As plantas não andam - mas deslocam-se. As florestas avançam, pouco a pouco, para cotas mais altas. As pradarias estendem-se em direcção a zonas mais frescas. E as sementes seguem com o vento e a água, desenhando uma mudança lenta, porém contínua, à escala do planeta.
Este movimento não é uma novidade. Ao longo do tempo, as plantas sempre ajustaram a sua distribuição quando o clima mudava. O que hoje é diferente é a rapidez com que o aquecimento está a acontecer.
Um novo estudo global torna visível esta migração discreta e coloca uma pergunta directa: conseguem as plantas acompanhar as alterações climáticas?
A resposta é ambivalente. A deslocação pode sustentar ecossistemas no curto prazo, mas não evita perdas de espécies no longo prazo.
O que se segue é o retrato que surge ao acompanhar o deslocamento de quase 67.700 espécies de plantas em toda a Terra.
As plantas começam a deslocar-se
As plantas persistem apenas dentro de certos limites ambientais. Dependem da temperatura, da precipitação e do solo.
Quando o clima se altera, essas condições mudam de lugar no mapa. As áreas adequadas tendem a empurrar-se para latitudes mais altas, aproximando-se dos pólos, ou a subir para altitudes superiores.
Perante isto, as plantas têm três destinos possíveis: deslocar-se, adaptar-se ou desaparecer.
À primeira vista, mover-se parece simples - mas não é. As sementes têm de se dispersar. O território precisa de permitir passagem. E têm de existir novos habitats que, além de disponíveis, consigam suportar o crescimento.
Muitos modelos anteriores não consideravam estes limites. Uns partiam do pressuposto de que as plantas poderiam mover-se instantaneamente para qualquer local. Outros assumiam o extremo oposto: que não se moviam de todo.
Este trabalho segue uma via diferente. Recorre a dados reais de deslocações observadas e constrói modelos ancorados na forma como as espécies, na prática, reagem ao aquecimento, ao relevo e ao uso humano do solo.
O movimento das plantas tem limites
Os resultados confirmam que as plantas se deslocam, mas dentro de margens apertadas.
Algumas espécies acompanham melhor a mudança climática do que outras. O tamanho da semente, o modo de dispersão e a fragmentação do habitat influenciam a distância que uma espécie consegue percorrer.
Ainda assim, mesmo quando a deslocação corre bem, surge um problema mais profundo: mover-se, por si só, não assegura a sobrevivência.
O habitat desaparece primeiro
A conclusão mais marcante é esta: a maioria das plantas em maior risco não falha por falta de capacidade de deslocação. Falha porque deixa de existir um destino possível.
Entre 70 e 80 por cento das espécies de alto risco podem extinguir-se porque as condições de que necessitam desaparecem por completo. O próprio planeta deixa de oferecer os requisitos de que dependem.
Mesmo quando os investigadores assumem uma deslocação perfeita - em que todas as espécies se conseguem relocalizar instantaneamente - as taxas de extinção quase não se alteram. Isto indica que o problema central não é a velocidade. É a perda de ambientes adequados.
“Descobrimos que o que causa a extinção não é o facto de as plantas não se estarem a mover depressa o suficiente”, afirmou a autora sénior Xiaoli Dong, da Universidade da Califórnia, Davis.
“É que uma grande quantidade de habitat adequado, até ao fim do século, vai desaparecer. Se a nossa prioridade é reduzir a taxa de extinção das espécies de plantas, cortar as nossas emissões de forma agressiva será muito mais importante do que outras acções.”
Os ecossistemas locais ainda beneficiam
Se a deslocação não impede extinções, continua a ser crucial a nível local. Quando as plantas chegam a novas regiões, podem aumentar a diversidade e apoiar o funcionamento dos ecossistemas.
Num cenário de emissões moderadas, cerca de 28 por cento das áreas terrestres poderão ganhar espécies de plantas. As entradas de novas espécies podem compensar perdas locais.
À escala global, prevê-se que a diversidade de plantas diminua cerca de 5 por cento quando a deslocação é considerada. Sem deslocação, a queda sobe para 17 por cento. Esta diferença mostra o valor da dispersão para manter ecossistemas operacionais.
As regiões respondem de forma diferente
O impacto das alterações climáticas sobre as plantas não é uniforme no mundo.
Nas regiões tropicais e subtropicais, o número de espécies tende a manter-se relativamente estável, com ganhos e perdas a equilibrar-se. Aqui, os padrões de precipitação moldam estas mudanças tanto quanto a temperatura.
Em zonas do hemisfério sul, sobretudo em partes da América do Sul, a diversidade vegetal poderá aumentar. Um aquecimento mais lento e um relevo variado ajudam as espécies a ajustar-se.
“As áreas com probabilidade de ganhar riqueza de espécies situam-se maioritariamente em regiões húmidas ou em zonas que se prevê que fiquem mais húmidas, como o leste dos Estados Unidos, a Índia, o Sudeste Asiático e o sul da América do Sul”, disse a primeira autora Junna Wang.
“Em contrapartida, o oeste dos Estados Unidos, grande parte da Europa e a Austrália deverão perder diversidade à medida que a área de distribuição de muitas espécies encolhe.”
As regiões do norte enfrentam declínio
Em latitudes setentrionais, o quadro muda de forma acentuada. Nessas áreas, o aquecimento é mais rápido do que na maioria das outras regiões.
Nalguns locais, as condições adequadas deslocam-se vários quilómetros por ano.
A maior parte das plantas não consegue igualar este ritmo. O resultado é que as espécies desaparecem localmente mais depressa do que chegam novas. Isso provoca quedas fortes na diversidade vegetal nas florestas boreais e na tundra.
Elevados riscos de extinção na Austrália
A Austrália destaca-se como outra região sob pressão extrema. Em partes do sudeste e do sudoeste da Austrália, mais de 30 por cento das espécies de plantas poderão enfrentar alto risco de extinção até ao fim do século num cenário de emissões elevadas.
Estas áreas acolhem flora única, que não existe em mais nenhum lugar. O stress climático, a seca e os incêndios florestais agravam o risco.
Com emissões mais baixas, a escala das perdas diminui, mas a ameaça mantém-se.
As emissões moldam o futuro
O estudo aponta para um factor acima de todos os outros: as emissões de gases com efeito de estufa.
Com baixas emissões, cerca de 7 por cento das espécies de plantas enfrentam alto risco. Com emissões elevadas, este valor sobe para 16 por cento ou mais.
A diferença traduz mudanças ecológicas reais. Grandes áreas do planeta transitam de ecossistemas relativamente estáveis para zonas de alto risco.
Reduzir emissões não serve apenas para abrandar os danos: altera o desfecho global.
A migração assistida de plantas não chega
Algumas estratégias de conservação concentram-se em transportar plantas para áreas mais seguras. Esta abordagem, chamada migração assistida, procura ajudar as espécies a acompanhar as alterações climáticas.
O estudo indica que esta estratégia tem limitações. Se os habitats adequados desaparecerem por completo, mover plantas não resolve o problema.
Uma alternativa mais eficaz poderá passar por proteger regiões que se mantêm estáveis num clima em mudança. Esses locais funcionam como refúgios, permitindo às espécies persistir por mais tempo.
Bancos de sementes e colecções botânicas também contribuem, ao salvaguardarem diversidade vegetal fora dos habitats naturais.
A conectividade apoia a sobrevivência
Há um contexto em que a deslocação é particularmente determinante: as regiões do norte. Aí, melhorar a conectividade da paisagem pode ajudar as plantas a acompanhar o deslocamento das condições climáticas.
Diminuir barreiras como estradas e fragmentação do território facilita o movimento das espécies. Em certos casos, apoio direccionado pode ajudar a sustentar ecossistemas locais.
Surgem novos ecossistemas
À medida que as espécies se deslocam, a composição dos ecossistemas começa a transformar-se. Mesmo quando o número total de espécies se mantém, os tipos de plantas presentes passam a ser diferentes.
Em muitas regiões, plantas que antes definiam a paisagem serão substituídas por recém-chegadas. Estas combinações inéditas criam ecossistemas sem precedentes históricos.
“Algumas destas espécies vão encontrar-se pela primeira vez”, disse Dong. “Vamos ver interacções novas. O resultado disso é difícil de prever. As coisas serão diferentes do que recordamos há 40 a 50 anos.”
Estas mudanças mexem com a polinização, a saúde do solo e o armazenamento de carbono. O funcionamento do ecossistema depende de que espécies existem, não apenas de quantas.
Mudanças escondidas acumulam-se
Em certas áreas, sobretudo a norte, a diversidade vegetal pode parecer estável no início. Espécies antigas permanecem enquanto novas espécies chegam.
Isto cria um equilíbrio temporário. Com o tempo, as espécies mais antigas enfraquecem e desaparecem, deixando lacunas que as recém-chegadas podem não conseguir preencher por completo.
Este atraso entre a alteração do clima e a resposta ecológica chama-se dívida climática. Acumula-se gradualmente e pode desencadear mudanças abruptas quando os ecossistemas atingem um ponto de viragem.
A conservação tem de se adaptar
Esta investigação aponta para uma mudança no modo de pensar a conservação. As abordagens tradicionais focam-se em preservar ecossistemas estáveis e fronteiras fixas.
Com um clima em transformação, estas estratégias tornam-se insuficientes. A conservação precisa de incorporar espécies em movimento e ambientes em mudança.
Proteger refúgios climáticos, reforçar a conectividade e reduzir emissões constituem o núcleo das estratégias futuras.
“As coisas vão mudar, e temos de nos adaptar”, afirmou Dong.
Porque é que as plantas são tão importantes
As plantas sustentam quase toda a vida em terra. Estão na base das cadeias alimentares. Regulam os ciclos do carbono e da água. Moldam o solo e influenciam o clima.
Quando as comunidades vegetais mudam, os efeitos propagam-se por ecossistemas inteiros.
O estudo abrange 18 por cento das espécies de plantas conhecidas. Muitas espécies raras não foram incluídas, o que significa que os riscos reais podem ser ainda maiores.
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