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Porque os chimpanzés metem ervas nos ouvidos e até no rabo

Grupo de chimpanzés jovens sentados na relva, com binóculos e uma pessoa a observar e anotar.

A cena podia passar por uma sessão de moda absurda: jovens chimpanzés estendidos à sombra, a tratarem-se mutuamente, uns com finas palhinhas verdes enfiadas na orelha, outros a exibi-las na parte de trás do corpo. Por detrás do lado cómico, os cientistas vêem aqui um indício sério sobre a forma como cultura, tendências e até um certo “estilo” podem circular entre os nossos parentes animais mais próximos.

Dos enfeites na orelha ao “manifesto” entre as nádegas - chimpanzés de Chimfunshi

Tudo começou no Orfanato de Vida Selvagem de Chimfunshi, no norte da Zâmbia, um dos maiores santuários de chimpanzés de África. Há cerca de uma década, investigadores do comportamento já tinham descrito um hábito pouco comum: chimpanzés a introduzirem, com aparente descontração, uma lâmina de erva numa orelha e a deixarem-na a sobressair, como se fosse um brinco minimalista.

O primeiro registo, divulgado num artigo científico em 2014, pareceu na altura um caso isolado, uma excentricidade sem futuro. Porém, um novo estudo publicado na revista Comportamento a 4 de julho de 2025 indica que o “visual” não só reapareceu noutro grupo, como ainda se transformou.

Nas observações mais recentes, um núcleo de chimpanzés em Chimfunshi mantém o clássico acessório de erva na orelha. Mas alguns indivíduos acrescentaram uma variação que surpreende: também colocam a erva entre as nádegas, deixando-a de fora como se fosse uma pequena cauda verde.

O que começou como um hábito estranho de um único chimpanzé transformou-se numa moda passageira, espalhando-se pelo grupo em poucos dias.

Ao seguir a disseminação do comportamento, a equipa verificou que um macho de estatuto elevado parece ter sido o ponto de partida. Em aproximadamente uma semana, vários outros chimpanzés já o imitavam. Nem todos aderiram, mas a adesão foi suficiente para que deixasse de parecer um gesto aleatório.

Terá a “moda” dos chimpanzés sido inspirada por humanos?

A estranheza do costume levou a uma pergunta inevitável: de onde veio a ideia? Como esta tendência surgiu num grupo sem contacto com os chimpanzés observados há dez anos, a cópia direta entre grupos era uma explicação pouco provável.

A hipótese de coincidência foi considerada, mas as semelhanças eram demasiado específicas: duas comunidades diferentes, no mesmo santuário, ambas a brincarem com erva na orelha. Isso levou os investigadores a olhar para além dos próprios chimpanzés.

A peça que faltava veio dos trabalhadores do santuário. Alguns tratadores admitiram que, por vezes, durante o trabalho, colocam uma haste de erva - ou até um pau de fósforo - na própria orelha, para coçar ou limpar. Noutras áreas e recintos, outros tratadores disseram nunca ter esse hábito.

Onde os tratadores mexiam habitualmente em ervas nas orelhas, os chimpanzés tinham maior probabilidade de copiar o gesto e transformá-lo num hábito do grupo.

A explicação de trabalho é direta: os chimpanzés passam o dia a observar humanos. Um chimpanzé curioso vê um tratador familiar a meter erva na orelha; experimenta o mesmo gesto e percebe que é interessante - ou, no mínimo, inofensivo. Repete. E, como outros chimpanzés estão atentos, acabam por aderir.

Já a colocação entre as nádegas parece ser uma invenção dos próprios chimpanzés. Depois de a ideia base - “corpo + erva” - se estabelecer, um indivíduo tentou um novo local. O gesto chamou a atenção, terá provocado reações sociais, e depressa se espalhou como uma espécie de piada interna partilhada pelo grupo.

É moda, é ferramenta ou é só uma brincadeira?

Para a ciência, a tendência da erva vive numa zona cinzenta. Não funciona como uma ferramenta: os chimpanzés não a usam para alcançar alimento, extrair insetos ou tratar feridas. Também não há benefícios de saúde evidentes.

Em contrapartida, parece muito próxima do que os humanos chamariam uma escolha de estilo ou um sinal lúdico - mais ligado à comunicação do que à sobrevivência. Um chimpanzé que passa com erva na orelha faz algo visível, dispensável e socialmente notório, semelhante à lógica humana de usar um chapéu marcante ou um piercing.

  • Ferramenta? Não há utilidade prática clara.
  • Brincadeira? Provavelmente ligada a jogo social e experimentação.
  • Sinal? Pode significar “faço parte deste grupo” ou “estou a interagir contigo”.
  • Moda? Num sentido amplo, sim: um estilo arbitrário partilhado que se propaga por imitação.

Um ponto adicional que ajuda a compreender este fenómeno é o chamado viés de prestígio: em muitas espécies sociais, incluindo primatas, tende-se a copiar indivíduos com estatuto, popularidade ou influência. Isso pode explicar por que motivo um gesto “sem função” ganha tração quando é iniciado por um macho dominante.

Porque é que chimpanzés em cativeiro têm espaço para tendências

A vida num santuário dá aos chimpanzés algo que raramente existe na floresta: tempo livre. A alimentação é fornecida. Não há predadores. Existem conflitos e hierarquias, mas o esforço diário para sobreviver é menor.

O investigador principal Edwin van Leeuwen, da Universidade de Utrecht, defende que esta folga permite que novas tradições se instalem. Com mais energia disponível, os chimpanzés passam mais tempo a observar, cuidar do pelo uns dos outros, experimentar e copiar gestos estranhos que lhes chamam a atenção.

Mais tempo livre significa mais espaço para comportamentos semelhantes aos da cultura: manias locais, tradições e hábitos aparentemente inúteis, mas socialmente relevantes.

Colocar erva na orelha ou erva entre as nádegas torna-se um sinal de baixo risco para mostrar interesse social. Quando um subordinado imita a novidade bizarra de um macho dominante, pode estar a comunicar: “estou atento, reconheço-te e quero ser associado a ti”. Quando o hábito se torna partilhado, acaba por reforçar ligações.

Os investigadores sublinham ainda que, tal como nos humanos, a imitação nos chimpanzés raramente é neutra: quem se copia, quando e onde tem significado social. Ao reproduzir o comportamento de um indivíduo influente, os chimpanzés podem estar a negociar discretamente a sua posição no grupo.

Poderia acontecer o mesmo com chimpanzés selvagens?

Cientistas de campo que acompanham chimpanzés em liberdade já descrevem diferenças culturais entre grupos. Alguns usam pedras para partir nozes e outros não. Alguns recorrem a gestos específicos com folhas durante cuidados de pelo ou corte. São tradições locais, aprendidas socialmente e transmitidas ao longo do tempo.

Dito isto, ninguém espera ver chimpanzés selvagens a desfilar com erva decorativa entre as nádegas. As pressões da vida na floresta deixam menos espaço para brincadeira “pura”: procurar alimento, defender território e manter vigilância vêm primeiro.

Os santuários funcionam, por isso, como uma espécie de laboratório comportamental. Sem ameaça constante, os chimpanzés podem levar a curiosidade a terrenos mais extravagantes - tendências que talvez nunca emergissem em condições mais duras. O mesmo aparelho cognitivo que sustenta o uso sofisticado de ferramentas em liberdade pode, num ambiente seguro, sustentar modas aparentemente frívolas.

Um aspeto pouco discutido, mas relevante, é a gestão de enriquecimento ambiental: quando se oferecem materiais seguros (folhas, cordas, objetos simples) e se varia o ambiente, aumenta-se a oportunidade de surgirem rituais e hábitos novos. Isso pode ser positivo, desde que não crie riscos (por exemplo, ingestão de objetos ou comportamentos que gerem conflito).

Como distinguir uma “tendência” de um acaso

Uma das maiores dificuldades é separar uma mania individual de um padrão real no grupo. Em geral, os cientistas do comportamento procuram sinais como:

Critério O que os investigadores procuram
Disseminação O comportamento passa de um indivíduo para vários outros?
Duração Mantém-se durante semanas ou meses, e não apenas um dia?
Via de aprendizagem Indivíduos jovens ou de baixo estatuto copiam os mais velhos ou dominantes?
Ausência de função Não há vantagem óbvia para a sobrevivência, sugerindo um papel social?

Os comportamentos de erva na orelha e erva entre as nádegas cumprem vários destes pontos: espalharam-se por parte do grupo, duraram algum tempo e não parecem trazer mais alimento nem mais segurança.

O que significa “cultura” quando se fala de chimpanzés

Quando os cientistas usam a palavra “cultura” em animais, não estão a falar de museus ou literatura. Referem-se a tradições e comportamentos que:

  • são partilhados dentro de um grupo;
  • variam entre grupos da mesma espécie;
  • são aprendidos socialmente, e não fixados apenas pela genética.

Por este critério, os chimpanzés têm claramente cultura. Diferentes comunidades exibem cumprimentos próprios, rituais de cuidado do pelo, conjuntos de ferramentas e truques de procura de alimento. A tendência da erva em Chimfunshi encaixa aqui como uma tradição leve, visual e marcadamente social.

Para os humanos, isto importa porque reduz a distância que gostamos de traçar entre os nossos comportamentos simbólicos e os de outros animais. Os chimpanzés não criam marcas nem passarelas, mas demonstram gosto por sinais arbitrários que só fazem sentido no interior do seu grupo.

O que isto implica para quem visita ou trabalha com grandes símios

Para equipas de santuários, tratadores de zoológicos e investigadores no terreno, o estudo deixa um lembrete prático: os grandes símios observam tudo. Um hábito casual - coçar a orelha com erva, usar um adereço chamativo, bater ritmicamente numa superfície - pode tornar-se matéria-prima para novos comportamentos.

Isto levanta questões éticas. Devem os humanos modelar ações de propósito para enriquecer a vida dos símios? Alguns programas já ensinam gestos simples ou usos básicos de objetos para estimular a mente. Ao mesmo tempo, ninguém quer introduzir comportamentos que possam causar stress, lesões ou conflitos.

Uma abordagem sensata passa por enriquecimento estruturado: disponibilizar materiais seguros, rodar objetos e observar como os animais escolhem interagir. “Modas” com erva tendem a ser inofensivas. Já imitações perigosas - como manipular fechos, introduzir objetos em feridas ou provocar agressões - exigiriam intervenção rápida.

Se alguma vez vir um chimpanzé com erva “vestida”

Quem notar adornos estranhos em chimpanzés pode encará-los como pequenas janelas para mentes complexas. Aquela orelha com erva não é, necessariamente, um acidente. Pode carregar uma história de observação, curiosidade e imitação discreta.

Por detrás de uma simples lâmina verde pode existir um gesto involuntário de um tratador, a ousadia experimental de um chimpanzé e uma teia de alianças em movimento, enquanto os outros decidem aderir à tendência ou ignorá-la. Numa espécie tão próxima da nossa, até um acessório de brincadeira pode dizer muito sobre como a cultura cresce.

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