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A presença da "frota sombra" russa no Mediterrâneo é uma das principais preocupações e prioridades de vigilância da Marinha Italiana na região.

Homem com binóculos a observar navios no mar a partir da cabine de comando de um barco, com ecrã de radar.

A Marinha Italiana, no âmbito da Estratégia de Segurança e Defesa para o Mediterrâneo publicada em maio de 2022 pelo Ministério da Defesa, anunciou a decisão de alargar o alcance da Operação Mare Sicuro. Na prática, esta alteração traduz-se num aumento muito significativo da área abrangida pelas missões de vigilância e num foco reforçado nas actividades da “frota sombra” russa no Mediterrâneo.

De acordo com informação divulgada por canais oficiais, o serviço passará a cobrir mais de 2 000 000 km², em vez dos 160 000 km² inicialmente previstos no enquadramento original da operação, passando assim a incluir a maior parte do espaço marítimo internacional do Mediterrâneo.

“Mediterraneo Sicuro”: expansão da Operação Mare Sicuro e presença naval-aérea

A propósito desta decisão, a Marina Militare sublinhou que o alargamento permitirá assegurar uma presença naval e aérea estruturada em todos os sectores considerados mais críticos da região, incluindo o Mediterrâneo Oriental. Segundo a força naval italiana, esta presença poderá integrar também meios subaquáticos, com o objectivo de proteger interesses nacionais essenciais e contribuir para a estabilidade internacional em cooperação com a NATO, a União Europeia, as Nações Unidas e outras coligações e alianças das quais a Itália faz parte.

Com as mudanças, a operação passa a designar-se “Mediterraneo Sicuro” e prevê, no seu componente naval, a utilização de até seis navios e submarinos, apoiados por aeronaves da Marinha e da Força Aérea para execução e suporte das missões. Em conjunto, esta força terá como prioridades:

  • Defender os interesses comerciais italianos no alto-mar;
  • Salvaguardar o domínio subaquático, em especial na protecção de linhas vitais de comunicação, um tema a que a União Europeia voltou a dar especial atenção desde o início da guerra na Ucrânia.

A Marina Militare indicou ainda que uma área operacional mais vasta cria novas oportunidades para enfrentar a criminalidade transnacional e, simultaneamente, facilita o aperfeiçoamento de mecanismos de cooperação com outras forças através de exercícios navais, tanto em contexto nacional como internacional. A título exemplificativo, recorda-se que, no ano passado, a Marinha participou num conjunto alargado de exercícios, incluindo o Mediterranean Strike 25, em conjunto com uma força da Royal Navy liderada pelo HMS Prince of Wales.

Protecção do domínio subaquático e segurança marítima no Mediterrâneo

A crescente atenção ao domínio subaquático reflecte uma realidade estrutural do Mediterrâneo: trata-se de um espaço onde convergem rotas comerciais densas, infra-estruturas energéticas e ligações críticas de comunicações. Neste contexto, o reforço de vigilância marítima - incluindo capacidades subaquáticas - procura aumentar a detecção precoce de comportamentos anómalos e reduzir vulnerabilidades em zonas de passagem estratégicas.

Em paralelo, o alargamento da presença no mar tende a melhorar a consciência situacional e a interoperabilidade com parceiros, ao articular patrulhas, recolha de informação e treino conjunto. Esta dimensão é particularmente relevante num ambiente onde a pressão sobre a segurança marítima pode resultar tanto de ameaças estatais como de redes criminosas que exploram lacunas de fiscalização.

Breve histórico da Operação Mare Sicuro

Embora a novidade actual se concentre no aumento substancial da área abrangida, importa recordar que a Operação Mare Sicuro está activa desde março de 2015, quando a crise líbia atingia um ponto crítico. Nessa fase, Roma atribuiu à Marinha Italiana a missão de garantir uma presença naval na região, contribuindo para acompanhar a evolução da situação na Líbia e, ao mesmo tempo, proteger o tráfego marítimo no Mediterrâneo Central e no Estreito da Sicília.

No final de dezembro de 2017, uma resolução do Conselho de Ministros lançou a primeira ampliação relevante das tarefas e das áreas cobertas. Essa decisão reforçou a cooperação com a Guarda Costeira e a Marinha líbias em acções de controlo associadas ao aumento dos fluxos migratórios e ao combate a actividades ilegais, incluindo o tráfico de seres humanos. No dispositivo então empregue pela Marina Militare - seis navios de guerra e cinco aeronaves -, um navio foi especificamente destinado a prestar apoio técnico às forças líbias, cujas capacidades são significativamente mais limitadas; o mesmo enquadramento aplicou-se a um navio de apoio logístico.

A “frota sombra” da Rússia

No que no Ocidente é frequentemente designado por “frota sombra” da Rússia, trata-se, de forma geral, de um número elevado de petroleiros em segunda mão, adquiridos através de empresas e processos pouco transparentes, muitas vezes em países que não foram inicialmente afectados pelas sanções impostas a Moscovo desde o início da ofensiva na Ucrânia.

Operando sob bandeiras de conveniência - como as do Gabão ou das Ilhas Cook -, alterando rotas e recorrendo a manobras semelhantes, a Rússia consegue manter parcialmente a sua actividade comercial ligada ao petróleo e, desse modo, preservar receitas que Bruxelas e Washington procuram reduzir.

O número exacto de navios incluídos nesta categoria não é conhecido. Ainda assim, estimativas de centros de análise ocidentais (por exemplo, o instituto da Kyiv School of Economics) apontam para mais de 500 embarcações com capacidade para desempenhar esse tipo de funções, muitas delas com trajectos rastreáveis até terminais petrolíferos russos ou de países aliados. Algumas avaliações quase duplicam este valor. Em numerosos casos, porém, continuam a existir dúvidas quanto aos beneficiários efectivos e quanto ao cumprimento integral dos requisitos de seguro previstos em normas internacionais.

Caso Bella 1 e tácticas de evasão de sanções da “frota sombra”

Um exemplo citado com frequência é o do petroleiro Bella 1, recentemente apreendido por forças dos Estados Unidos numa operação liderada pela Guarda Costeira, com apoio de unidades britânicas. Na ocasião, o Secretário da Defesa do Reino Unido, John Healey, afirmou:

“Este navio, com um historial notório, faz parte de um eixo russo-iraniano de evasão a sanções que alimenta o terrorismo, o conflito e a miséria do Médio Oriente à Ucrânia.”

Acrescentou ainda que Londres dispunha de informação de inteligência que indicava ligações ao grupo terrorista Hezbollah e que, durante o acompanhamento prévio à apreensão, a tripulação alterou a bandeira do navio e desligou o transponder, numa tentativa de dificultar o rastreio.

Créditos da imagem: Marina Militare

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