A diminuição acentuada do tamanho do cérebro dos cães já estava consumada há 5.000 anos, muito depois dos primeiros contactos entre humanos e canídeos, de acordo com uma nova investigação.
O trabalho desloca a origem desta transformação do momento inicial da domesticação para sociedades agrícolas posteriores, nas quais a convivência diária com pessoas poderá ter remodelado o corpo e o comportamento dos cães.
Padrão claro encontrado em crânios de cães
Crânios recolhidos num povoado ribeirinho à beira de um lago, em Chalain, no leste de França, conservaram o molde interno que alojava o cérebro, oferecendo um registo directo desta alteração.
O Dr. Thomas Cucchi, do Centro Nacional de Investigação Científica francês (CNRS), verificou que os cães dessa comunidade apresentavam volumes cerebrais claramente inferiores aos dos lobos da região.
A discrepância rondava os 46%, uma magnitude demasiado grande para ser atribuída apenas ao tamanho corporal e que se repetia em vários indivíduos do mesmo sítio.
Uma redução tão marcada sugere que as condições dentro de ambientes humanos sedentários funcionaram como força motriz - embora permaneça em aberto quais as pressões específicas que conduziram a essa mudança.
Candidatos antigos mantiveram características de lobo
Antes de Chalain, dois exemplares mais antigos da linhagem canina pareciam possíveis cães precoces, porque a forma dos seus crânios se afastava da dos lobos típicos.
A equipa analisou um animal com 35.000 anos da Gruta de Goyet, na Bélgica, e outro com 15.000 anos de Baume Traucade, no sul de França.
Nenhum deles apresentou a esperada contracção do cérebro, caso cérebros mais pequenos tivessem surgido durante o primeiro período de contacto estreito entre lobos e pessoas.
Num exemplar de Goyet, o espaço cerebral era até ligeiramente maior em relação ao comprimento do crânio, o que torna as origens dos primeiros cães mais complexas do que uma simples narrativa de encolhimento.
A vida em aldeia alterou os corpos
Os povoados agrícolas mudaram a vida dos cães ao concentrarem restos de comida, pessoas, gado, cheiros e perigos num mesmo local.
Em Chalain, os crânios de cães apareceram misturados com lixo doméstico, e não em sepulturas especiais, ligando-os ao quotidiano comum da aldeia.
Eram animais de pequeno porte, e os seus volumes cerebrais aproximavam-se dos observados em alguns terriers pequenos modernos e em raças toy.
Isto não demonstra que os habitantes os criassem como donos actuais, mas indica que uma selecção intensa já estava a actuar antes de existirem raças formais.
Cérebros mais pequenos gastam menos energia
O cérebro consome muita energia; assim, reduzir tecido cerebral pode poupar calorias quando a comida é escassa ou irregular.
Cães de aldeia, a sobreviver de sobras, podem ter pago um custo elevado por cada grama extra de tecido neural.
Corpos e cérebros menores poderiam, portanto, adequar-se a animais que viviam perto de humanos, mas sem cuidados domésticos constantes.
A hipótese ainda não está comprovada; ainda assim, do ponto de vista biológico, existe um caminho plausível que liga resíduos da aldeia a cérebros caninos mais pequenos.
O temperamento entra na explicação
O tamanho do cérebro também se relaciona com o comportamento, porque a redução de tecido pode alterar o equilíbrio entre pensamento flexível e reacção rápida.
Trabalho recente sobre anatomia cerebral canina concluiu que a criação selectiva modificou regiões associadas a guarda, caça e companhia.
Outro estudo moderno, baseado em volumes cerebrais inferidos a partir de crânios, associou esses valores à função da raça, ao tamanho corporal, à forma do crânio e ao temperamento.
Estas relações não permitem diagnosticar como se comportavam os cães de Chalain, mas tornam uma hipótese de cães aldeãos ansiosos e vigilantes algo razoável, e não um palpite sem base.
Cães modernos complicam a interpretação
Um cérebro menor não equivale a um cérebro pior, e estes resultados não transformam os cães em lobos “falhados”.
O interesse público aumentou porque a ideia de encolhimento do cérebro soou a insulto, mas Cucchi rejeitou essa leitura simplista.
“Mas eles são extremamente inteligentes e a domesticação não os tornou estúpidos; tornou-os realmente capazes de nos ler e de comunicar connosco”, disse Cucchi.
A aptidão para interpretar pessoas pode ter passado a valer mais do que a independência típica do lobo, pelo que o espaço cerebral, por si só, não capta a forma como os cães se transformaram junto dos humanos.
Dingos testam a reversibilidade
Os dingos - cães selvagens australianos descendentes de cães domésticos antigos - deram à equipa uma forma de testar se cérebros reduzidos voltam a crescer quando o controlo humano desaparece.
Os seus volumes cerebrais situaram-se entre cães de cérebro grande e cães de cérebro pequeno, mas continuaram dentro do amplo intervalo observado nos cães.
A vida como predadores de topo na Austrália pode ter favorecido mais espaço cerebral para caçar e resolver problemas com maior flexibilidade.
Mesmo assim, a evidência dos dingos sugere que as alterações cerebrais da domesticação podem não reverter de forma simples quando os cães regressam à vida selvagem.
Porque o mistério continua
A cronologia está agora mais nítida, mas a causa permanece em aberto, porque várias pressões podem ter actuado em simultâneo.
Pessoas sedentárias podem ter tolerado cães que ladravam a estranhos, limpavam lixo, forneciam carne, ajudavam em caçadas ou tinham significado simbólico.
Uma análise mais recente de crânios mostrou que a diversidade craniana em cães já era visível há cerca de 11.000 anos, muito antes dos clubes modernos de raças.
A redução do cérebro pode, assim, assinalar apenas uma parte de mudanças mais longas no corpo, no comportamento e nas escolhas humanas.
Os cães de Chalain mostram que uma grande diminuição cerebral já existia há 5.000 anos, depois dos candidatos mais antigos com aspecto de lobo, mas antes da criação moderna.
Descobertas futuras, em locais mais antigos e mais variados, poderão esclarecer se a pressão da vida aldeã, os limites alimentares, o comportamento de alerta ou outra força teve maior peso.
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