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Suplementos alimentares: o lado oculto de um mercado em expansão

Homem preocupado lê rótulo de medicamento junto a computador portátil e comprimidos numa mesa.

Mas esta tendência também tem o seu lado sombrio.

Prateleiras cheias de latas coloridas, lojas online com promessas milagrosas para o sono, o cabelo, o sistema imunitário e a queima de gordura: os suplementos alimentares estão em pleno auge. O que muita gente esquece é que estes produtos, do ponto de vista legal, não são medicamentos, são frequentemente tomados sem acompanhamento médico e podem sobrecarregar o organismo de forma muito mais séria do que o rótulo faz supor - até ao ponto de causarem lesões no fígado.

Um negócio de milhares de milhões alimentado pelo desejo de mais saúde

Em vários países europeus, recorrer a suplementos alimentares já faz quase parte da rotina. O mercado movimenta milhares de milhões e, por pessoa, todos os anos sai uma quantia considerável da carteira para vitaminas, minerais e produtos de origem vegetal.

São especialmente procurados os preparados que

  • alegadamente aliviam a tosse e as constipações,
  • apoiam a digestão com bactérias do ácido lático,
  • promovem o sono,
  • ajudam a emagrecer,
  • reforçam a pele, o cabelo e as unhas,
  • “reforçam” o sistema imunitário ou
  • prometem mais energia para o dia a dia e para o desporto.

A mensagem da publicidade é clara: quem não compra isto estará a perder uma forma fácil de alcançar mais bem-estar. A realidade jurídica, porém, é muito menos entusiasmante.

Suplementos alimentares não são medicamentos

Do ponto de vista legal, os suplementos alimentares são considerados alimentos. Não podem prometer efeito curativo nem anunciar-se como meios para prevenir ou tratar doenças. A sua função é apoiar o funcionamento normal do corpo quando a alimentação não fornece certas substâncias em quantidade suficiente.

Os suplementos alimentares destinam-se a complementar a alimentação - não a substituir medicamentos nem a fazer milagres.

Para que uma substância possa sequer ser utilizada em suplementos alimentares, a segurança desempenha um papel central na Europa. É necessário demonstrar uma história de consumo suficientemente longa e documentada. Ainda assim, a responsabilidade final recai sobre os fabricantes: os seus produtos não podem prejudicar a saúde quando usados corretamente.

Porque é que doses elevadas podem ser problemáticas

O ponto sensível é este: em cápsulas e pós, as vitaminas, os minerais e os extratos vegetais surgem geralmente em concentrações muito superiores às dos alimentos comuns. O que é inofensivo numa maçã ou numa porção de legumes pode tornar-se pesado quando concentrado.

Um artigo na revista National Geographic chamou a atenção para os Estados Unidos, onde suplementos alimentares fortemente publicitados foram associados a lesões graves no fígado. Também as autoridades europeias acompanham o mercado com crescente desconfiança, sobretudo no caso de produtos vegetais altamente concentrados.

Vitaminas versus produtos vegetais: uma diferença importante

Os especialistas distinguem, de forma geral, dois grandes grupos de suplementos alimentares:

Grupo Características típicas
Vitaminas e minerais Substâncias individuais, claramente definidas, com dosagens normalmente limitadas por lei
Produtos à base de plantas (botânicos) Misturas de muitas substâncias diferentes, com concentrações e efeitos muitas vezes difíceis de enquadrar

No caso das vitaminas e dos minerais, existem na União Europeia regras precisas sobre quais as substâncias e as quantidades permitidas nos suplementos alimentares. Isso facilita a avaliação do risco.

Nos produtos vegetais, a situação é bem diferente: são utilizados extratos complexos cuja composição varia bastante. O modo de cultivo, o momento da colheita, a qualidade do solo e a técnica de extração alteram a mistura das substâncias presentes. Isso torna muito mais difícil avaliar com rigor os riscos envolvidos.

Com que frequência surgem realmente efeitos secundários?

Em alguns países existem sistemas especializados de notificação para lesões hepáticas provocadas por medicamentos ou suplementos alimentares. Em certos Estados, ainda faltam registos comparáveis. Em alguns casos, os efeitos indesejáveis são reunidos em sistemas específicos para produtos naturais.

Os casos já comunicados mostram o seguinte: existem notificações de efeitos secundários associados a suplementos alimentares, mas o número é relativamente reduzido. Só uma pequena parte diz respeito diretamente ao fígado. Com mais frequência surgem:

  • queixas gastrointestinais, por exemplo, náuseas, diarreia e dores abdominais,
  • reações cutâneas, por exemplo, erupções na pele e comichão.

A partir destes números, não é possível tirar uma conclusão inequívoca. As notificações são voluntárias. Muitos efeitos ligeiros ficam por registar e nem todos os médicos associam de imediato as queixas a um suposto “produto natural” inofensivo.

Suplementos alimentares e fígado: quando o “natural” não é inofensivo

Alguns ingredientes de origem vegetal estão agora claramente no centro das atenções. Casos de efeitos secundários, por vezes com envolvimento do fígado, têm sido associados em todo o mundo e também na Europa, entre outras, às seguintes plantas:

  • Cúrcuma,
  • espécies de Garcinia, frequentemente usadas em produtos para emagrecer,
  • ashwagandha, muito apreciada para o stress, problemas de sono e no meio desportivo.

“Natural” não significa automaticamente suave - as plantas podem ter efeitos muito fortes, tanto no bom como no mau sentido.

Em alguns casos, foi possível demonstrar uma relação clara entre o produto tomado e a doença observada. Noutros, muita coisa continua por esclarecer: quais substâncias do extrato estiveram exatamente envolvidas? Terá havido contaminação? Ou a pessoa afetada terá tido uma sensibilidade particular?

Porque é que o mesmo produto afeta pessoas diferentes de forma distinta

Os efeitos secundários raramente têm uma única causa. Os fatores que normalmente influenciam são:

  • Sobredosagem: os utilizadores ultrapassam a dose diária recomendada, convencidos de que “quanto mais, melhor”.
  • Mistura de produtos: tomar vários suplementos alimentares ao mesmo tempo leva a quantidades totais desnecessariamente elevadas de certas substâncias.
  • Sensibilidade individual: fatores genéticos podem fazer com que algumas pessoas metabolizem pior determinados ingredientes ativos.
  • Problemas de qualidade: falhas na colheita, no armazenamento ou no fabrico e contaminações por outras plantas ou por químicos.
  • Concentração muito elevada de substâncias ativas: sobretudo os extratos padronizados fornecem várias vezes a quantidade que era habitual nas utilizações tradicionais.

Os preparados mistos são particularmente difíceis de avaliar: várias plantas, vitaminas adicionadas, cafeína ou outros estimulantes - até para especialistas a análise se torna complexa.

Como usar suplementos alimentares com o menor risco possível

Demonizar os suplementos alimentares de forma indiscriminada não faz sentido. Ao mesmo tempo, a ideia generalizada de que os produtos naturais são sempre seguros também é enganadora. Um uso sensato começa com algumas regras simples.

Antes de tomar, vale a pena fazer perguntas críticas

  • Preciso mesmo deste produto - ou o problema poderia melhorar com a alimentação, o exercício ou o sono?
  • Existe um diagnóstico médico, por exemplo, uma deficiência vitamínica comprovada?
  • Que medicamentos já tomo e poderá haver interações?

Uma conversa com o médico de família ou com um especialista ajuda a esclarecer estas dúvidas, sobretudo em caso de doenças crónicas, problemas do fígado ou dos rins e medicamentos de uso continuado, como anti-hipertensores, anticoagulantes ou psicofármacos.

Escolher os produtos de forma criteriosa

Quem, após aconselhamento médico, decidir tomar um suplemento alimentar, deve observar melhor os detalhes:

  • Dar preferência a produtos em que os ingredientes ativos e as quantidades estejam claramente indicados.
  • Nos extratos vegetais, prestar atenção às informações sobre padronização e concentração.
  • Não optar às cegas por produtos “high dose” ou “extra strong”.
  • Comprar em farmácias, drogarias, supermercados ou farmácias online autorizadas, em vez de recorrer a ofertas duvidosas do estrangeiro.

Quanto mais transparente for a rotulagem de um produto, melhor é possível avaliar o seu risco.

Quando os suplementos alimentares podem ser úteis - e quando não

Há situações em que os suplementos alimentares têm, de facto, o seu lugar: administração de vitamina D no inverno quando há deficiência comprovada, ácido fólico antes e no início da gravidez, vitamina B12 em veganos ou em determinadas doenças gastrointestinais - sempre com acompanhamento médico.

Tornam-se problemáticos quando são usados como:

  • solução rápida para problemas complexos, como stress, perturbações do sono ou excesso de peso,
  • “amortecedor seguro” para uma alimentação permanentemente má,
  • remédio universal para queixas vagas sem diagnóstico.

A base continua a ser uma alimentação equilibrada, com muitos legumes, fruta, cereais integrais, gorduras de boa qualidade e proteína suficiente. Os suplementos alimentares, no máximo, podem colmatar uma lacuna - não substituem um bom plano de vida saudável.

O que muitos consumidores subestimam

Um ponto essencial passa muitas vezes despercebido na publicidade do dia a dia: até um multissuplemento de drogaria cobre frequentemente a necessidade diária total de várias vitaminas e minerais. Quando se juntam bebidas energéticas, “protein bars” ou bebidas desportivas especiais com vitaminas adicionais, surgem rapidamente sobredosagens sem que a pessoa se aperceba.

As vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, bem como certos oligoelementos como selénio ou zinco, podem tornar-se problemáticos em quantidades demasiado elevadas. O organismo elimina-os mais lentamente, podem acumular-se e provocar queixas - desde cansaço e dores de cabeça até lesões orgânicas mais graves.

Levar a sério as reações e comunicá-las

Quem, após começar a tomar um novo preparado, notar sintomas invulgares - por exemplo, comichão intensa, amarelecimento da pele, urina escura, náuseas persistentes ou grande fadiga - deve suspender imediatamente o produto e procurar aconselhamento médico. Idealmente, a pessoa afetada deve levar a embalagem consigo para a consulta.

Os especialistas recomendam também que os casos suspeitos sejam comunicados aos sistemas de notificação competentes. Estes dados ajudam as autoridades a identificar mais depressa produtos problemáticos, emitir alertas ou reavaliar composições.

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