior detalhe quais os circuitos cerebrais que estavam a ser reconfigurados e de que modo isso acontecia, usando um vírus da raiva (rabies) manipulado para seguir as mudanças nas conexões do cérebro.
Na sua forma natural, o vírus da raiva propaga-se através dos neurónios, passando de um para outro ao atravessar sinapses.
"Aqui usamos o vírus da raiva para fazer a leitura da conectividade no cérebro", explica Kwan.
O vírus deixou “rastros” de proteínas fluorescentes ao longo de percursos no cérebro dos ratinhos. Os animais receberam uma única dose de psilocibina ou um placebo e, depois, um dia mais tarde, receberam o vírus. Uma semana depois, os investigadores compararam os “rastros” virais.
O que os exames revelaram sobre as ligações no cérebro
As imagens mostraram que áreas do cérebro associadas ao processamento sensorial ficaram mais ligadas à região cerebral responsável por executar ações.
Além disso, diminuíram as conexões dentro do córtex - zona onde, em humanos, podem ocorrer ciclos de retroalimentação de pensamentos negativos.
Jiang e a sua equipa observaram ainda que a atividade cerebral parece influenciar onde ocorre a “reconfiguração” induzida pela psilocibina, o que abre a possibilidade de recorrer a métodos como a estimulação magnética para modular, de forma dirigida, a atividade neural pretendida.
Naturalmente, estas conclusões ainda precisam de ser confirmadas em humanos, já que nem todos os resultados obtidos em estudos com ratinhos se aplicam a outras espécies.
Ainda assim, os dados ajudam a explicar alguns achados de estudos observacionais em humanos e sustentam uma das ideias mais fortes sobre o modo como os psicadélicos podem atuar.
"O nosso estudo sugere uma via entusiasmante para investigação futura, combinando neuromodulação com psicadélicos para visar com precisão [e reconectar] circuitos específicos", concluem os investigadores.
Esta investigação foi publicada na revista científica Cell.
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