Saltar para o conteúdo

"Psicólogo? Só para malucos!" – Como uma jovem quebrou o tabu familiar

Jovem mulher ao telefone, a ler documento, sentada à mesa com chá, enquanto casal discute ao fundo na cozinha.

Nas redes sociais, o tema #saudemental está por todo o lado, os podcasts falam de trauma e de esgotamento, e nas universidades multiplicam-se os cartazes de apoio psicológico. Mesmo assim, há inúmeros jovens que continuam a sentir-se completamente sozinhos por dentro. Uma estudante, cuja mãe considerava os psicólogos “malucos”, mostra até que ponto este modo de pensar antigo ainda pesa - e como pode ser libertador dar o passo de entrar em terapia.

Crise psicológica nas estudantes apesar de “parece estar tudo normal”

À superfície, a vida de muitas estudantes parece correr dentro do esperado: aulas, trabalho em part-time, casa partilhada, saídas. Mas, por dentro, muita coisa está a desmoronar. Os números mais recentes desenham um retrato claro: mais de metade das estudantes avalia o seu estado emocional como pouco satisfatório. Muitas lutam com:

  • cansaço persistente e perturbações do sono
  • tensão constante e ruminação
  • receio de falhar no curso
  • forte pressão da família ou preocupações financeiras

Cerca de 60 por cento dos jovens inquiridos mostram, segundo o estudo, sinais de sofrimento psicológico, e 38 por cento chegam mesmo a ponderar desistir do curso por causa de dificuldades emocionais. Por trás destes dados frios estão histórias como a de Nasrine (nome da versão original), que tem 24 anos.

“Compõe-te”: quando a força é mal compreendida

Nasrine cresce num meio onde a dureza vale mais do que tudo. Queixar-se é visto como fraqueza. Quem tem problemas deve “aguentar-se” e continuar. Resiliência, persistência, disciplina - tudo isso é exaltado, mas os sentimentos ficam fora da equação.

Quando começa a sentir dificuldades emocionais sérias, guarda-as para si. Não fala com a mãe, nem com amigos. Os pensamentos dão voltas sem parar, a pressão aumenta, mas, para os outros, ela continua a ser a pessoa que “vai conseguindo”.

“Mesmo quando havia pessoas à minha volta, sentia-me completamente sozinha por dentro.”

Ela nunca aprendeu a pôr em palavras o que se passava dentro de si. À vergonha junta-se o medo: e se os outros pensam que ela é fraca? Ou “maluca”?

Quando os pais estigmatizam a terapia

A postura da mãe marca-a profundamente. Está convencida de que quem procura uma psicóloga tem “um parafuso a menos”. Frases deste género ouvem-se em muitas famílias, seja em Portugal, em França ou noutros lugares:

  • “Nem é assim tão grave.”
  • “No nosso tempo também tínhamos preocupações, e ninguém ia para terapia.”
  • “Não se fala de assuntos de família com desconhecidos.”

Estas expressões raramente nascem de má intenção, mas causam um estrago enorme. Passam a mensagem de que os sentimentos são perigosos, de que os problemas devem ser resolvidos em silêncio e de que pedir ajuda é motivo de vergonha. O resultado é previsível: quem sofre recolhe-se sobre si próprio e espera até já não conseguir mais.

Estudos mostram que mais de metade das estudantes que têm problemas de saúde mental não recorre a qualquer serviço de apoio dentro da sua instituição, apesar de esses serviços existirem. A porta está aberta, mas o bloqueio interior mantém-se.

Socialmente ligadas, por dentro isoladas

No TikTok, no Instagram e em outras plataformas, os jovens falam aparentemente o tempo todo sobre depressão, ataques de pânico e saúde mental. Sob a hashtag #saudemental juntam-se vídeos com humor negro, clipes em que se imagina não conseguir aguentar mais, ou relatos pessoais com lágrimas diante da câmara do telemóvel.

Ao mesmo tempo, muitos dos afetados vivem no quotidiano algo bem diferente:

Nunca foi tão fácil enviar mensagens - e, ainda assim, tanta gente se sente tão só como nunca.

Falar online é mais simples, porque o ecrã protege. Já na sala de estar, à mesa da cozinha ou ao telefone com os pais, o tema de uma crise emocional continua a ser delicado. Esta diferença mostra até que ponto o tabu ainda deixa marcas nas famílias.

O ponto de viragem: um telefonema para uma linha anónima de escuta

Para Nasrine, as coisas mudam quando descobre uma organização que oferece, durante a noite, uma linha anónima de telefone e chat para estudantes. Do outro lado estão também estudantes, com formação, mas não profissionais. Este modelo baixa bastante a barreira de entrada: não há rótulo de “doente”, não há sala de espera, não há burocracia - apenas uma voz do outro lado.

Ela hesita durante muito tempo. Marca o número várias vezes e desliga, escreve mensagens e apaga-as. Depois, acaba por telefonar. Pela primeira vez, diz em voz alta a outra pessoa: “Não me sinto bem.”

Nas conversas, aprende uma ideia decisiva: é permitido sentir-se mal. Ninguém é um caso à parte, nem um “caso problemático”, por estar naquele momento a ser ultrapassado pela própria vida.

De pedir ajuda a ajudar os outros

O apoio faz diferença. Nasrine sente-se menos sozinha, recebe sugestões sobre como começar uma terapia e aprende a levar mais a sério os seus próprios limites. Uns anos depois, regressa - desta vez do outro lado da linha.

Passa ela própria a ser voluntária na escuta. A sua motivação é devolver aquilo que, a ela, a ajudou a continuar. Hoje acompanha estudantes que estão sentadas de noite na cozinha da casa partilhada, riem alto, mas por dentro estão prestes a partir. A mensagem que lhes deixa é simples: não há nada de estranho em sofrer. Corajoso é dizê-lo.

Conflito entre gerações à mesa da cozinha

Este caso mostra onde muitas famílias se encontram. A geração mais nova está mais disponível para falar de sentimentos, medos e crises - pelo menos online. A geração dos pais aprendeu o contrário: cala-te, aguenta, “não faças tanto drama”.

Para os pais que querem apoiar os filhos sem fazer parecer que tudo é uma questão “clínica”, ajuda mudar de perspetiva. Algumas ideias para começar:

  • Perguntar com regularidade no dia a dia: “Como te sentes mesmo em relação à situação atual?”
  • Reconhecer as próprias fragilidades: “Na tua idade também me sentia muitas vezes sobrecarregado e teria gostado de ajuda.”
  • Não apresentar logo soluções, mas primeiro ouvir e fazer perguntas.
  • Mostrar a terapia ou o aconselhamento não como “último recurso”, mas como uma opção normal - tal como a fisioterapia depois de uma lesão desportiva.

A diferença decisiva: os filhos falam mais facilmente dos problemas quando sentem que não vão ser julgados.

Como o estigma vai cedendo aos poucos

Cada vez mais jovens adultos procuram apoio, seja através de aconselhamento online, aplicações, grupos de entreajuda ou psicoterapia convencional. Ao mesmo tempo, a ideia de tratamento está a mudar: afasta-se da imagem de “instituição para doidos” e aproxima-se de um espaço onde se aprendem ferramentas para a vida quotidiana.

Hoje, fazer terapia significa muitas vezes:

  • perceber melhor como pensamentos e emoções se relacionam
  • encontrar estratégias contra ciclos de ruminação e momentos de pânico
  • questionar padrões familiares antigos que já não fazem sentido
  • estabelecer limites mais saudáveis em relação aos estudos, ao trabalho e às relações

Quem dá estes passos não está apenas a proteger-se a si próprio. Muitos jovens acabam por transmitir a sua experiência mais tarde - como conselheiros, voluntários, influenciadores nos seus círculos de amigos ou nas redes sociais. É precisamente aí que está a revolução silenciosa: a vergonha transforma-se em solidariedade.

Orientações práticas para começar a procurar apoio psicológico

Para quem se revê na história de Nasrine, pode ser útil uma orientação pequena e concreta. Possíveis primeiros passos:

  • Falar com uma pessoa de confiança que saiba ouvir - sem minimizar o que se passa.
  • Procurar a consulta ou o apoio psicológico na escola superior ou na universidade e pedir marcação.
  • Utilizar serviços de baixo limiar, como apoio telefónico, chats de aconselhamento ou linhas de escuta para estudantes.
  • Ir ao médico de família se os sintomas forem intensos (insónias, ataques de pânico, pensamentos suicidas).
  • Não tratar a reação dos pais como verdade final - mas como reflexo da forma como eles próprios foram moldados.

Este último ponto é especialmente importante: quem cresce a ouvir que a terapia é só para “malucos” leva essa mensagem consigo durante muito tempo. Questioná-la exige coragem, mas é aí que começa a verdadeira mudança - nas cabeças, à mesa da cozinha, na sala de aula e, por vezes, a meio da noite, ao telefone com alguém que simplesmente escuta.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário