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Recifes da costa noroeste da Austrália podem ser os últimos vestígios do Grande Sistema de Recifes Indo-Australiano do Mioceno

Mergulhador a estudar um recife colorido com coral e peixes tropicais, com equipamento e tablet subaquático.

A costa noroeste da Austrália raramente aparece no topo da lista de destinos escolhidos por cientistas que estudam recifes. Os recifes dessa zona são de pequena dimensão, ficam longe dos grandes centros e, muitas vezes, passam despercebidos.

No entanto, um novo trabalho científico indica que estes recifes negligenciados poderão ser os derradeiros fragmentos sobreviventes do maior sistema de recifes dos últimos 100 milhões de anos - e até o ponto de origem antigo da extraordinária diversidade marinha atual.

Uma época de enorme expansão dos recifes

A investigação foi coordenada pelo Dr. Alexandre Siqueira, investigador na Universidade Edith Cowan (ECU).

De acordo com a equipa, durante o Mioceno - aproximadamente entre 20 e 10 milhões de anos atrás - os recifes expandiram-se numa escala que não se via há 100 milhões de anos.

Os recifes concentram cerca de um quarto de todas as espécies marinhas, apesar de ocuparem menos de 1% do oceano. Como é que esse desequilíbrio se formou, logo à partida?

Três linhas de evidência

Para responder, o Dr. Siqueira e os seus colegas recorreram a três registos independentes: mapas geológicos de recifes antigos, fósseis e árvores genealógicas genéticas de espécies de recife atuais.

Cada fonte, por si só, é incompleta. A geologia permite identificar onde existiram recifes antigos que se erguiam do fundo do mar. Os fósseis guardam espécies de forma fragmentada, em “manchas”. As árvores genéticas indicam quando as linhagens se separaram, mas não revelam em que locais isso aconteceu.

“Este estudo revela um ponto de viragem profundo na história da Terra - uma altura em que os recifes não apenas cresceram, mas se multiplicaram numa escala muito para lá de tudo o que vemos hoje”, afirmou Siqueira.

Quando os três conjuntos de dados foram cruzados, apontaram para a mesma janela temporal, há cerca de 20 milhões de anos, período em que os recifes no que hoje se conhece como Triângulo dos Corais cresceram a uma escala que o oceano nunca mais repetiu.

Um estudo recente que acompanhou a biodiversidade da região ao longo de 40 milhões de anos conseguiu registar o aumento do número de espécies, mas não chegou a colocar a questão de quão extensos eram, de facto, esses recifes.

A surpresa na costa oeste

O aspeto mais inesperado para os investigadores foi a localização. Os maiores recifes dessa rede antiga não estariam perto da Indonésia ou das Filipinas, mas sim ao largo da costa noroeste da Austrália.

O que existe atualmente são apenas recifes dispersos, pequenos e remotos - discretos quando comparados com a Grande Barreira de Coral.

A equipa do Dr. Siqueira descreve-os como sobreviventes desgastados do que batizaram de Grande Sistema de Recifes Indo-Australiano do Mioceno.

Há décadas que os geólogos sabem que, em tempos, um recife-barreira acompanhou a costa noroeste australiana, com uma extensão aproximada à da Grande Barreira de Coral.

O que nunca tinha sido quantificado era o tamanho que os recifes individuais, dentro desse sistema, conseguiram atingir.

“As novas conclusões vão mais longe, sugerindo que recifes individuais dentro deste sistema podem ter sido muito maiores do que qualquer recife moderno”, disse Siqueira.

O papel das placas tectónicas

A cronologia levanta uma pergunta óbvia: porque é que os recifes se expandiram de forma tão dramática há 20 milhões de anos? Os autores apontam para a resposta nas mudanças das placas tectónicas.

Nessa altura, a placa tectónica australiana avançava para norte, em direção à margem do Sudeste Asiático, criando vastos mares rasos e quentes - precisamente as condições de que os corais precisam.

Um artigo anterior tinha chegado a uma conclusão semelhante ao simular 140 milhões de anos de movimento das placas, de modo a mapear onde se abriram mares tropicais pouco profundos.

O que essa modelação, por si só, não conseguia fornecer era a confirmação através de fósseis e de genética. O estudo agora apresentado mostra que os recifes nesses mares recém-formados não se limitaram a existir - prosperaram numa dimensão que o oceano contemporâneo não iguala.

Quando as linhagens de peixes explodiram

Os recifes não são apenas rocha e coral: são a estrutura que sustenta a vida que neles habita. À medida que o sistema Indo-Australiano aumentava, as árvores familiares dos peixes ramificavam-se a grande velocidade.

Os peixes-papagaio estão entre os exemplos mais claros. Um estudo genético independente sobre bodiões e peixes-papagaio concluiu que as linhagens associadas a recifes se diversificaram rapidamente entre 20 e 15 milhões de anos atrás. As linhagens não associadas a recifes não apresentaram o mesmo padrão.

A análise do Dr. Siqueira sugere que esta coincidência temporal dificilmente foi acaso. Recifes maiores poderão ter gerado mais tipos de habitat, criando espaço ecológico para novas espécies se instalarem.

Ainda assim, persistem muitas dúvidas. Continua em debate se os recifes cresceram primeiro e atraíram novas espécies, ou se o processo ocorreu no sentido inverso.

Também não está fechado o peso relativo do clima, da tectónica e da biologia como motores dessa expansão.

“Acrescenta mais uma peça de evidência ao puzzle de como os sistemas de recifes de coral, no seu conjunto, evoluíram”, afirmou o Dr. Siqueira.

Artefactos vivos de um recife antigo

A procura das origens da biodiversidade marinha mudou de foco. Durante décadas, a pergunta central era porque é que o Triângulo dos Corais é tão rico. A proposta agora é que essa riqueza foi herdada de um vizinho entretanto desaparecido.

Isto altera também a forma como se fala de conservação. Os recifes do noroeste australiano - Ashmore, Scott e Rowley - têm sido encarados como postos avançados distantes.

Mas poderão ser artefactos vivos de um sistema que semeou os oceanos tropicais atuais.

Até agora, esta enorme rede de recifes antigos nunca tinha sido formalmente reunida sob uma única designação. O novo estudo dá aos investigadores uma estrutura para mapear o Grande Sistema de Recifes Indo-Australiano do Mioceno e seguir, no presente, o que ainda resta dele.

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