Nas alturas dos Pirenéus, onde o ar se torna mais rarefeito e os trilhos ganham inclinações duras, uma gruta discreta está a alterar a forma como interpretamos a vida e a organização social das comunidades humanas pré-históricas.
Durante décadas, a leitura dominante entre investigadores era simples: estas cotas elevadas teriam sido atravessadas apenas por curtos períodos, como passagem para outros destinos.
Uma descoberta recente contraria essa visão. A evidência indica agora que grupos humanos regressaram repetidamente à mesma gruta ao longo de milhares de anos, transportando materiais, acendendo fogueiras e deixando vestígios de actividade organizada.
Gruta pré-histórica em alta altitude
O local, conhecido como Gruta 338, fica a 2 235 metros (7 333 pés) de altitude, no sector oriental dos Pirenéus. Durante muito tempo, os arqueólogos encararam elevações como esta como espaços periféricos.
A ideia era que as pessoas subiam para caçar ou para conduzir rebanhos por pouco tempo e, depois, regressavam aos vales.
No entanto, esta gruta aponta noutro sentido: conserva um registo prolongado de utilizações sucessivas, desde cerca de 5000 a.C. até ao final do primeiro milénio a.C.
"Durante muito tempo, os ambientes de alta montanha foram vistos como marginais, lugares por onde as comunidades pré-históricas passavam ocasionalmente", afirmou o professor Carlos Tornero, autor principal do estudo e investigador do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social.
"Mas encontrámos uma sequência arqueológica muito rica, incluindo múltiplas estruturas de combustão e um número muito elevado de fragmentos de minerais verdes."
Tornero acrescentou que é difícil determinar quanto tempo as pessoas permaneciam no local, mas os dados sugerem visitas curtas repetidas ao longo de muitos anos.
Chegar à gruta dos Pirenéus
Ainda hoje, o acesso é exigente. As equipas seguem de comboio até ao vale e depois sobem a pé. As escavações dependem de janelas curtas no verão.
Além disso, toda a terra retirada tem de ser transportada para baixo para análise cuidada. O esforço actual ajuda a perceber o quão desafiante teria sido, na Pré-História, alcançar repetidamente o mesmo ponto.
Apesar de a entrada ser pequena, a gruta prolonga-se profundamente pela montanha. Em prospecções iniciais surgiram cerâmicas, ossos e rochas verdes invulgares. Esses indícios motivaram campanhas mais extensas entre 2021 e 2023.
Camadas que revelam regressos sucessivos
A equipa identificou mais de cerca de 45 cm de depósitos. As diferentes camadas correspondem a épocas distintas, com os vestígios mais antigos a recuarem a cerca de 5000 a.C.
Uma fase posterior indica utilização intensa entre 3640 e 2450 a.C.. Outra fase pertence à Idade do Bronze. Em cada caso, a estratigrafia sugere regressos ao mesmo local após intervalos prolongados.
A datação por radiocarbono mostra que a ocupação não foi contínua. Em vez disso, as visitas ocorreram em ciclos, por vezes separados por séculos. Este padrão aponta para uma memória cultural forte associada ao lugar.
Um elemento particularmente marcante é a existência de 23 lareiras. Estas estruturas de combustão aparecem frequentemente sobrepostas, assentes directamente sobre lareiras mais antigas.
Ou seja, as pessoas voltaram a escolher os mesmos pontos repetidas vezes. Isso implica planeamento e conhecimento partilhado entre gerações.
O recurso reiterado ao fogo também sugere actividades estruturadas no interior da gruta: não se tratava de um abrigo improvisado, mas de um destino conhecido e com propósito.
Minerais verdes misteriosos
A descoberta mais invulgar é a grande quantidade de fragmentos de minerais verdes. Foram contabilizados mais de 170 exemplares visíveis, além de muitos fragmentos menores.
Estes minerais poderão incluir malaquite, um minério de cobre.
Estas rochas não ocorrem naturalmente dentro da gruta, o que indica transporte humano. Muitos fragmentos surgem partidos ou esmagados, e alguns apresentam sinais de exposição ao calor.
"Muitos destes fragmentos estão termicamente alterados, enquanto outros materiais na gruta não estão, o que sugere claramente que o fogo desempenhou um papel importante no seu processamento e que houve uma intenção deliberada por trás disso", explicou a Dra. Julia Montes-Landa, coautora do estudo, da Universidade de Granada.
"Por outras palavras, não foram queimados por acidente."
Isto aponta para um processamento precoce de minerais em alta altitude. O propósito exacto permanece incerto: o material pode ter sido preparado para utilização posterior ou aproveitado como pigmento.
Refeições antigas preservadas na gruta
Os restos de fauna acrescentam pormenor ao quadro. Predominam ossos de ovelha e cabra, acompanhados por porco, cão e lebre. Alguns apresentam marcas de corte e sinais de queimadura, compatíveis com confecção e consumo.
A análise de carvão revela que a lenha usada era sobretudo de pinheiro-de-montanha, uma espécie que ainda existe na região. Outros vestígios vegetais sugerem um uso ocasional de árvores próximas.
Foram também encontrados dois restos humanos pertencentes a uma criança, o que levanta a possibilidade de a gruta ter servido, por vezes, como local de enterramento.
Objectos pessoais encontrados nos Pirenéus
Dois pequenos ornamentos oferecem um vislumbre da dimensão humana destas visitas. Um é um pendente de concha, provavelmente trazido da costa mediterrânica. O outro é um pendente feito a partir de um dente de urso.
"Recuperámos dois pendentes: um feito a partir de uma concha e outro a partir de um dente de urso-pardo", disse Tornero.
"Vêm de contextos pré-históricos, muito provavelmente em torno do segundo milénio a.C. O pendente de concha é interessante porque tem paralelos noutros sítios da Catalunha, o que sugere tradições partilhadas ou ligações entre diferentes comunidades."
"O pendente de dente de urso é muito menos comum. Isso pode apontar para algo mais específico ou simbólico, possivelmente ligado ao ambiente local."
Estes objectos indicam que, mesmo em lugares remotos, as pessoas transportavam significados e identidade.
Artefactos revelam como a gruta era usada
A gruta dos Pirenéus inclui ainda cerâmica feita à mão. Os recipientes foram moldados com técnicas simples de rolos (cordões), e em muitas peças ainda se distinguem marcas de dedos. Ao longo do tempo, os estilos mudam ligeiramente, mas o método base mantém-se.
Essa continuidade sugere transmissão de saber entre gerações. Curiosamente, o sítio apresenta muito poucas ferramentas de pedra, o que aponta para chegadas já preparadas.
Ou seja, as ferramentas teriam sido levadas até à gruta e transportadas de volta na partida. Tudo indica que o local funcionou como espaço de tarefas específicas, e não como habitação permanente.
Montanhas como destinos
A Gruta 338 está a mudar a forma como se interpretam as paisagens de alta montanha. Estes espaços não eram apenas corredores de passagem ou paragens temporárias.
Ali existiam recursos e significado. As visitas repetidas parecem responder a razões específicas, possivelmente ligadas aos minerais de cobre.
O conjunto de evidências revela actividade organizada, memória e esforço reiterado ao longo de milhares de anos.
Talvez o aspecto mais revelador seja o conhecimento de longo prazo: as pessoas lembravam-se da gruta dos Pirenéus, da sua localização e da sua função, e transmitiam essa informação mesmo após longos períodos sem utilização.
Isto sugere que as comunidades pré-históricas possuíam mapas mentais complexos do território, incluindo zonas de grande altitude.
Mineração pré-histórica nos Pirenéus
Os trabalhos na gruta dos Pirenéus continuam. Os investigadores pretendem confirmar a identidade dos minerais verdes e localizar as suas fontes.
"A identificação do mineral verde como malaquite ainda é preliminar", afirmou Tornero.
"A investigação em curso pela Universidade de Granada e pela Universidade Autónoma de Barcelona irá fornecer respostas finais em breve."
Tornero referiu ainda que a escavação ainda não atingiu toda a profundidade do sítio, o que significa que a sequência completa da gruta permanece por documentar, e que o trabalho arqueológico prosseguirá este verão.
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