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Em abril, ela regressa: porque o regresso do chapim transforma jardins.

Mulher a jardinar num jardim com flores, observando um pássaro perto de comedouro e casa de madeira.

Entre comedouros para aves, velhas árvores de fruto e as primeiras flores da primavera, em abril pode avistar-se uma verdadeira ave de carácter: a trepadeira-azul eurasiática, conhecida entre especialistas também como “trepadeira-azul” ou “pica-pau-trepador”. Quem quiser ver este habitante tão marcante do jardim com regularidade precisa, no entanto, de mais do que um simples comedouro - o que faz a diferença são árvores antigas, sossego e um jardim relativamente natural.

A trepadeira-azul no jardim: uma “máscara” e talento para subir

À primeira vista, a trepadeira-azul parece discreta: corpo robusto, bico fino e patas curtas. Mas, ao observar melhor, salta logo à vista o seu aspeto muito particular. O dorso é coberto por uma plumagem azul-acinzentada, enquanto o ventre brilha em tons de laranja a ferrugem. A atravessar o olho corre uma faixa escura que quase parece uma venda - por isso, muitos amantes da natureza falam de uma ave “mascarada”.

Mais impressionante ainda é a forma como se desloca. Enquanto chapins e pardais costumam saltitar lateralmente pelos ramos, a trepadeira-azul parece literalmente agarrar-se à casca. Sobe pelos troncos, desloca-se de lado - e até consegue descer de cabeça para baixo. Quase nenhuma outra ave nativa executa este feito com tanta elegância.

A trepadeira-azul é a única ave cantora nativa que desce os troncos de árvore de cabeça para baixo com toda a segurança.

Para conseguir fazê-lo, precisa de patas fortes e unhas afiadas. Funcionam como pequenos piolets, prendendo-a firmemente na casca. Quem tiver atenção pode reconhecer a trepadeira-azul antes mesmo de a ver: anuncia-se com chamamentos curtos e secos, repetidos em sequência. Assim marca o seu território e deixa claro aos rivais que aquela árvore já tem dono.

Porque é que abril é tão importante para a trepadeira-azul

Com a chegada da primavera, entra para a trepadeira-azul a fase mais intensa do ano: a época de reprodução. Em especial em abril, aumenta a probabilidade de a observar no jardim. Nessa altura, os casais procuram de forma insistente cavidades adequadas, defendem o território e transportam material para o ninho.

Muitas espécies de aves fazem ninho em sebes ou arbustos. A trepadeira-azul tem outros planos: é uma típica ave que nidifica em cavidades. Precisa de ocos em árvores, fendas ou rachas na madeira. Estes só aparecem quando as árvores envelhecem, desenvolvem zonas apodrecidas ou quando os pica-paus já abriram caminho. Por isso mesmo, nem todos os jardins são adequados para a trepadeira-azul.

Jardim com trepadeira-azul: que espaços ela prefere

Quem espera ver uma trepadeira-azul na primavera deve observar o próprio jardim com sentido crítico. Três aspetos são especialmente importantes:

  • Árvores antigas: de preferência árvores de folha caduca, com casca grossa, gretada e cavidades naturais.
  • Cantos sossegados: pouco ruído e ausência de perturbações constantes causadas por trabalhos barulhentos ou por gatos soltos.
  • Ambiente natural: madeira morta, velhas árvores de fruto, poucas áreas impermeabilizadas e nenhum jardim de pedras “esterilizado”.

Se não existirem grandes árvores velhas, a probabilidade de uma trepadeira-azul se fixar no jardim diminui bastante. São especialmente atrativos os antigos pomares, os bairros antigos com carvalhos, faias ou tílias já maduros, bem como os jardins onde se deixam ficar ramos mortos.

Como a trepadeira-azul faz o ninho - sem o construir de raiz

Ao contrário dos pica-paus, a trepadeira-azul não abre as suas próprias cavidades. Aproveita o que a natureza ou outras espécies já criaram: buracos feitos por pica-paus, ocos naturais, fendas em madeira apodrecida ou nichos em troncos antigos.

Depois de encontrar uma abertura adequada, começa a sua marca distintiva: reduz a entrada. Para isso, usa terra húmida ou barro, que vai colando com o bico à volta da abertura. Camada após camada, forma-se uma pequena entrada, pela qual só ela e a sua companheira conseguem passar.

O “trabalho de alvenaria” da trepadeira-azul torna a cavidade de reprodução mais segura contra predadores e concorrentes.

No interior, o casal forra a cavidade com pequenos fragmentos de casca, lascas finas de madeira, ervas e, por vezes, penas. Assim cria-se um espaço protegido para, em geral, cinco a nove ovos.

Vida na árvore: porque é que a trepadeira-azul precisa das árvores duas vezes

A trepadeira-azul não depende das árvores apenas para se reproduzir. Todo o seu dia a dia gira em torno de troncos e ramos. É aí que procura alimento, é aí que dorme e é aí que cria as crias.

Ao longo do ano, a alimentação adapta-se da seguinte forma:

Estação Alimento principal
Primavera Insetos, aranhas, larvas na casca
Verão Insetos, pequenos escaravelhos, lagartas
Outono Nozes, bolotas, sementes, grãos maiores
Inverno Sementes ricas em gordura, nozes, sementes de girassol

Com o bico fino, remexe as fendas da casca, retira larvas ou escaravelhos e ajuda assim a manter sob controlo as pragas das árvores. No outono, cria reservas: enfia nozes ou sementes em fendas da casca e bate-lhes até se abrirem. Parte dessas reservas fica escondida como alimento para o inverno.

Como os donos de jardim podem torná-lo mais adequado à trepadeira-azul

Quem quiser apoiar de forma específica a trepadeira-azul não precisa de remodelar o jardim por completo. Bastam algumas alterações para ajudar bastante:

  • conservar as árvores velhas sempre que possível, em vez de as abater por comodidade;
  • onde for seguro, deixar alguns ramos e troncos mortos permanecerem de pé;
  • não criar jardins de pedras “esterilizados”, optando antes por plantar arbustos autóctones;
  • no inverno, disponibilizar pontos de alimentação com nozes e sementes de girassol;
  • usar caixas-ninho com uma pequena abertura, adequadas a aves que nidificam em cavidades.

É importante não domesticar os animais selvagens nem os habituar demasiado à presença humana. Os pontos de alimentação servem apenas como apoio, sobretudo na estação fria. A trepadeira-azul continua a ser uma ave selvagem livre, que escolhe por si os seus territórios.

Comedouro: o que a trepadeira-azul gosta - e o que não gosta

No comedouro, a trepadeira-azul costuma aparecer por instantes, mas com decisão. Aproxima-se, agarra um grão e volta a desaparecer para um ramo, onde come com calma. São especialmente adequados:

  • frutos secos sem sal, como avelãs ou nozes
  • sementes de girassol, de preferência sem casca
  • misturas com elevado teor de gordura e pouco enchimento de cereais

Pão seco, snacks salgados ou restos da cozinha fortemente temperados fazem mais mal do que bem. Quem tiver dúvidas deve optar por misturas prontas de comércio especializado e prestar atenção à qualidade elevada.

Visitante fiel durante todo o ano, em vez de ave migratória

Ao contrário de muitas outras aves canoras, a trepadeira-azul não parte para sul no outono. Mantém-se no mesmo território durante todo o ano. Uma vez adaptada, mostra uma fidelidade notável ao local. Os casais costumam conservar a mesma área durante vários anos - incluindo as suas “árvores de referência” e cavidades favoritas.

Para os proprietários de jardins, isto significa que, ao tornar o espaço mais adequado à trepadeira-azul, podem contar com uma vizinhança duradoura. Com alguma sorte, um casal reproduz-se todos os anos e, no fim do verão, os jovens trepadeiras-azuis andam atrás dos pais, treinam a escalada e pedem comida em voz alta.

Mais diversidade no jardim: a trepadeira-azul como símbolo

A trepadeira-azul representa bem uma tendência que preocupa muitos amigos da natureza: quanto mais estruturado é um jardim, mais espécies se sentem em casa. Árvores velhas, sebes, montes de folhas e madeira morta podem parecer menos “arrumados”, mas formam um habitat valioso.

Quem quiser aproximar as crianças da natureza pode usar a trepadeira-azul como ponto de partida. É chamativa, fácil de identificar e mostra comportamentos que se observam de imediato: a escalada de cabeça para baixo, a ida ao comedouro, o “tapamento” de entradas em árvores velhas ou em caixas-ninho.

Ao mesmo tempo, vale a pena olhar para conceitos como “aves que nidificam em cavidades”. Muitas espécies populares pertencem a este grupo: chapins, estorninhos, pardais - e também a trepadeira-azul. Todas dependem de estruturas que quase desapareceram dos jardins modernos e demasiado arrumados. Proteger árvores antigas, instalar caixas-ninho e evitar produtos tóxicos contribui automaticamente para mais vida também para outras espécies animais.

Dessa forma, a presença da trepadeira-azul em abril torna-se mais do que um simples momento agradável de primavera. Mostra que um jardim pode ser mais do que uma superfície verde - pode ser um pequeno ecossistema vivo, onde as aves encontram o seu lugar e as pessoas se surpreendem ano após ano.

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