Durante décadas, os cientistas desconfiaram que Vénus pudesse esconder, sob a superfície abrasadora, grandes túneis esculpidos por lava - mas faltava uma prova inequívoca.
Uma nova reanálise de um sinal de radar veio, finalmente, confirmar essa suspeita: por baixo de uma das depressões de colapso à superfície existe um túnel vulcânico vazio.
Esta deteção fornece o primeiro indício direto de que Vénus tem tubos de lava subterrâneos ainda intactos, convertendo uma hipótese geológica antiga num elemento observável da paisagem do planeta. Ao mesmo tempo, abre uma nova via para perceber como o vulcanismo venusiano moldou, no passado, a crosta.
Depressão de colapso expõe o túnel
Perto de Nyx Mons, uma elevação vulcânica em Vénus, uma das depressões de colapso destacou-se das restantes do mesmo alinhamento por apresentar uma assinatura de radar invulgar.
Ao investigar essa anomalia, uma equipa liderada por Lorenzo Bruzzone, da Universidade de Trento, descreveu um conduto oco que parece prolongar-se para lá do bordo da depressão.
Em vez de se comportar como uma cratera simples, com paredes íngremes, a estrutura gerou um eco interno prolongado - um padrão compatível com a existência de espaço aberto por baixo da crosta.
Como apenas a parte mais próxima da abertura pode ser confirmada com os dados disponíveis, o achado estabelece a presença do túnel em Vénus, mas deixa por determinar a sua extensão total.
Radar deteta o túnel oculto
A cobertura espessa de nuvens de Vénus impede a observação com câmaras de luz visível, o que torna o radar a principal ferramenta para cartografar a superfície.
Entre 1990 e 1992, a sonda Magellan, da NASA, recorreu ao Radar de Abertura Sintética - uma técnica que transforma as ondas de rádio refletidas em imagens - para mapear grande parte do planeta. Muitas décadas depois, esses mapas continuam a ser essenciais, porque nenhum orbitador posterior conseguiu repetir uma cobertura quase global semelhante.
Numa das depressões de colapso, a imagem de radar mostrou uma faixa luminosa invulgar que se estendia para além do rebordo, em vez de terminar abruptamente na superfície.
A equipa de Bruzzone interpretou esse brilho como retroespalhamento intenso: energia de radar a refletir nas paredes internas que o feixe iluminou por breves instantes.
Junto dessa faixa, surgiu ainda uma sombra profunda, sugerindo que uma parte do teto colapsou, criando uma abertura com dimensão suficiente para permitir a penetração dos sinais de radar.
Assinaturas com alternância de zonas claras e escuras, semelhantes a esta, são observadas sobre “claraboias” de tubos de lava na Terra, o que reforça a ideia de que a depressão em Vénus comunica com uma cavidade subterrânea - e não que seja apenas uma depressão superficial.
Cavidade maciça por baixo de Vénus
As medições obtidas para Vénus indicam que a abertura terá cerca de 1,0 km de largura, muito acima da dimensão típica da maioria dos túneis vulcânicos terrestres.
O teto sobre a cavidade parece ter, no mínimo, 150 m de espessura, o que ajuda a estrutura a resistir a novos colapsos. Já o vazio por baixo eleva-se pelo menos 375 m, formando um espaço interno de grande volume.
Apesar destas dimensões, os investigadores classificam a estrutura como um tubo de lava candidato, análogo a outros já propostos para Marte e para a Lua.
Estes túneis formam-se quando um escoamento de lava cria uma crosta superficial endurecida enquanto o material fundido continua a circular por baixo. Mais tarde, quando o fornecimento de lava diminui, se escoa ou muda de direção, fica para trás um canal oco.
Em Vénus, a gravidade mais baixa e a atmosfera densa podem favorecer a formação mais rápida de crostas espessas, ajudando condutas invulgarmente largas a manterem-se abertas.
A nova deteção enquadra-se nesse cenário, embora os cientistas ressalvem que o tamanho dos túneis deverá depender sobretudo de condições vulcânicas locais, e não de regras aplicáveis a todo o planeta.
Evidência apoia o tubo de lava
Nem todas as depressões de colapso conduzem a túneis subterrâneos, pelo que a equipa considerou a hipótese de esta feição ter outra origem.
Crateras de paredes íngremes e chaminés vulcânicas também podem produzir brilho em radar, mas esse realce tende a acompanhar o rebordo, não a gerar um retorno prolongado vindo do interior.
“A identificação de uma cavidade vulcânica é, por isso, de particular importância, pois permite-nos validar teorias que durante muitos anos apenas hipotetizaram a sua existência”, disse Bruzzone.
Radar mais antigo limita o detalhe
Os píxeis do radar da Magellan eram relativamente grandes, o que fez com que apenas as maiores depressões de colapso se destacassem de forma nítida. Cada píxel cobria aproximadamente 76 m, pelo que aberturas menores - “claraboias” geradas por colapso do teto que dão acesso a túneis subterrâneos - poderiam facilmente passar despercebidas nessa escala.
Como o radar iluminou apenas uma parte da abertura, os investigadores conseguiram confirmar o túnel perto da claraboia, mas não avaliar até onde o conduto se prolonga, nem se existem zonas obstruídas por detritos mais no interior.
Missões futuras pretendem colmatar estas lacunas. O orbitador EnVision, da ESA, planeia usar um radar de penetração no solo capaz de sondar cerca de 1.000 m abaixo da superfície, enquanto a missão VERITAS, da NASA, deverá fornecer mapas de radar muito mais nítidos e topografia detalhada.
Em conjunto, estas missões poderão revelar outros túneis ocultos, seguir com maior precisão cadeias de colapsos e esclarecer se o conduto agora identificado integra uma rede subterrânea mais extensa.
Cadeias de túneis sob Vénus
Em Vénus existem longas cadeias de depressões de colapso que se estendem por centenas de quilómetros, e a feição de Nyx Mons insere-se numa dessas cadeias.
A inclinação do terreno nas proximidades e outras depressões em redor sugerem que o conduto subterrâneo poderá prolongar-se por cerca de 45 km para lá da abertura confirmada. Contudo, noutras depressões do mesmo alinhamento não aparece este padrão distintivo - um indício de que detritos do colapso poderão ter selado as entradas.
Levantamentos futuros poderão seguir estas cadeias e assinalar os raros pontos onde surge o mesmo sinal, apontando para a existência de espaços subterrâneos ainda abertos.
Para a ciência de Vénus, o significado é claro: uma depressão à superfície passou a estar ligada diretamente a um túnel subterrâneo, transformando anos de especulação num alvo concreto para exploração.
Mapas de radar com maior resolução deverão indicar se existem mais condutas escondidas sob a crosta ou se este túnel se formou devido a condições locais excecionalmente raras.
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