A maioria das espécies de baleias pode ser observada no mar. Os investigadores fotografam indivíduos, contabilizam crias e seguem deslocações ao longo de anos. Mas, quando se trata de uma baleia com menos de 50 adultos remanescentes no Golfo do México, nada disso é viável.
Com tão poucos animais, falta matéria-prima para esse trabalho de campo. Ainda assim, quando a baleia que serviu para definir a espécie deu à costa em 2019 - com o intestino perfurado após ingerir plástico - os investigadores conseguiram recuperar as suas barbas.
Essas placas longas, semelhantes a pentes, que pendem da maxila superior são feitas de queratina, a mesma proteína das unhas humanas, e continuam a crescer ao longo de toda a vida do animal. Cada centímetro funciona como uma cápsula do tempo.
Barbas e a baleia de Rice
A pista está nas barbas. As placas compridas e franjadas na maxila superior não são apenas ferramentas de alimentação: crescem de forma contínua e, a cada fase desse crescimento, incorporam hormonas esteroides provenientes do sangue em circulação.
Cada segmento fino da placa concentra cerca de duas a quatro semanas de informação biológica, disposta em sequência - do material mais antigo na ponta ao mais recente junto à base.
Rebecca G. Evey, bióloga na George Mason University (GMU), coordenou a análise de sete placas de barbas - uma por cada um dos únicos exemplares de baleia de Rice existentes em colecções museológicas em todo o mundo.
Cada placa corresponde a uma única tira vertical desse tecido filtrador, preservada após a morte e mantida em arquivo durante décadas.
A equipa procurou interpretar o que os padrões hormonais poderiam revelar sobre reprodução, stress e os meses que antecederam a morte de cada baleia.
Sete placas, quatro hormonas
Para isso, o grupo triturou amostras de cada placa a intervalos regulares, avançando a partir da base. Foram avaliadas quatro hormonas esteroides: progesterona, testosterona, cortisol e corticosterona. As duas primeiras estão associadas à reprodução; as duas últimas, ao stress.
Alguns destes espécimes recuam quase um século. A placa de barbas mais antiga é de 1923, e a mais recente pertence ao holótipo - o exemplar-tipo que define a espécie - que deu à costa em 2019.
Gravidez escrita nas linhas
Uma das fêmeas analisadas estava a amamentar quando morreu devido a uma colisão com um navio. Nas barbas, surgiu um aumento prolongado e sustentado de progesterona ao longo de grande parte da placa, seguido de uma descida gradual.
Trata-se da assinatura de uma gravidez concluída. Com base nessa curva, a equipa estimou uma gestação de aproximadamente 13.7 meses, em termos gerais alinhada com o que se conhece de espécies próximas. Este valor é o primeiro, para esta baleia, sustentado por evidência hormonal.
Essa confirmação tem implicações directas para a gestão da espécie. Mesmo um número reduzido de baleias arrojadas pode agora permitir perceber se as fêmeas desta população em perigo crítico estão a reproduzir-se - e quão recentemente.
Sem ritmo fixo de reprodução
A maior surpresa surgiu nos três machos adultos. Na maioria das baleias de barbas, a testosterona sobe e desce num ciclo anual previsível, atingindo o máximo durante uma época de reprodução bem definida.
Nas baleias de Rice, não apareceu esse padrão. Os picos de testosterona ocorreram em meses diferentes consoante o indivíduo, sem sincronização no conjunto.
Isto sugere que a espécie poderá não ter uma época de reprodução fixa. É um comportamento atípico para uma baleia de barbas. O seu parente próximo, a baleia-de-Bryde, apresenta algo semelhante em algumas populações tropicais - reproduzindo-se ao longo de todo o ano, com possíveis picos no outono.
Hormonas perto da morte
Em três baleias, a causa de morte era conhecida. Uma morreu após ingerir plástico, o que lhe perfurou o intestino. Outra sucumbiu a um emaranhamento crónico, com uma corda de pesca a cortar o crânio. A terceira morreu numa colisão súbita com um navio.
Nos dois animais cuja morte foi lenta, observou-se algo marcante: as quatro hormonas aumentaram de forma abrupta na parte das barbas que cresceu mais recentemente - correspondendo a cerca dos últimos dois meses de vida. Já a fêmea atingida pelo navio não exibiu esse sinal.
Evey e colegas designaram este fenómeno como “moribund pattern” - a causa não está confirmada, mas a falência de órgãos em baleias em fase terminal poderá abrandar a eliminação de hormonas do sangue, permitindo a sua acumulação.
Um artigo separado, centrado em poluentes nas barbas da baleia de Rice, registou também um pico semelhante próximo da morte; contudo, permanece incerto se ambos os sinais têm a mesma origem.
Baleias de Rice juvenis
Em todos os juvenis do estudo - dois subadultos e uma cria - as quatro hormonas surgiram em níveis mais elevados do que nos adultos, incluindo as associadas à reprodução.
A única cria apresentou testosterona cinco vezes acima do nível basal dos adultos e progesterona quase quatro vezes superior - padrões que se mantiveram independentemente do sexo do juvenil.
A explicação para isto ainda não é clara. As hormonas podem passar da mãe para a cria através do leite ou, em alternativa, ser produzidas pela própria cria.
Em baleias de barbas de qualquer espécie, quase nunca se medem esteroides reprodutivos durante a amamentação, o que deixa poucos dados externos para comparação com este trabalho.
O que isto pode mudar
Antes deste estudo, ninguém tinha medido hormonas em tecido da baleia de Rice. A espécie só foi formalmente reconhecida em 2021, quando uma análise genética e morfológica a separou da baleia-de-Bryde.
A partir de agora, é possível identificar gravidezes através da análise das barbas. As mortes lentas deixam uma impressão hormonal distinta das mortes súbitas e, ao que tudo indica, a espécie não tem uma época de reprodução fixa.
Isto constitui uma alavanca real para a conservação. O Golfo está repleto de ameaças para estas baleias - colisões com navios, artes de pesca, actividade de petróleo e gás e detritos ingeridos.
Com estes resultados, os registos nas barbas podem indicar quais os animais que já estavam a deteriorar-se antes de morrer e quais se mantiveram saudáveis até ao fim. Com menos de 50 adultos, a história de cada indivíduo conta.
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