Durante décadas, a Antártida pareceu desafiar o aquecimento global.
Desde que os satélites começaram a observar os pólos no final da década de 1970, o avanço e recuo sazonais do gelo marinho antártico - água do mar congelada que se expande em torno do continente a cada inverno - pareceram notavelmente estáveis. Muitas vezes, este ciclo foi descrito como o "batimento cardíaco do planeta".
Porque é que o gelo marinho da Antártida parecia resistir
Ao contrário do Ártico, onde o gelo marinho diminuiu rapidamente à medida que o planeta aquecia, na Antártida não se via uma perda global clara. Chegou mesmo a registar-se um aumento entre 2007 e 2015. No entanto, essa capacidade de resistência acabou por ceder.
A Antártida foi, durante muito tempo, encarada como uma parte do sistema climático cuja transformação seria lenta. Por isso, a rapidez da recente diminuição do gelo marinho apanhou a comunidade científica de surpresa.
Os cientistas esperavam que o gelo marinho antártico viesse a encolher com o aquecimento do planeta - mas não a este ritmo. A descida observada na última década não foi antecipada pelos modelos climáticos usados para compreender como o continente responde ao aquecimento.
Queda abrupta desde 2015 e mínimos históricos em 2023
A partir de 2015, o gelo marinho da Antártida entrou numa forte trajectória de declínio. Em 2023, a extensão do gelo no inverno caiu para mínimos históricos - tão abaixo da média de longo prazo que os cientistas consideraram tratar-se de um acontecimento com uma probabilidade de cerca de 1 em 3.5 milhões de ocorrer por acaso.
Isto torna a redução recente particularmente inquietante: sugere que os processos podem estar a evoluir mais depressa, ou de formas diferentes, do que os nossos modelos conseguem captar na totalidade.
E isso é importante porque o gelo marinho reflecte a luz solar de volta para o espaço e contribui para impulsionar correntes oceânicas que retêm calor e carbono nas profundezas. A sua diminuição terá implicações tanto para o clima como para os ecossistemas únicos da Antártida que dele dependem.
Uma mudança fundamental
No nosso novo estudo científico, mostramos que o oceano em redor da Antártida passou por uma mudança fundamental. O calor que estava aprisionado a grande profundidade está agora a subir, aproximando-se da superfície, onde consegue derreter o gelo marinho.
A sequência de acontecimentos que desencadeou esta alteração começou há décadas. Em torno da Antártida, os ventos intensificaram-se devido ao buraco do ozono e às emissões de gases com efeito de estufa. Esses ventos mais fortes funcionaram como uma bomba, puxando gradualmente água profunda, quente e salgada para mais perto da superfície.
Durante anos, o mar que rodeia a Antártida - o Oceano Austral - manteve uma estratificação muito marcada: água fria e menos salgada por cima e, por baixo, água mais quente e mais salgada. Essa separação impedia o calor de chegar à superfície.
Com o tempo, porém, essa barreira foi enfraquecendo. Por volta de 2015, a água profunda mais quente já tinha subido o suficiente para que tempestades e ventos fortes a remexessem até à superfície.
Desde então, as águas à volta da Antártida ficaram presas num ciclo auto-reforçado. A subida de água profunda transporta calor e sal para a superfície. O calor derrete o gelo marinho, enquanto o sal adicional torna as águas superficiais mais densas e mais fáceis de misturar com as águas mais quentes de baixo. Assim, ainda mais calor consegue ascender, tornando mais difícil a formação de novo gelo marinho, e assim sucessivamente.
Efeitos em cascata no clima e nos ecossistemas antárticos
As consequências não são apenas físicas. O gelo marinho antártico sustenta um dos ecossistemas mais singulares do mundo. As algas crescem sobre e sob o gelo, alimentando o krill, que por sua vez sustenta pinguins, focas, baleias e aves marinhas.
A baixa cobertura de gelo marinho já foi associada a afogamentos em massa de crias de pinguim-imperador - colocando toda a espécie em risco. Uma mudança prolongada para valores inferiores de gelo marinho iria, por isso, remodelar não só o próprio clima, mas também a vida no Oceano Austral.
Isto não é apenas uma história regional. O gelo marinho da Antártida actua como um espelho, reflectindo a luz solar e ajudando a manter o planeta mais fresco. À medida que encolhe, o oceano absorve mais calor. Em simultâneo, alterações na circulação do Oceano Austral podem reduzir a capacidade do oceano para armazenar calor e carbono.
No passado, a Antártida ajudou a amortecer o aquecimento global. Os nossos resultados sugerem que poderá agora estar a mudar no sentido oposto.
Ainda não é claro se isto marca uma alteração permanente. Mas, se as condições de pouco gelo marinho persistirem, o Oceano Austral pode começar a acelerar o aquecimento global, em vez de o limitar.
Aditya Narayanan, Investigador de Pós-Doutoramento, Universidade de Southampton; UNSW Sydney; Alberto Naveira Garabato, Professor, Centro Nacional de Oceanografia, Universidade de Southampton, e Alessandro Silvano, NERC Independent Research Fellow em Oceanografia, Universidade de Southampton
Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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