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A Suíça escavou túneis em rocha sólida durante quase 30 anos, criando uma infraestrutura subterrânea maior do que muitas cidades à superfície.

Trabalhador de segurança com capacete e fato laranja verifica tablet no interior de túnel ferroviário subterrâneo rochoso.

The invisible network under the Alps

Numa manhã chuvosa de outono nos Alpes suíços, há um detalhe que apanha muita gente de surpresa: o som. Perto de Erstfeld, um comboio de mercadorias entra na montanha como se estivesse a atravessar uma porta secreta, desaparece no maciço e só volta a ver a luz do dia 57 quilómetros depois, já do outro lado do país. Cá em cima, as vacas pastam sem suspeitar que, muito abaixo, toneladas de aço e betão vibram num movimento contínuo. Nas plataformas, quem vai para o trabalho bebe café, mexe no telemóvel e entra em comboios que passam grande parte da viagem literalmente dentro da terra.

Durante quase 30 anos, a Suíça tem perfurado, detonado e escavado, com uma persistência quase silenciosa, uma espécie de cidade escondida sob os picos.

E essa cidade não tem ruas. Tem túneis.

Assim que começamos a reparar, é difícil “desver” a escala do mundo subterrâneo suíço. À superfície, vemos aldeias de postal, lagos impecáveis e encostas perfeitas. Logo por baixo desse cenário existe uma malha densa de túneis ferroviários, túneis rodoviários, galerias de emergência, poços de ventilação e cavernas de serviço que, em área e complexidade, rivalizam com muitas cidades médias.

O que num mapa parece ser “um túnel” costuma ser, na prática, uma estrutura em vários níveis: dois tubos paralelos, passagens de ligação a cada 325 metros, zonas ocultas para equipas de manutenção, canais de drenagem e cablagem interminável.

O exemplo mais conhecido desta saga subterrânea é o Túnel de Base do Gotardo. Inaugurado em 2016, tem 57,1 quilómetros sob os Alpes - o túnel ferroviário mais longo do mundo. Mas o “túnel” é, na verdade, um sistema com mais de 150 quilómetros de galerias quando somamos os dois tubos e as passagens de acesso.

A obra demorou 17 anos, com equipas em rotação, muitas vezes 24/7. Oito trabalhadores morreram. E milhares de pessoas passaram uma década (ou mais) a deslocar-se não para um estaleiro comum, mas para o interior de uma montanha.

Isto não começou com o Gotardo. Desde os anos 1990, a Suíça tem conduzido um projeto nacional chamado NEAT (New Rail Link through the Alps), que mudou a forma como a Europa atravessa esta barreira montanhosa. Túneis ferroviários em Lötschberg e Ceneri, dezenas de túneis rodoviários como o Túnel Rodoviário do Gotardo e o San Bernardino, e ligações regionais mais pequenas foram acrescentando camada após camada.

Peça a peça, o país empurrou para debaixo do solo uma parte enorme da mobilidade, da logística e até das reservas estratégicas. Os Alpes eram um obstáculo. Hoje, são infraestrutura.

How do you carve a city into rock?

Visto de fora, escavar um túnel pode parecer “abrir um buraco” com uma broca gigante. No subsolo, a realidade está mais perto de uma cirurgia. Antes de qualquer detonação, geólogos leem a montanha como um médico lê um exame: recorrem a testes sísmicos, sondagens com extração de testemunhos e décadas de registos para estimar como a rocha vai reagir quando for aberta.

Depois entram as máquinas de perfuração (TBMs) ou as equipas de perfuração e detonação, avançando poucos metros de cada vez, dia após dia, durante anos.

Os suíços transformaram esse trabalho repetitivo numa disciplina de fiabilidade. Em alguns estaleiros, o turno da noite parece um mundo à parte. Partilham raclette em cantinas pré-fabricadas, fazem piadas em suíço-alemão, italiano, português. Descendem de elevador ou de comboio para dentro da montanha e, por vezes, passam turnos inteiros de 10 horas sem ver luz do dia.

Quando uma TBM encontra uma bolsa de água ou rocha instável, sente-se a mudança de ambiente. O ritmo abranda, os engenheiros juntam-se aos ecrãs e surge aquele pensamento silencioso: a montanha acaba sempre por ter a última palavra.

Porque investir tanto - e durante tanto tempo - nestas artérias subterrâneas? Parte da resposta é prática: a Suíça está no centro da Europa e é um país de montanhas. Caminhões e comboios têm de passar por algum lado. Mas há também uma razão política e cultural. Nos anos 1990, os eleitores apoiaram a Iniciativa Alpina, que na prática dizia: queremos menos carga nas estradas, fora dos vales, e mais transporte por ferrovia.

Os túneis eram a única forma de obedecer à geografia e, ao mesmo tempo, respeitar esse voto. Sejamos francos: ninguém decide gastar dezenas de milhares de milhões e passar três décadas a escavar debaixo de terra a menos que o país inteiro esteja convencido de que a troca vale a pena.

What this underground city changes for everyday life

O impacto percebe-se menos a olhar para mapas e mais a circular pelo país. Uma viagem Zurique–Milão que antes soava a teste de resistência por passagens sinuosas agora atravessa os Alpes por baixo, em cerca de três horas. Comboios de mercadorias que antes subiam lentamente por túneis em espiral passaram a circular quase em plano, mais depressa e com menor custo, consumindo menos energia.

O ruído e a poluição que, de outra forma, enchiam os vales são empurrados para fora do olhar, para um mundo de anéis de betão e condutas de ventilação.

Para quem vive em aldeias de montanha, esta mudança é mais do que uma história de transportes. Menos camiões significa menos risco no inverno, menos noites interrompidas por travões de motor, menos poeira no ar. O turismo ganha um ritmo diferente: acesso mais simples para visitantes, mas também menos “cicatriz” visual na paisagem.

Há um alívio discreto em saber que o trabalho pesado e sujo de atravessar os Alpes acontece fora de vista, lá em baixo, onde a rocha é espessa e o público quase nunca entra.

Ao mesmo tempo, esta cidade subterrânea muda a forma como a Suíça pensa risco e resiliência. Muitos destes túneis têm tubos de segurança paralelos, passagens de ligação e zonas de evacuação que lembram pequenas estações escondidas dentro da montanha. Há portas corta-fogo, paredes resistentes a pressão, salas de energia de reserva e centros de comando que monitorizam tudo, desde a velocidade do vento até à posição dos comboios.

“As pessoas veem um túnel limpo e acham que é só um buraco na montanha”, disse-me uma vez um engenheiro suíço. “O que não veem é o nível de redundância, quase de hospital, que escondemos atrás dessas paredes.”

  • Multiple tubes: one for each direction, often with a service or safety tube alongside
  • Cross passages: escape routes every few hundred meters, like emergency corridors in a mall
  • Ventilation caverns: huge hidden rooms that can clear smoke or cool the air
  • Monitoring systems: sensors that listen to the rock, the temperature, the vibration
  • Access tunnels: narrow galleries only staff and rescue teams ever see

The strange intimacy of a country with its mountains

Há algo de quase paradoxal na forma como a Suíça lida com os seus Alpes. À superfície, o país vende a ideia de natureza intocada: trilhos, chalés de madeira, rios limpos. Por baixo, essas mesmas montanhas estão perfuradas como um queijo Emmental, cheias de tubos ferroviários, túneis rodoviários, bunkers militares, abrigos de emergência e depósitos de armazenamento.

Todos conhecemos aquele momento em que se sai de um túnel longo para a luz do sol e parece que saltámos no tempo ou no espaço. Na Suíça, esse salto faz parte da rotina diária.

Esta vida dupla levanta uma pergunta silenciosa: quanto podemos usar uma paisagem antes de lhe mudarmos o significado? Muitos suíços dirão que os túneis protegem os Alpes de danos à superfície - e há verdade nisso. Menos infraestrutura à vista, mais trabalho por baixo. Outros receiam que depender de megaobras invisíveis afaste as pessoas da verdadeira escala do que está a ser feito em seu nome.

Não se sente um túnel de 57 quilómetros debaixo dos pés como se sente uma autoestrada a cortar uma aldeia ao meio.

Ao mesmo tempo, esta cidade subterrânea abre outra imaginação para o futuro. A pressão climática aumenta, o tempo extremo é mais frequente e o espaço à superfície é finito. Alguns planeadores falam hoje em usar volumes subterrâneos para centros de dados, armazenamento de energia, até laboratórios de agricultura protegida. A Suíça já tem o know-how, as máquinas e a cultura de consenso necessários para esse tipo de projetos.

A verdade nua e crua é esta: o país passou três décadas a construir não apenas túneis, mas um conjunto de competências para viver com a montanha por dentro. Se isso se torna um modelo para outros - ou um aviso - é uma história que ainda está a ser escrita, bem abaixo da neve.

Key point Detail Value for the reader
Scale of underground network Decades of tunneling have created a multi-layer system rivaling mid-size cities Helps you grasp how infrastructure can reshape a landscape without being visible
Gotthard Base Tunnel as emblem 57.1 km rail tunnel, ~150 km of galleries, 17 years of work, billions invested Offers a concrete example of what it takes to link regions reliably under mountains
Everyday impact Faster travel, cleaner valleys, complex safety systems hidden in the rock Shows how large-scale projects quietly influence your trips, air quality, and safety

FAQ:

  • How long has Switzerland been building these tunnels?Most of the modern underground network comes from roughly the last 30 years, with major Alpine base tunnels built from the mid-1990s to the 2010s, on top of a century-old tradition of smaller tunnels.
  • Is the Gotthard Base Tunnel the only huge tunnel in Switzerland?No, it’s the flagship, but it’s part of a wider system that includes the Lötschberg and Ceneri base tunnels, dozens of long road tunnels, safety galleries, and service caverns.
  • How safe is it to travel through these tunnels?Safety standards are extremely strict, with multiple tubes, escape routes, high-tech monitoring, and regular drills involving firefighters, medics, and rail staff.
  • Why does Switzerland invest so much underground instead of building more surface roads?The mix of steep terrain, environmental protections, and public votes pushing freight from road to rail makes tunnels the most realistic way to keep mobility flowing without filling valleys with highways.
  • Can other countries copy this underground model?Technically yes, but it demands long-term planning, political consensus, huge budgets, and a culture that accepts multi-decade projects whose biggest parts stay invisible to most citizens.

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