Vestido com um casaco acolchoado cor de laranja, o cientista japonês Yoshinori Iizuka entrou numa câmara frigorífica de armazenamento para ir buscar um testemunho de gelo que espera vir a ajudar especialistas a proteger os glaciares do mundo, que estão a desaparecer.
A amostra, do tamanho de um punho e perfurada no topo de uma montanha, integra uma iniciativa internacional ambiciosa destinada a perceber por que razão os glaciares no Tajiquistão têm resistido ao degelo acelerado observado em quase todo o resto do planeta.
"Se conseguíssemos aprender o mecanismo por detrás do aumento do volume de gelo ali, então talvez pudéssemos aplicar isso a todos os outros glaciares do mundo", disse Iizuka, professor na Universidade de Hokkaido, admitindo que isso poderia até ajudar a reavivá-los.
"Talvez seja uma afirmação demasiado ambiciosa. Mas espero que o nosso estudo acabe por ajudar as pessoas", acrescentou.
Um estudo publicado na revista Nature Alterações Climáticas na segunda-feira concluiu que milhares de glaciares irão desaparecer todos os anos nas próximas décadas, restando apenas uma pequena parte até ao fim do século, a menos que o aquecimento global seja travado.
No início deste ano, a AFP acompanhou em exclusivo Iizuka e outros cientistas em condições duríssimas até um local a 5 810 metros de altitude, na calote glaciar de Kon-Chukurbashi, nas Montanhas Pamir.
Aquela zona é a única região montanhosa do planeta onde os glaciares não só resistiram ao degelo como, inclusive, cresceram ligeiramente - um fenómeno conhecido como a "anomalia Pamir-Karakoram".
A equipa extraiu do glaciar duas colunas de gelo com aproximadamente 105 metros de comprimento.
Uma delas está guardada num santuário subterrâneo na Antártida, pertencente à Fundação Memória do Gelo, que apoiou a expedição ao Tajiquistão juntamente com o Instituto Polar Suíço.
A outra foi enviada para as instalações de Iizuka - o Instituto de Ciência de Baixas Temperaturas, na Universidade de Hokkaido, em Sapporo - onde a equipa procura pistas sobre por que motivo a precipitação na região aumentou ao longo do último século e de que forma o glaciar conseguiu resistir ao degelo.
Algumas hipóteses associam a anomalia ao clima frio da área ou até ao maior uso de água na agricultura no Paquistão, o que geraria mais vapor de água.
No entanto, estes testemunhos de gelo constituem a primeira oportunidade de analisar o fenómeno de forma científica.
"Gelo antigo" da anomalia Pamir-Karakoram
"A informação do passado é crucial", afirmou Iizuka.
"Ao compreender as causas por detrás da acumulação contínua de neve, do passado até ao presente, conseguimos clarificar o que irá acontecer daqui para a frente e por que razão o gelo cresceu."
Desde que as amostras chegaram, em novembro, a equipa tem trabalhado em instalações de armazenamento geladas para registar a densidade, o alinhamento dos grãos de neve e a estrutura das camadas de gelo.
Em dezembro, quando a AFP visitou o local, os cientistas estavam equipados como exploradores polares para cortar e aparar amostras de gelo, na temperatura relativamente amena de -20 °C do laboratório.
Estas amostras conseguem contar histórias sobre condições meteorológicas de há décadas - ou mesmo de há séculos.
Uma camada de gelo transparente indica um período quente, em que o glaciar derreteu e depois voltou a congelar, enquanto uma camada de baixa densidade sugere neve compactada, e não gelo, o que pode ajudar a estimar a precipitação.
Já amostras frágeis, com fissuras, apontam para queda de neve sobre camadas meio derretidas, que voltaram a congelar posteriormente.
Outros indícios também revelam mais informação: materiais vulcânicos, como iões de sulfato, podem funcionar como marcadores temporais, e isótopos da água permitem estimar temperaturas.
Os cientistas esperam que as amostras incluam material com 10 000 anos ou mais, embora grande parte do glaciar tenha derretido durante um período quente há cerca de 6 000 anos.
Dispor de gelo muito antigo ajudaria os cientistas a responder a perguntas como "que tipo de neve estava a cair nesta região há 10 000 anos? O que continha?", disse Iizuka.
"Podemos estudar quantas e que tipos de partículas finas estavam suspensas na atmosfera durante essa era glaciária", acrescentou.
"Espero mesmo que exista gelo antigo."
Segredos no gelo
Por agora, o trabalho avança devagar e com extrema cautela, com membros da equipa - como o estudante de pós-graduação Sora Yaginuma - a fatiar cuidadosamente as amostras.
"Um testemunho de gelo é uma amostra extremamente valiosa e única", afirmou Yaginuma.
"A partir desse único testemunho de gelo, realizamos uma variedade de análises, tanto químicas como físicas."
A equipa espera publicar as primeiras conclusões no próximo ano e, segundo Iizuka, terá de fazer "muita tentativa e erro" para reconstruir as condições climáticas do passado.
A análise em Hokkaido revelará apenas parte do que o gelo tem para contar e, com as outras amostras preservadas na Antártida, existirão oportunidades para mais investigação.
Por exemplo, disse ele, os cientistas poderão procurar indícios de como a atividade mineira histórica na região afetou a qualidade do ar, a temperatura e a precipitação.
"Podemos aprender como o ambiente da Terra mudou em resposta às atividades humanas", afirmou Iizuka.
Com tantos segredos ainda por descobrir, acrescentou, o trabalho é "extremamente entusiasmante".
© Agência France-Presse
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