Fazer contas à mobilidade em Portugal tornou-se quase um desporto: entre abastecimentos cada vez mais caros e deslocações diárias que não perdoam, a fatura sobe depressa. Um elétrico usado e barato, sobretudo como segundo carro, pode ser exatamente a peça que falta para reduzir custos - especialmente quando a vida é feita de percursos curtos entre casa, trabalho, escola e compras.
Nesse contexto, um 100% elétrico em segunda mão pode encaixar muito bem. Não é uma solução universal, claro, mas ataca o problema onde ele costuma doer mais: o custo por quilómetro.
Para ajudar na decisão, encontrámos cinco modelos no piscapisca.pt e fizemos algumas contas extra. Por isso, antes de falarmos dos carros em si, vamos comparar o custo estimado por cada 100 km entre gasolina, Diesel, híbridos e 100% elétricos.
Para quem tem onde carregar, as contas são relativamente diretas, como mostramos nesta tabela. Para quem não tem possibilidade de carregamento, a coisa complica-se - e talvez um pequeno híbrido continue a ser difícil de bater.
Foi também com isso em mente que fizemos a nossa pesquisa no mercado de usados, em particular no PiscaPisca.pt, que tem o maior inventário nacional de carros usados e onde é possível encontrar mais de uma centena de opções abaixo da barreira psicológica dos 10 mil euros.
Não espere milagres. Nesta faixa de preço, a autonomia raramente impressiona, a velocidade de carregamento fica longe dos modelos atuais e o estado da bateria deve ser olhado com ainda mais atenção do que a quilometragem. Ainda assim, para quem quer escapar à bomba sem rebentar o orçamento, há opções que continuam a valer a pena.
Além disso, pode ser libertador ter em casa um carro “para tudo”. Um toque no supermercado? Acontece. Mais um risco no pára-choques? Nem dei por ele. Vamos aos candidatos.
Nissan Leaf é o mais familiar
O Nissan Leaf foi um dos primeiros elétricos a pôr a eletrificação ao alcance de muita gente. É um carro “a sério”: além de ser elétrico, tem espaço para família, uma bagageira generosa para o segmento e, conforme a versão, até um nível de equipamento acima do que é comum encontrar por estes valores.
É precisamente isso que o torna apelativo no mercado de usados. Ao lado de alternativas mais pequenas, mais básicas ou claramente urbanas, o Leaf oferece outra presença e mais polivalência. Para quem quer um segundo carro, mas não quer abdicar de conforto, continua a ser uma referência.
Mas há um ponto fraco conhecido que não deve ser ignorado: a degradação da bateria. Nas unidades mais antigas, sobretudo se passaram a vida em carregamentos rápidos ou em ambientes mais exigentes, a autonomia real pode ficar bem abaixo do que era anunciado quando o carro era novo. A falta de um sistema de arrefecimento ativo das baterias sente-se.
Por isso, no Leaf, mais do que o estado da carroçaria ou os quilómetros, interessa perceber a saúde da bateria. É esse dado que separa uma boa compra de um negócio apenas aparentemente barato.
Feita essa verificação, o Leaf continua a ser uma opção muito racional. É confortável, bem insonorizado para o preço, fácil de conduzir e suficientemente espaçoso para fazer mais do que a simples missão de carro citadino.
Renault Zoe é o mais procurado
O Renault Zoe é, com toda a justiça, um dos elétricos usados mais procurados. E percebe-se facilmente porquê. Tem as dimensões certas para a cidade, mas não se sente demasiado apertado no dia a dia. Dá para levar quatro adultos com dignidade, a condução é simples e leve e, durante anos, foi uma das formas mais acessíveis de entrar na mobilidade elétrica sem cair em soluções demasiado limitadas.
Também ajuda o facto de haver muita oferta. Isso dá margem para escolher melhor, comparar estados de conservação e, acima de tudo, evitar unidades menos interessantes. Porque no Zoe há um ponto crítico que convém esclarecer logo à partida: o aluguer da bateria.
Muitos exemplares mais antigos foram vendidos nesse regime, o que significa que o carro pode parecer barato no anúncio, mas depois trazer uma mensalidade fixa associada à bateria. Antes de fechar negócio, é obrigatório confirmar se a bateria está incluída na venda ou se continua sob contrato.
De resto, o Zoe tem vários trunfos. É agradável por dentro, normalmente bem equipado nas versões intermédias e superiores, e muito intuitivo de usar. No fundo, é um elétrico honesto: não tenta impressionar por ser revolucionário, mas convence por fazer quase tudo suficientemente bem. Para muitos, será a escolha mais equilibrada desta lista.
Dacia Spring é o mais racional
O Dacia Spring prova que, por vezes, o segredo está mesmo em não prometer demais. Nunca foi um elétrico sofisticado, nunca tentou esconder as limitações e é precisamente por isso que continua a fazer sentido no mercado de usados. Hoje o contexto é diferente, mas aqui estamos a falar das primeiras versões deste modelo.
Pequeno, simples e claramente virado para a cidade, o Spring destaca-se por uma coisa essencial: preço. Foi pensado para ser barato quando novo e continua a ser um dos caminhos mais acessíveis para chegar a um elétrico usado relativamente recente. Para quem quer apenas trocar deslocações urbanas num carro a combustão por uma solução mais económica, a lógica aqui é difícil de contrariar.
Claro que há compromissos. Em estrada aberta sente-se a falta de potência, o refinamento é limitado e a construção está longe de modelos mais caros. As primeiras versões, além disso, são bastante despidas. Ainda assim, têm o essencial: quatro lugares, custos de utilização baixos e um tamanho perfeito para ambiente urbano, estacionamento apertado e manobras rápidas.
É importante entrar no Spring sabendo o que ele é. Não é um carro para grandes viagens, nem para entusiasmar alguém ao volante. Mas para ir trabalhar, levar os miúdos à escola ou tratar da rotina diária sem passar pela bomba todas as semanas, continua a ser uma proposta muito forte.
Smart ForTwo é o melhor na cidade
Não tem muitos filhos? Ou, na maior parte do tempo, anda sozinho? Então não procure mais. Poucos carros cumprem tão bem o papel de segundo automóvel urbano como o Smart ForTwo. É minúsculo por fora, cabe onde quase tudo o resto desiste e transforma estacionamento, inversões de marcha e ruas apertadas em não-temas.
Na versão elétrica, essa vocação fica ainda mais evidente. O silêncio encaixa no contexto urbano, a resposta imediata do motor elétrico ajuda no trânsito e o formato compacto faz dele um verdadeiro especialista de centro urbano. Para quem vive e trabalha em cidade, o Smart ForTwo continua a fazer muito sentido.
Mas convém não romantizar demasiado a ideia. A autonomia é curta e não convida a aventuras. É um carro para missões muito concretas, não para fingir que serve para tudo. Serve para o dia a dia mais previsível, para trajetos curtos e para quem já percebeu que nem todos os carros precisam de fazer todas as tarefas.
Também é isso que o torna tão específico. O Smart ForTwo elétrico não é o mais versátil desta lista, nem pretende ser. É, simplesmente, o mais focado. E quando o uso é mesmo esse, cidade pura e dura, poucos são tão bons no que fazem.
Kia e-Soul é um unicórnio
O Kia e-Soul é provavelmente o mais difícil de encontrar neste intervalo de preços (apenas encontrámos uma unidade disponível por menos de 10 mil euros no piscapisca.pt), mas também é um dos mais interessantes.
Tem uma imagem menos consensual, é verdade, mas por trás do desenho irreverente está um elétrico muito competente, com mais substância do que muitas alternativas aparentemente mais populares. Desde logo, pela sensação de qualidade. O e-Soul passa mais robustez, mais maturidade de construção e uma perceção global de produto mais bem resolvido.
Depois há a reputação da própria Kia na eletrificação. A marca construiu uma imagem sólida nesta área e isso pesa no mercado de usados, sobretudo quando a principal dúvida continua a ser o estado da bateria. É aqui que o e-Soul ganha pontos. Há maior confiança na durabilidade do conjunto mecânico-elétrico, mesmo em carros com mais quilómetros.
Não é uma garantia absoluta, claro, mas é um modelo que inspira menos receio do que outros pioneiros da mobilidade elétrica. Essa reputação não apareceu por acaso. Basta olhar para o que acontece num segmento acima com o Kia e-Niro, onde não faltam unidades com quilometragens muito elevadas e autonomias ainda próximas do anunciado. É, talvez, o modelo mais “completo” deste grupo. Pena ser também o menos abundante.
O que deve verificar antes de comprar
Num elétrico usado abaixo dos 10 mil euros, há uma pergunta mais importante do que todas as outras: em que estado está a bateria. É isso que dita a sensatez do negócio. Uma unidade barata com uma bateria muito degradada não é uma boa escolha.
Depois disso, vale a pena olhar para o básico com o mesmo rigor de qualquer outro usado: histórico de manutenção, estado dos pneus, travões, cabos de carregamento, funcionamento do ar condicionado e sinais de desgaste incompatíveis com a quilometragem anunciada.
No caso do Renault Zoe, a situação contratual da bateria tem de ficar completamente esclarecida. No Nissan Leaf, a saúde da bateria merece escrutínio redobrado. No Smart ForTwo e no Dacia Spring, importa garantir que as limitações de autonomia encaixam mesmo no tipo de uso previsto. No caso do Kia e-Soul, o difícil vai ser encontrar um.
Neste artigo referimos cinco elétricos usados, mas podem encontrar mais alternativas em piscapisca.pt. Também podem simular o financiamento, com mensalidades em torno dos 100 euros por mês - mas isso dava outro artigo. Possivelmente, podem até ficar com uma mensalidade mais baixa do que aquilo que gastam atualmente em combustível. Como disse em tempos um ex-primeiro-ministro português: “é só fazer as contas”.
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