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Walter Arnold e a primeira multa por excesso de velocidade: quando 3,2 km/h já era “demais”

Carro clássico desportivo verde metálico exposto em museu automóvel moderno com interior branco.

Hoje é normal existir limites de velocidade e, se os ultrapassarmos, arriscamo-nos a uma coima e, em casos mais graves, até à inibição de conduzir. O curioso é que, mesmo nos primórdios do automóvel, a lógica não era assim tão diferente - apesar de as regras parecerem saídas de outra época.

E quando se fala em primórdios, é mesmo no sentido literal: ainda no século XIX, em 1896, cerca de uma década depois de surgir a primeira “carroça sem cavalos”. Havia poucos automóveis nas estradas, mas em Londres já existiam leis específicas a regular a sua circulação.

Limites de velocidade absurdos e a obrigatória “bandeira vermelha”

Apesar de raros, os automóveis já eram alvo de restrições claras. Em Londres, o limite era de apenas duas milhas por hora, o que corresponde a 3,2 km/h - praticamente a velocidade de um passo apressado. E havia mais: a legislação exigia que um homem fosse à frente do carro, a pé, a abrir caminho e a acenar uma bandeira vermelha para avisar quem circulasse na via.

Na prática, isto transformava cada deslocação num pequeno desfile, onde o automóvel parecia menos um avanço tecnológico e mais um incómodo ambulante. Segurança? Sim. Conveniência? Nem por isso.

Walter Arnold, o Arnold Benz e a primeira multa por excesso de velocidade

Foi neste contexto que Walter Arnold entrou para a história. Para além de outras actividades, Arnold obteve uma licença que lhe permitiu produzir automóveis da Benz, fundando a Arnold Motor Carriage. O veículo associado ao episódio foi o Arnold Benz, um modelo derivado do Benz 1 1/2 hp Velo.

Arnold ficou conhecido como o primeiro condutor multado por excesso de velocidade. A infracção não se deveu apenas ao facto de não levar consigo o obrigatório homem da bandeira vermelha; o problema foi também o ritmo a que seguia: quatro vezes acima do permitido. Em vez de 3,2 km/h, circulava a cerca de 12,8 km/h (o equivalente a oito milhas por hora), uma velocidade então vista como verdadeiramente temerária.

O mais pitoresco é que a autuação foi feita por um polícia que se deslocava de… bicicleta.

Paddock Green, a condenação e a ironia da mudança na lei

Depois da “façanha” em Paddock Green, no Kent, Walter Arnold foi condenado e obrigado a pagar um xelim, além das respectivas despesas administrativas.

A ironia do destino veio pouco depois: o limite de velocidade viria a ser aumentado para 22,5 km/h (equivalente a 14 mph) e a exigência do portador da bandeira vermelha acabaria revogada da legislação. Ou seja, Arnold foi penalizado precisamente num momento em que o enquadramento legal estava prestes a reconhecer que as regras anteriores eram excessivamente restritivas.

Corrida de Londres a Brighton: a “Corrida da Emancipação” (com Walter Arnold)

Para assinalar o fim da obrigação da bandeira vermelha, foi organizada uma prova automóvel de Londres a Brighton, que ficaria conhecida como a Corrida da Emancipação. Walter Arnold participou nesse evento comemorativo.

A tradição mantém-se viva: ainda hoje esta corrida se realiza, sendo destinada a veículos produzidos até ao ano de 1905, funcionando como uma celebração pública da história do automóvel e da transição entre a desconfiança inicial e a aceitação do transporte motorizado.

O Arnold Benz em exposição no Concurso de Elegância, no Palácio de Hampton Court

O automóvel em que Walter Arnold foi multado estará em exibição na edição desse ano (Nota do Redactor: 2017, ano de publicação original do artigo) do Concurso de Elegância, realizado no Palácio de Hampton Court, durante o mês de setembro.

Como contraste geracional face ao Arnold Benz, também estarão em exposição: - o Jaguar XJR-9, vencedor de Le Mans em 1988; - e um McLaren F1 GTR com decoração Harrods (ainda que não seja exactamente esse exemplar específico o que estará exposto).

Um marco que ajuda a perceber a relação entre tecnologia e regras

Este episódio mostra como as primeiras leis rodoviárias tentavam equilibrar inovação e segurança pública, numa altura em que o automóvel era uma novidade potencialmente assustadora para peões, carroças e trânsito urbano. A exigência da bandeira vermelha pode hoje soar caricata, mas reflectia a tentativa de impor previsibilidade a um meio de transporte ainda pouco compreendido.

Ao mesmo tempo, a rápida revisão dos limites e a eliminação do portador da bandeira vermelha ilustram um fenómeno recorrente: a legislação adapta-se quando a tecnologia se torna mais comum, mais fiável e socialmente aceite - e quando a realidade prova que certas regras, embora bem-intencionadas, acabam por travar mais do que proteger.

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