Para centenas de localidades, os velhos pares de cobre que durante anos transportaram cada e-mail, cada sessão de Netflix e cada envio de trabalhos escolares estão prestes a ficar mudos. A França está a fazer a transição total para a fibra e o próximo grande desligamento chega mais depressa do que muitas famílias imaginam.
França: próxima vaga de desligamentos de ADSL (Orange) já tem data
A 27 de janeiro de 2026, a France Telecom–Orange vai desligar o acesso ADSL em mais 763 municípios por todo o país. Este conjunto corresponde ao que a operadora designa por “lote 2”, a segunda grande etapa do plano plurianual de desligamento do cobre.
A lista mistura áreas muito densas e zonas rurais. Entram subúrbios conhecidos, como Villeneuve-d’Ascq (perto de Lille), Bois-Colombes (na periferia de Paris) e até o 6.º arrondissement de Lyon, a par de localidades pequenas como Toutlemonde, no departamento de Maine-et-Loire.
Entre 27 de janeiro de 2026 e o final da década, milhões de casas em França vão ver as linhas de cobre serem desligadas de forma definitiva à medida que a fibra assume o controlo.
No total, quase um milhão de instalações abrangidas por estes 763 municípios perderão o acesso a ADSL a partir desse prazo de janeiro. Para quem ainda depende do cobre, isso significa migrar para fibra ou optar por alternativas como internet fixa via 4G/5G ou banda larga por satélite.
Calendário até 2030: datas-chave do desligamento do cobre e expansão da fibra
O corte de janeiro de 2026 está longe de ser o fim. A Orange definiu um calendário apertado de encerramentos técnicos nos próximos anos, com cada ronda a afetar mais municípios.
| Data-chave | Municípios afetados | Instalações abrangidas (aprox.) |
|---|---|---|
| 27 de janeiro de 2026 | 763 | cerca de 1 milhão |
| 31 de janeiro de 2027 | 2.145 | 2,5 milhões |
| Vaga de 2028 | 6.849 | 8,2 milhões |
| 2029–2030 (anual) | Aceleração a nível nacional | cerca de 10 milhões por ano |
O objetivo é ambicioso: chegar a 100% de cobertura de fibra até 2030 e encerrar por completo a rede de cobre. Esta meta tem resistido a várias revisões do calendário, apesar de atrasos em certas regiões, estrangulamentos na construção e disputas de planeamento local.
O plano da Orange implica que, no início da década de 2030, os pares entrançados que suportaram a era do acesso telefónico e do ADSL em França sejam retirados a nível nacional.
Mapa interativo: como confirmar se a sua localidade está na lista
Para ajudar os utilizadores a perceberem se serão afetados, a Orange disponibilizou um mapa interativo de “desligamento do cobre”. É possível pesquisar por morada ou por município e ver a data prevista de desligamento na zona. A operadora também publica uma folha de cálculo descarregável com todos os municípios e o respetivo marco de corte.
Estas ferramentas são importantes por uma razão simples: a migração demora. É preciso marcar visita técnica, agendar a instalação, testar a nova ligação e, por vezes, renegociar o contrato. No caso das empresas, a lista de tarefas costuma ser maior, sobretudo quando existem terminais de pagamento, alarmes ou equipamento industrial ainda dependente de ligações em cobre.
Qualquer casa ou loja que ainda use ADSL num dos municípios afetados deve iniciar a migração meses antes de 27 de janeiro de 2026, e não apenas alguns dias antes.
Os reguladores franceses pressionaram a Orange a dar mais visibilidade a autarquias e residentes, depois de críticas anteriores por a informação sobre o desligamento do cobre ter chegado tarde ou ser demasiado técnica para quem não é especialista.
Fim comercial do ADSL: deixam de existir novos contratos de cobre
O “fim” simbólico do ADSL em França, do ponto de vista comercial, chega um pouco antes: 31 de janeiro de 2026. A partir dessa data, os operadores deixam de vender novas ofertas ADSL a nível nacional. O serviço continuará a funcionar onde o cobre ainda não tiver sido desligado, mas apenas para clientes já existentes.
Quem se mudar para uma casa situada numa zona ainda só com ADSL, após este corte comercial, já não conseguirá aderir a um contrato clássico em cobre. Em alternativa, os operadores deverão propor ligações temporárias através de:
- Routers domésticos 4G ou 5G, usando redes móveis como internet fixa
- Banda larga por satélite, sobretudo para áreas rurais mais remotas
- Pacotes híbridos, combinando dados móveis e serviços limitados sobre cobre, quando existirem
Esta abordagem faseada permite “congelar” a base de clientes no cobre, enquanto se acelera a implantação de fibra e se desmantela gradualmente a rede antiga.
Porque é que a França está a desligar o cobre (e não a mantê-lo como reserva)
O ADSL ainda chega para navegação básica e e-mail, por isso a pergunta é recorrente: porquê desligar o cobre? A resposta junta custos, qualidade e robustez.
Custos de manutenção a subir e infraestrutura envelhecida
Em muitas zonas, a rede de cobre local é herança dos anos 1970 (ou até anterior). Manter milhares de armários de rua e linhas aéreas exige orçamentos elevados todos os anos. As equipas no terreno têm de localizar avarias ao longo de quilómetros de cabo, muitas vezes com mau tempo ou em terrenos difíceis.
Ao mesmo tempo, há cada vez menos utilizadores a recorrer a esta tecnologia. À medida que os clientes migram para fibra, o custo por linha remanescente aumenta. Sustentar o cobre para uma minoria cada vez menor torna-se mais difícil de justificar financeiramente, sobretudo quando o operador tem pressão para modernizar redes e cumprir metas climáticas.
Vantagem de desempenho da fibra
A fibra oferece largura de banda elevada e simétrica, baixa latência e maior resistência a interferências eletromagnéticas. Enquanto as velocidades ADSL caem de forma acentuada com a distância até à central, a fibra mantém um desempenho mais consistente em ligações longas.
Para famílias, isto traduz-se em streaming 4K mais fluido, chamadas de vídeo estáveis e capacidade para vários dispositivos em simultâneo. Para empresas, a fibra desbloqueia ferramentas na nuvem, cópias de segurança remotas e monitorização em tempo real - cenários que simplesmente não funcionam bem em ligações lentas de cobre.
Impacto energético e climático
Há ainda um fator menos visível: consumo de energia. O equipamento de cobre nas centrais tende a gastar mais eletricidade do que o equipamento moderno de fibra, sobretudo plataformas antigas como DSLAM e sistemas de comutação legados. Desligar blocos inteiros de cobre permite reduzir consumo elétrico e necessidades de arrefecimento.
Num setor onde as faturas energéticas sobem e as exigências de reporte ambiental apertam, desativar infraestrutura intensiva em energia passou a ser uma decisão estratégica, e não apenas um detalhe técnico.
Dois pontos práticos que muitas pessoas esquecem: voz fixa e instalações internas do prédio
A migração para fibra costuma implicar que a voz fixa passe a funcionar por VoIP (voz sobre IP) em vez de uma linha analógica tradicional. Isto tem consequências: em caso de falha de energia, o telefone fixo pode deixar de funcionar se o router/ONT não tiver alimentação. Para quem depende do fixo (por exemplo, idosos ou pessoas com necessidades médicas), pode valer a pena planear uma solução de backup, como um pequeno UPS, ou garantir um telemóvel sempre operacional.
Outro aspeto frequente é o das infraestruturas internas, sobretudo em prédios e condomínios. Mesmo quando há fibra “na rua”, pode ser necessário coordenar acesso a zonas comuns, passagem de cabos em condutas e autorizações do condomínio. Em edifícios grandes, esta componente logística é muitas vezes o que mais atrasa a migração - razão adicional para não deixar tudo para a última semana.
Riscos para quem adia e para utilizadores mais vulneráveis
Para muitos utilizadores urbanos, a mudança para fibra parece quase automática: o técnico instala, troca-se o equipamento e o dia segue. Mas o desligamento nacional do cobre levanta questões reais para residentes isolados, pessoas idosas e pequenos negócios que ainda dependem de serviços antigos.
Alguns sistemas de alarme e certos dispositivos de teleassistência continuam ligados a linhas telefónicas tradicionais. Em pequenas lojas de aldeia, há terminais de pagamento que, por vezes, ainda comunicam via ADSL. Quando a linha de cobre desaparece, esse equipamento falha - a menos que seja atualizado a tempo.
O desligamento técnico é uma história de rede, mas o impacto real sente-se em casas, lares, explorações agrícolas e pequenas lojas que ainda funcionam com hábitos do cobre.
Autarquias e serviços sociais terão de identificar cedo os utilizadores mais vulneráveis e apoiar a transição. Isso pode incluir apoio financeiro, assistência no local ou campanhas de comunicação dedicadas em zonas onde a literacia digital é mais baixa.
Como as famílias se podem preparar para o desligamento do ADSL
Para quem vive em França, alguns passos simples ajudam a evitar urgências quando o prazo de 27 de janeiro chegar ao seu município:
- Confirmar a morada no mapa de desligamento do cobre da Orange para validar a data de corte.
- Perguntar ao seu operador se existe oferta de fibra disponível na morada exata, e não apenas no município.
- Agendar a instalação com bastante antecedência, especialmente em prédios grandes.
- Identificar equipamentos que ainda usem diretamente a linha: alarmes, fax, terminais de pagamento, intercomunicadores.
- Falar com o fornecedor/instalador para escolher alternativas compatíveis com fibra.
Quem ainda não conseguir ter fibra deve solicitar opções com router 4G/5G ou satélite. Deixaram de ser soluções de nicho e, mesmo com limites de dados e condicionantes de latência, muitas vezes oferecem desempenho superior ao ADSL envelhecido.
O que este passo em França indica para outros países
O desligamento do cobre em França acompanha uma tendência mais ampla. O Reino Unido está a retirar a sua rede telefónica pública comutada e a migrar para soluções Tudo IP, e vários países europeus já desligaram o ADSL em grandes cidades. A lógica repete-se: fibra e redes móveis transportam dados com mais eficiência, e a infraestrutura antiga torna-se um travão.
Para os reguladores, o caso francês será um teste à capacidade de modernizar redes sem deixar para trás os utilizadores mais frágeis. Para os operadores, os próximos anos vão mostrar se conseguem gerir a logística de milhões de migrações sem criar caos de serviço.
Para os utilizadores, este é um bom momento para rever hábitos digitais. Ligações mais rápidas e estáveis permitem que teletrabalho, formação online, telemedicina e armazenamento na nuvem passem de experiências ocasionais a rotina diária. O fim do ADSL pode ter um lado nostálgico, mas abre caminho a serviços que o cobre nunca conseguiu suportar com fiabilidade.
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