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Como o Saara, o Atlântico tropical e os Estados Unidos moldam o carbono negro na Amazónia

Mulher cientista em bata branca a recolher amostras de ar para análise numa floresta com equipamento tecnológico.

O ar frio a avançar sobre os Estados Unidos pode parecer algo distante dos solos da Amazónia brasileira. Ainda assim, a atmosfera não respeita fronteiras: transporta calor, água, fumo, poeiras e nutrientes através dos oceanos.

Um novo estudo indica que grandes sistemas meteorológicos conseguem determinar se a Amazónia recebe massas de ar carregadas de partículas africanas ou, pelo contrário, ar já “lavado” pela chuva durante a travessia do Atlântico.

Porque é que a Amazónia precisa de ajuda

À primeira vista, a Amazónia parece inesgotavelmente abundante: árvores densas, rios imponentes e uma fauna conhecida em todo o mundo.

No entanto, uma parte considerável dos seus solos é inesperadamente pobre em nutrientes. A precipitação intensa remove minerais das camadas superiores do solo - um fenómeno chamado lixiviação.

O nutriente que mais falta é o fósforo. Também se observam níveis baixos de cálcio, potássio e magnésio.

Uma parte deste “reforço” chega de muito longe: poeira mineral do Deserto do Saara e aerossóis de fumo provenientes da queima de biomassa em África.

O papel discreto do Saara

Luiz Augusto Toledo Machado é professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha.

“Os resultados demonstram que existe uma interligação, uma simbiose da vida no planeta. As alterações climáticas afetam este padrão, provocando uma rutura cujos resultados e consequências para os ecossistemas futuros ainda são desconhecidos”, afirmou Machado.

Ao contrário do que se poderia supor, acrescentou, esta região é muito importante para a saúde do planeta.

“A sua poeira contém minerais cruciais não só para fertilizar a Amazónia, mas também para sustentar a vida aquática.”

“Entre eles estão o ferro e o fósforo, que são fundamentais para a produtividade florestal e para a vida nos oceanos.”

O que a torre mediu

Para a análise, os investigadores recorreram a medições diárias de carbono negro obtidas no Observatório da Torre Alta da Amazónia, uma torre com cerca de 325 metros (1,066 pés) localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no Brasil.

A torre recolhe dados meteorológicos, químicos e biológicos, incluindo informações sobre gases com efeito de estufa.

O carbono negro é fuligem resultante da combustão de combustíveis e de biomassa. Na época das chuvas, estas medições ajudam os cientistas a acompanhar o transporte de partículas a longas distâncias.

Segundo Machado, aproximadamente 60% do carbono negro que chega à Amazónia durante a estação chuvosa tem origem em África.

Dias limpos e dias poluídos

A equipa avaliou os níveis diários de carbono negro em janeiro e fevereiro, entre 2015 e 2022 - período que corresponde ao início da época das chuvas na Amazónia.

Em alguns dias, notou-se uma influência africana marcada. Noutros, o ar estava invulgarmente limpo.

A surpresa principal esteve ligada à chuva no Atlântico tropical: os dias mais “limpos” na Amazónia surgiam após o pico de precipitação sobre o oceano.

Até aqui, a explicação mais comum apontava sobretudo para a direção do vento. Este trabalho, porém, atribui o fenómeno a um padrão meteorológico de maior escala.

Ligação com os Estados Unidos

Os investigadores verificaram que os dias de maior pluviosidade no Atlântico tropical coincidiam frequentemente com incursões de ar frio nos Estados Unidos.

Nessas situações, sistemas de alta pressão dominavam o leste dos EUA, enquanto a pressão também subia sobre o Atlântico central e meridional.

Este arranjo reforçava a convergência dos ventos de baixos níveis junto ao equador. A humidade era empurrada com mais intensidade na direção da Amazónia. A chuva aumentava. E o ar chegava à floresta mais limpo, após ter sido “lavado” no percurso.

Porque é que isto importa

O estudo acrescenta um detalhe relevante a uma história maior: florestas, desertos, oceanos e sistemas meteorológicos estão ligados de formas fáceis de ignorar.

Um episódio de frio numa região pode alterar a mistura de partículas que alcança outra, a milhares de quilómetros de distância.

Machado referiu ainda investigações anteriores que mostram que a escassez de fósforo pode limitar o crescimento da Amazónia mesmo quando há mais dióxido de carbono no ar.

Isto é importante porque um crescimento mais rápido das plantas pode ajudar a retirar carbono da atmosfera. Mais tarde, mapas produzidos com recurso a inteligência artificial confirmaram níveis baixos de fósforo em toda a região.

O que os cientistas vão observar a seguir

Em geral, partículas e gases deslocam-se desde África acima da camada limite marinha - a parte inferior da atmosfera que está em contacto direto com o oceano.

Depois, o jacto de baixos níveis da Amazónia ajuda a transportá-los para dentro da bacia.

Alterações nestes jactos de baixos níveis podem mudar a quantidade de poeira e fumo que chega à floresta.

Isso pode influenciar a resiliência da Amazónia no longo prazo, sobretudo à medida que as alterações climáticas modificam a precipitação, os sistemas de pressão e os padrões de vento.

O estudo completo foi publicado na revista Cartas de Investigação Geofísica.

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