Se quer desenrascar-se neste mundo, há escolhas bem piores do que ganhar um gosto especial por formigas. Na verdade, comer formigas pode ser uma receita de sucesso surpreendentemente subestimada.
Uma investigação recente conclui que depender das formigas como fonte alimentar exclusiva evoluiu, pelo menos, 12 vezes em mamíferos desde o fim do domínio dos dinossauros, há cerca de 66 milhões de anos. O mais impressionante, porém, não é tanto a dieta em si, mas o facto de essa especialização surgir quase sempre seguindo um “plano” muito semelhante.
O biólogo Thomas Vida, da Universidade de Bona, na Alemanha, explicou ao ScienceAlert: "Não é necessariamente surpreendente que os mamíferos se especializem em comer formigas, já que os nichos ecológicos quase inevitavelmente acabam por ser ocupados, mas sim que vejamos as mesmas, ou pelo menos muito semelhantes, adaptações morfológicas em tantos grupos não aparentados."
Trata-se de um dos exemplos mais marcantes de evolução convergente - quando organismos muito diferentes acabam por desenvolver características parecidas para resolver desafios semelhantes.
O boom das formigas e a oportunidade alimentar
No planeta Terra, formigas não faltam. Um estudo recente estimou o número de formigas individuais em cerca de 20 quadriliões, com uma biomassa combinada de 12 megatoneladas de carbono seco. Isto ultrapassa a biomassa de todos os mamíferos e aves selvagens juntos e corresponde a aproximadamente 20% da biomassa humana.
Nem sempre foi assim. Logo após a extinção dos dinossauros, as formigas representavam menos de 1% da população de insectos. O grande salto deu-se muito mais tarde: por volta de 23 milhões de anos atrás, no início do Mioceno, quando a sua abundância disparou.
Muitos animais, incluindo mamíferos, consomem insectos com gosto. É uma escolha lógica: são abundantes e nutritivos. Ainda assim, viver de uma dieta centrada exclusivamente em formigas - uma estratégia conhecida como mirmecofagia obrigatória - é consideravelmente mais raro.
Como a mirmecofagia obrigatória surgiu em mamíferos
O entomólogo Phillip Barden, do New Jersey Institute of Technology, contou ao ScienceAlert: "Uma das coisas em que o meu laboratório se foca é em como os insectos sociais, como formigas e térmitas, remodelaram a história da vida no planeta."
E acrescentou: "As formigas, em particular, alteraram a trajectória da evolução em muitas linhagens de insectos e plantas, mas uma questão que me tem acompanhado é até que ponto os mamíferos tiveram de lidar com a rápida ascensão de formigas e térmitas nos últimos 100 milhões de anos. Além disso, eu adoro tamanduás-gigantes."
Para explorar esta questão, Vida, Barden e o colega Zachary Calamari, da City University of New York, realizaram uma revisão minuciosa de mais de 600 fontes científicas publicadas. A partir daí, reuniram uma base de dados com os hábitos alimentares de 4.099 espécies de mamíferos.
Depois, os investigadores agruparam esses animais em cinco categorias, de acordo com a dieta: insectívoros, carnívoros, omnívoros, herbívoros e mirmecófagos obrigatórios. Essas categorias foram colocadas numa árvore genealógica dos mamíferos para perceber como estas adaptações alimentares surgiram ao longo de dezenas de milhões de anos.
Evolução convergente: o mesmo “plano” repetido para comer formigas
A equipa apurou que a mirmecofagia apareceu pelo menos 12 vezes, havendo ainda mais 2 casos possíveis que não foi possível confirmar. A lista inclui tamanduás, pangolins, equidnas, numbats e porcos-da-terra - uma diversidade que os autores não antecipavam - e abrange os três grandes grupos de mamíferos: placentários, marsupiais e monotremados.
Apesar de virem de ramos evolutivos muito afastados, estes animais acabaram por desenvolver um conjunto semelhante de características para optimizar o consumo de formigas.
Vida descreveu assim as adaptações mais evidentes: "Há algumas coisas óbvias: os seus crânios e línguas tendem a alongar-se, os dentes são frequentemente reduzidos e, em geral, têm garras/membros anteriores fortes para rasgar ninhos de insectos."
Segundo o biólogo, existem também ajustes menos imediatos de notar: "Há também algumas coisas menos óbvias, como as suas baixas temperaturas corporais/metabolismos lentos e as suas adaptações enzimáticas para digerir quitina, ambas adaptações para sobreviver com alimento abundante, mas de baixa energia."
A descoberta faz lembrar um fenómeno célebre, em que “planos corporais” de caranguejo continuam a reaparecer, com pelo menos cinco evoluções separadas de caranguejos ao longo da história evolutiva. Os caranguejos podem ser fascinantes, mas, ao que tudo indica, é nas formigas que a evolução encontra a verdadeira festa.
Barden resumiu a ideia desta forma: "As formigas parecem mesmo ser engenheiras da evolução convergente."
E detalhou: "Há o dobro das origens de mamíferos que comem formigas e térmitas do que há origens de planos corporais de caranguejo. E isto sem sequer contar com mais de 10.000 espécies de artrópodes que imitam a morfologia, o comportamento ou a sinalização química de formigas e térmitas para evitar predadores ou obter acesso a recursos de insectos sociais."
O que esta base de dados permite estudar a seguir
Para os autores, este trabalho estabelece uma base sólida para investigações futuras sobre estratégias alimentares em mamíferos. Vida sublinha que a base de dados abre caminho a análises mais aprofundadas de especializações alimentares e permite explorar com mais detalhe as origens de espécies mirmecófagas específicas. E poderá haver descobertas interessantes à espera em estudos comparativos com aves, répteis e anfíbios insectívoros.
Barden enquadrou estas ligações ao longo do tempo com a seguinte reflexão: "A história da vida está cheia de cruzamentos. Mesmo linhagens muito distantes - insectos sociais e mamíferos partilharam pela última vez um ancestral comum há mais de 500 milhões de anos - interagem de formas que podem desencadear especializações marcantes ao longo de dezenas de milhões de anos."
E concluiu com um aviso: "À medida que rapidamente remodelamos o nosso planeta, é importante lembrar que a perda de qualquer espécie pode ter muitas consequências inesperadas."
A investigação foi publicada na revista Evolution.
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