Quando um ROV se depara com algo irreconhecível no fundo do mar, a regra prática é simples: parte-se do princípio de que a amostra está viva.
Na maioria dos casos, esses “achados” acabam por ser organismos à espera de classificação e registo. Foi exactamente essa a leitura feita quando surgiu o primeiro vídeo do chamado orbe dourado no leito oceânico.
Sob as luzes do ROV, o objecto emitia um brilho dourado pálido e tinha mais ou menos o tamanho de uma bola de softbol. Parecia hermeticamente fechado, com excepção de uma pequena abertura rasgada no topo. No directo, os cientistas discutiam se deveriam tocá-lo com a ferramenta.
Um enigma de dois anos
O episódio ocorreu durante a expedição Seascape Alaska 5, da NOAA. O ROV Deep Discoverer operava junto a uma estrutura vulcânica sem nome, a sudoeste do monte submarino Walker, no Golfo do Alasca.
O objecto encontrava-se entre esponjas vítreas, pousado numa laje de basalto. Era liso e tinha um aspecto estranhamente metálico, com um orifício perto da parte superior.
A tripulação começou por lhe chamar orbe dourado, mas ninguém conseguia identificar do que se tratava. Seria uma cápsula de ovos, uma esponja morta, ou algo que já teria eclodido?
Com o bocal de sucção do ROV, aspiraram-no e enviaram-no para o Smithsonian.
Não era um animal típico
A amostra acabou por chegar aos laboratórios da NOAA Fisheries e do Smithsonian National Museum of Natural History (NMNH).
Foi aí que o Dr. Allen Collins, zoólogo e director do National Systematics Laboratory, assumiu a tarefa de desvendar o caso.
Ao microscópio, não aparecia qualquer anatomia animal reconhecível: nada de boca, nada de tubo digestivo, nada de tecido muscular. Via-se apenas uma massa frouxa de fibras, envolta por uma pele lisa e estratificada.
“Suspeitei que os nossos processos de rotina iriam esclarecer o mistério. Mas isto transformou-se num caso especial que exigiu esforços focados e a experiência de várias pessoas diferentes”, afirmou Collins.
Surgem células urticantes
No laboratório, uma cientista chamada Abigail Reft encontrou a primeira pista sólida. A superfície do objecto estava repleta de cnidócitos.
Estas são células urticantes que só existem em medusas, corais, anémonas e parentes próximos.
Mais do que isso, ela detectou um tipo de célula urticante presente apenas em anémonas-do-mar, corais verdadeiros e corais negros - e que não surge em mais nada no reino animal.
As mesmas células urticantes foram também identificadas num espécime semelhante, recolhido em 2021 por uma outra expedição.
O ADN coincide com Relicanthus daphneae
Os primeiros testes de ADN não resultaram. Havia demasiados micróbios a viver sobre o orbe, e o material genético desses organismos terá provavelmente abafado o sinal do animal hospedeiro.
Perante isso, a equipa avançou para uma análise mais abrangente, que acabou por produzir um mapa genético completo a partir das células do orbe.
Esse perfil genético correspondia quase na perfeição a Relicanthus daphneae, uma anémona gigante de águas profundas.
O exemplar de 2021 também coincidiu. Um artigo anterior já tinha colocado esta espécie num ramo isolado da árvore genealógica das anémonas, e estas novas sequências vieram confirmá-lo.
Conheça a anémona gigante
Relicanthus daphneae não se comporta como uma anémona “normal”. Polipos individuais podem abrir até cerca de 30 cm de largura, com tentáculos lilases pálidos ou rosados a arrastarem-se por cerca de 2,1 m.
A espécie habita aproximadamente entre 1 220 m e 3 960 m de profundidade. Foi descrita pela primeira vez em 2006, cerca de 30 anos depois do seu primeiro avistamento.
Depois da descoberta, foi reclassificada em 2014 num género totalmente novo.
Trata-se de um registo raro, porque existem poucos exemplares em qualquer colecção. Grande parte do que se sabe provém de imagens obtidas por ROV.
Essas filmagens mostram animais vivos fixos em rochas ou com os tentáculos a derivar na corrente.
Um pé deixado para trás
Em suma, o orbe não era um ovo, nem uma esponja, nem sequer um animal inteiro. Era apenas um fragmento de um. Em concreto, correspondia a parte da base da anémona - a camada que o animal segrega para se prender à rocha.
Essa camada fica escondida sob o polipo, o que ajuda a explicar porque há tão pouca informação sobre ela. O orbe era, de certa forma, um resto, e o animal tinha desaparecido, de uma forma ou de outra.
O que terá acontecido ao resto da anémona? Pode ter morrido e decomposto.
Ou então poderá ter-se desprendido e seguido caminho. As anémonas de águas profundas são frequentemente observadas a rastejar, a rolar e até a nadar. Isto pode ser um indício de deslocação.
As respostas continuam pouco claras. Uma hipótese é a laceração pedal, uma forma de reprodução assexuada em que pequenos pedaços do “pé” se rasgam e crescem até se tornarem novos indivíduos.
Outra explicação possível é uma simples perda de tecido durante a locomoção. A resposta definitiva permanece desconhecida.
Descobertas futuras por fazer
Dois anos e meio depois, os cientistas passaram a compreender melhor o material descartado no fundo do Pacífico.
A observação física, em conjunto com a sequenciação de ADN, pode ligar uma estrutura a uma espécie mesmo quando o animal original já não está presente.
Isto altera a forma como futuras expedições irão encarar massas estranhas no fundo do mar. Um “bolo” sem anatomia evidente pode, ainda assim, conter um mapa genético completo.
Outros navios, incluindo o Okeanos Explorer, vão regressar ao trabalho de águas profundas este ano.
“Com técnicas avançadas como a sequenciação de ADN, conseguimos resolver cada vez mais deles”, disse o Capitão William Mowitt, director interino da NOAA Ocean Exploration.
O oceano está cheio de coisas sem nome que ainda aguardam ser descobertas nos próximos anos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário