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Enjoo de viagem em carros elétricos: porque acontece e o que ajuda

Carro elétrico desportivo verde exibido numa sala moderna com janelas grandes e cadeiras.

Quem já foi no banco de trás de um carro elétrico talvez reconheça o cenário: pressão na cabeça, uma ligeira tontura, o estômago embrulhado - enquanto o condutor segue tranquilo, como se nada fosse. Aquilo que muitos desvalorizam como “coisa da cabeça” está, segundo especialistas, a ganhar peso como tema real de segurança rodoviária. A investigação aponta que os E-Autos podem exigir mais do nosso sentido de equilíbrio do que os automóveis a gasolina ou a gasóleo.

Quando uma viagem silenciosa se transforma em sofrimento

Com a popularização da mobilidade elétrica, começou a surgir um incómodo em que quase ninguém pensou durante anos: um aumento perceptível do enjoo de viagem em quem vai como passageiro. Em particular, pessoas que antes aguentavam horas no carro sem qualquer problema relatam agora sintomas com mais frequência, como:

  • Dores de cabeça após pouco tempo de viagem
  • Tonturas ou sensação de instabilidade ao sair do carro
  • Náuseas, podendo chegar ao vómito
  • Mal-estar geral, pressão na cabeça ou no abdómen

O padrão repete-se: o condutor, na maioria dos casos, não sente nada; quem sofre mais são o passageiro da frente e, sobretudo, os ocupantes do banco traseiro. Isto encaixa bem no que os investigadores descrevem como “conflito dos sentidos”.

"Especialistas apontam a causa, sobretudo, para uma combinação pouco habitual de propulsão silenciosa, aceleração intensa e um tipo de travagem novo, com o qual o nosso corpo simplesmente ainda não está familiarizado."

Porque é que os carros elétricos “soam” diferentes ao cérebro

Do lugar do condutor, muitos veículos elétricos parecem até mais agradáveis do que os de combustão: quase não há ruído do motor, a condução é suave e a aceleração é forte. Para o cérebro de quem vai a bordo, porém, desaparece um ponto de referência importante. Nos carros tradicionais, o barulho do motor e as vibrações fornecem pistas constantes sobre o que está prestes a acontecer.

Num automóvel com motor de combustão, há sinais bem conhecidos: pequenos solavancos ao arrancar, o som do motor a subir de rotação, o “roncar” durante a aceleração, e uma breve quebra ao mudar de relação. São padrões com décadas, e o nosso cérebro aprende cedo a interpretar ruídos e vibrações para antecipar se o carro vai acelerar, desacelerar ou entrar numa curva. Essa antecipação ajuda o corpo a preparar-se.

Num E-Auto, muito do que acontece é quase silencioso e sem as oscilações típicas. No início, isto pode parecer futurista e confortável. Em viagens mais longas, contudo, surge o lado menos óbvio: o cérebro perde parte dos avisos prévios a que estava habituado - e reage de forma mais sensível ao que efetivamente se passa no corpo.

O sentido de equilíbrio perde o ritmo

Os médicos explicam este fenómeno com a chamada teoria do conflito sensorial. A ideia assenta em três fontes principais de informação sobre movimento:

  • Olhos: observam como a estrada, as árvores e o ambiente se deslocam
  • Ouvido interno: deteta aceleração, curvas e inclinação
  • Perceção corporal: sente a pressão no banco, a tensão do cinto e a ativação muscular

Em condições normais, estes sinais são coerentes. Se ouvimos o motor “puxar” antes de sermos pressionados contra o encosto, o corpo fica prevenido. Nos carros elétricos, parte desse aviso falta. Os olhos veem a aceleração ou a travagem, o ouvido interno sente-as com clareza - mas o cérebro não as “anunciou” a tempo. Essa discrepância é precisamente o que desencadeia enjoo de viagem em muitas pessoas.

Travagem regenerativa: suave para a técnica, difícil para alguns estômagos

Há ainda outro elemento típico dos elétricos: a travagem regenerativa (recuperação de energia). Nestes sistemas, o carro começa a abrandar de forma marcada assim que o condutor alivia o “pedal do acelerador”. Muitas vezes, isso acontece sem um sinal óbvio de travão e sem o gesto habitual do corpo a inclinar-se para a frente.

Para quem vai como passageiro, isto cria um perfil de travagem fora do comum:

  • A desaceleração começa mais cedo, por vezes apenas ao levantar o pé do pedal
  • Em vez de travagens curtas e mais “secas”, há um puxão longo e pouco evidente
  • O corpo sente forças de travagem, apesar de não existir o ruído típico associado a uma travagem convencional

Estudos indicam que estas desacelerações finas e prolongadas, somadas à falta de sinais acústicos, podem intensificar os sintomas. E há um detalhe adicional: em muitos modelos, o condutor pode ajustar a intensidade da regeneração. Para quem conduz, isso é um extra de conforto; para passageiros sensíveis, um modo demasiado forte pode transformar a viagem numa verdadeira provação.

"Quanto menos brusca, ruidosa e previsível for a forma como o carro atua, maior pode ser, em alguns casos, o risco de náuseas para passageiros mais sensíveis."

O que a investigação já conseguiu medir

Institutos técnicos têm analisado de forma específica, há alguns anos, o impacto dos veículos elétricos no corpo humano. Dois aspetos destacam-se nestes trabalhos:

  • Vibrações do banco: os padrões de vibração dos assentos são mensuravelmente diferentes dos dos carros com motor de combustão. Certas frequências parecem associar-se mais a episódios de enjoo de viagem.
  • Ritmo de movimento alterado: a sequência típica de acelerar, rolar, recuperar energia e travar difere claramente da de veículos com caixa manual ou automática. Esta nova “melodia do movimento” baralha o sentido de equilíbrio.

Em testes com simuladores, os participantes reportaram desconforto com maior frequência quando eram reproduzidas características comuns de carros elétricos: binário elevado no arranque, regeneração forte e poucos ruídos do motor. Ao mesmo tempo, os ensaios mostram que pequenas alterações nos sinais dentro do habitáculo já podem aliviar a experiência.

Que medidas podem ajudar contra o enjoo

Marcas e centros de investigação estão a trabalhar em soluções para aumentar o conforto nos elétricos. Algumas parecem simples à primeira vista, mas em ambiente controlado revelam efeitos claros.

Sons e vibrações artificiais

Duas medidas têm-se mostrado particularmente promissoras:

  • Sons de condução artificiais: um som constante em baixa frequência - por exemplo, perto de 100 hertz - pode ajudar a estabilizar o sentido de equilíbrio, substituindo parte do “feedback” que antes vinha do motor de combustão.
  • Vibrações direcionadas no banco: pequenas oscilações, ajustadas à dinâmica do veículo, podem dar ao corpo pistas adicionais sobre aceleração e travagem.

Testes em simuladores e em veículos reais sugerem que, assim, a frequência e a intensidade das náuseas diminui. Alguns fabricantes do segmento premium já estão a experimentar protótipos internos com “bancos inteligentes” capazes de fazer exatamente isso.

Luz e orientação do olhar como ajuda simples

Além de sinais sonoros e tácteis, a visão também conta. Equipas de desenvolvimento estão a testar iluminação interior adaptativa que “sinaliza” movimentos de forma subtil. Em futuros cockpits, podem surgir efeitos luminosos discretos para antecipar mudanças de direção ou desacelerações.

Até estas soluções chegarem à produção em série, valem os conselhos clássicos conhecidos de viagens de autocarro:

  • sentar-se o mais à frente possível e manter a estrada no campo de visão
  • evitar olhar continuamente para o smartphone ou ecrãs de infotainment
  • pedir para reduzir níveis elevados de regeneração, quando há passageiros sensíveis
  • garantir ar fresco e evitar refeições pesadas imediatamente antes da viagem

Porque é que o condutor quase nunca é afetado

A diferença entre quem conduz e quem vai a bordo é particularmente interessante. O condutor provoca cada movimento do carro de forma ativa: decide quando acelerar, virar o volante ou deixar o veículo regenerar. Por isso, o cérebro costuma saber - ainda que por frações de segundo - o que vem a seguir. Os sentidos mantêm-se alinhados.

Já os passageiros estão numa posição passiva. Olham pela janela lateral, lêem mensagens ou concentram-se num tablet, enquanto o carro desacelera mais do que esperavam ou acelera com força à saída de uma curva. Isso agrava o conflito sensorial. Não surpreende, portanto, que as queixas sejam mais comuns em crianças e em pessoas que gostam de ler no carro ou de fazer scroll no telemóvel.

Mais conforto exige mais conhecimento sobre o corpo

A tendência para propulsões cada vez mais silenciosas e lineares vai continuar - não só nos automóveis, mas também em comboios e shuttles autónomos. Isso abre novas exigências no desenvolvimento de veículos: os engenheiros terão de dialogar mais com a fisiologia, a neurociência e a psicologia.

Já existem equipas a trabalhar em software capaz de ajustar, em tempo real, o comportamento do veículo ao bem-estar de quem vai dentro. Podem imaginar-se perfis que suavizam a resposta da direção e do pedal, doseiam a regeneração com mais delicadeza ou controlam a climatização para aumentar automaticamente o ar fresco quando a condução se torna mais “crítica”.

Para o dia a dia, compensa observar padrões: as náuseas e tonturas surgem apenas em certos modelos? Melhoram quando se viaja à frente? As crianças reagem mais do que os adultos? Ao levar estes sinais a sério, é possível adaptar a condução e a escolha do lugar - e aumentar bastante o conforto num carro elétrico, sem ter de regressar a um automóvel de combustão.

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