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Transplantes pioneiros de órgãos de porco levantam um paradoxo curioso, diz especialista em ética.

Homem analisa modelo de rim enquanto veterinários examinam porco numa clínica veterinária.

Em outubro de 2025, numa sala de operações em Nova Iorque, uma equipa médica fez história ao transplantar, no âmbito de um ensaio clínico, um rim de porco geneticamente modificado para um doente vivo.

Esse rim foi concebido para imitar tecido humano e foi desenvolvido num porco, como alternativa à espera por um dador humano - que pode nunca aparecer. Durante décadas, esta hipótese existiu na fronteira da ficção científica. Hoje, está mesmo em cima da mesa - literalmente.

O doente é um dos seis participantes no primeiro ensaio clínico de transplantes de rim de porco para humano. O objetivo é perceber se rins de porco com edição genética conseguem, com segurança, substituir rins humanos em falência.

Há cerca de dez anos, os cientistas perseguiam uma solução diferente. Em vez de alterar geneticamente porcos para tornar os seus órgãos compatíveis com humanos, tentavam fazer crescer órgãos humanos - compostos integralmente por células humanas - dentro de porcos.

Mas, em 2015, os National Institutes of Health (NIH) suspenderam o financiamento desse tipo de trabalho, para ponderar os riscos éticos envolvidos. E essa suspensão mantém-se até hoje.

Enquanto bioeticista e filósofa que passou anos a estudar a ética do uso de órgãos desenvolvidos em animais - incluindo como membro de um grupo nacional de trabalho financiado pelos NIH dedicado a analisar a supervisão da investigação sobre quimeras humano-animal - fiquei perplexa com essa decisão.

A proibição partia do pressuposto de que o perigo estava em tornar os porcos demasiado humanos. Ainda assim, os reguladores parecem agora confortáveis com a ideia de tornar os humanos um pouco mais “porco”.

Porque é que se considera ético colocar órgãos de porco em humanos, mas não fazer crescer órgãos humanos em porcos?

A necessidade urgente impulsiona a xenotransplantação de rim de porco para humano

É fácil subestimar o desespero que está por trás destas experiências. Mais de 100.000 americanos aguardam um transplante de órgão. A procura ultrapassa largamente a oferta, e milhares de pessoas morrem todos os anos antes de surgir um órgão disponível.

Há décadas que os cientistas procuram ajuda noutras espécies - desde corações de babuíno nos anos 1960 até aos porcos geneticamente alterados de hoje. O obstáculo principal sempre foi o sistema imunitário. O organismo interpreta células que não reconhece como suas como intrusas e, por isso, destrói-as.

Um caso recente ilustra bem essa fragilidade. Um homem em New Hampshire recebeu, em janeiro de 2025, um rim de porco com edição genética. Nove meses depois, foi necessário removê-lo, porque a função do órgão estava a deteriorar-se.

Este êxito parcial deu esperança aos investigadores, mas também reforçou que a rejeição continua a ser um problema central na transplantações de órgãos entre espécies - processo conhecido como xenotransplantação.

Para contornar a rejeição, as equipas de investigação tentam criar um órgão que o corpo humano possa tolerar, introduzindo alguns genes humanos e eliminando alguns genes de porco.

Ainda assim, os recetores destes órgãos de porco com edição genética precisam de fármacos muito potentes para suprimir o sistema imunitário durante e muito depois do procedimento de transplante - e, mesmo assim, isso pode não impedir a rejeição. Mesmo os transplantes de humano para humano exigem imunossupressores para toda a vida.

Foi por isso que outra estratégia - fazer crescer órgãos a partir das próprias células do doente - pareceu promissora. A ideia passava por desativar os genes que permitem que embriões de porco formem um rim e, depois, injetar células estaminais humanas no embrião, para preencher o “espaço” onde o rim se desenvolveria. Deste modo, o embrião do porco produziria um rim geneticamente compatível com um futuro doente, eliminando, em teoria, o risco de rejeição.

Apesar de o conceito ser simples, a execução é tecnicamente complexa, porque as células humanas e as células de porco desenvolvem-se a ritmos diferentes. Mesmo assim, cinco anos antes da suspensão dos NIH, os investigadores já tinham alcançado algo semelhante ao fazer crescer um pâncreas de rato dentro de um rato de laboratório.

O crescimento de órgãos entre espécies não era uma fantasia - existia como prova de conceito funcional.

A ética de criar órgãos noutras espécies

As preocupações que levaram os NIH, em 2015, a suspender a inserção de células estaminais humanas em embriões animais não nasciam do receio de falha científica, mas sim de confusão moral.

Os decisores políticos temiam que células humanas se dispersassem pelo corpo do animal - inclusive até ao cérebro - e que, ao fazê-lo, esbatesses a fronteira entre humano e animal.

Os NIH alertaram para possíveis “alterações do estado cognitivo do animal”. O Animal Legal Defense Fund, uma organização de defesa dos animais, argumentou que, se tais quimeras viessem a adquirir um tipo de consciência semelhante à humana, então deveriam ser tratadas como sujeitos humanos de investigação.

A preocupação centra-se na hipótese de o estatuto moral de um animal - isto é, o grau em que os interesses de uma entidade contam moralmente e o nível de proteção que lhe é devido - poder mudar. Um estatuto moral mais elevado exige melhor tratamento, porque implica vulnerabilidade a formas mais graves de dano.

Pense-se na diferença entre o dano de espetar um animal senciente e o de espetar um animal autoconsciente. Um animal senciente - isto é, capaz de ter sensações como dor ou prazer - sentiria a dor e tentaria evitá-la.

Em contraste, um animal autoconsciente - isto é, capaz de refletir sobre o facto de estar a ter essas experiências - não só sentiria a dor como perceberia que ele próprio é o sujeito dessa dor. Este segundo tipo de dano é mais profundo, porque envolve não apenas sensação, mas consciência do que está a acontecer.

Assim, a inquietação dos NIH é a de que, se células humanas migrarem para o cérebro de um animal, poderão introduzir novas formas de experiência e sofrimento e, desse modo, elevar o seu estatuto moral.

A lógica falhada da suspensão dos NIH

Ainda assim, o raciocínio por detrás da suspensão dos NIH é defeituoso. Se determinadas capacidades cognitivas, como a autoconsciência, atribuíssem estatuto moral superior, então seria de esperar que os reguladores tivessem a mesma preocupação com a inserção de células de golfinho ou de primata em porcos que têm com a inserção de células humanas. Não têm.

Na prática, o “círculo moral” de seres cujos interesses contam não é desenhado em torno da autoconsciência, mas sim em torno da pertença à espécie. Os reguladores protegem todos os humanos de investigação prejudicial por serem humanos, e não por possuírem capacidades cognitivas específicas, como sentir dor, usar linguagem ou fazer raciocínio abstrato.

Na verdade, muitas pessoas não têm essas capacidades. A preocupação moral decorre dessa relação, e não de um tipo particular de consciência. Nenhum objetivo de investigação pode justificar violar os interesses mais básicos dos seres humanos.

Se um embrião de porco infundido com células humanas se tornasse, de facto, algo suficientemente próximo para contar como membro da espécie humana, então a regulamentação atual determinaria que lhe é devido um nível de consideração equivalente ao humano. Mas a mera presença de células humanas não transforma porcos em humanos.

Os porcos concebidos para transplantes renais já transportam genes humanos, e nem por isso são descritos como seres meio humanos. Quando uma pessoa doa um rim, o recetor não passa a integrar a família do dador. No entanto, as políticas atuais de investigação tratam um porco com um rim humano como se isso pudesse acontecer.

Podem existir boas razões para rejeitar a utilização de animais como fábricas vivas de órgãos, incluindo preocupações com o bem-estar animal.

Mas a justificação da suspensão dos NIH - a de que células humanas poderiam tornar porcos demasiado humanos - assenta num equívoco sobre o que confere estatuto moral aos seres e, em particular, aos seres humanos.

Monika Piotrowska, Professora Associada de Filosofia, University at Albany, State University of New York

Este artigo é republicado a partir do The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

Este artigo foi atualizado para corrigir o local e a data do primeiro ensaio clínico de transplante de rim de porco.

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