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Fenómeno meteorológico raro: centenas de formas geométricas estranhas surgem no gelo na Hungria.

Pessoa agachada a pescar no gelo com círculos grandes num lago congelado ao pôr do sol.

O que, à primeira vista, pareciam pequenas fendas no gelo de inverno transformou-se rapidamente numa visão aérea impressionante: um enorme mosaico de anéis claros, espalhado pelo lago num desenho que parecia demasiado exacto para ser obra da natureza.

Uma manhã de inverno normal, uma visão extraordinária

As imagens foram registadas no início de janeiro de 2026, num lago perto de Budapeste, na Hungria, precisamente quando uma vaga de frio se instalou sobre a Europa Central. As temperaturas oscilaram entre cerca de -6 °C de manhã e -4 °C à tarde - frio suficiente para prender o lago no gelo, mas não o bastante para criar uma camada espessa e realmente estável.

Visto de cima, o gelo surge como se estivesse perfurado por dezenas, talvez centenas, de círculos pálidos. Cada anel parece ligeiramente elevado ou com uma tonalidade diferente em relação ao gelo à volta, formando um padrão hipnótico, semelhante a ondulações congeladas a meio de uma onda.

Do ar, o lago parece como se alguém o tivesse marcado com um padrão repetido de halos gelados.

O vídeo foi rapidamente partilhado por meios meteorológicos e gerou uma avalanche de perguntas. Seria uma brincadeira? Um sinal estranho de alterações climáticas? Um novo tipo de perigo associado ao gelo? Segundo cientistas, a explicação estará algures entre meteorologia, física e uma boa dose de acaso.

O que já se sabe sobre anéis de gelo noutros países

Os anéis de gelo não são totalmente inéditos. Formações semelhantes já foram fotografadas na América do Norte, sobretudo em zonas dos Estados Unidos e do Canadá, onde os invernos são longos e muitos lagos são pouco profundos.

Em muitos desses casos, a explicação é relativamente simples, com dois desencadeadores frequentes:

  • Pedras atiradas contra gelo parcialmente derretido ou muito fino, criando ondulações numa superfície frágil.
  • Bolhas de ar a subir de nascentes subaquáticas ou de vegetação em decomposição, produzindo pulsos regulares por baixo do gelo.

Ambos os mecanismos funcionam de forma semelhante: algo perturba a água (ou o próprio gelo), gerando ondas que se propagam para fora. Se a temperatura estiver suficientemente baixa, essas ondas congelam quase de imediato, “fixando” o formato circular.

Quando as ondas congelam quase instantaneamente, uma simples ondulação pode transformar-se num anel de gelo perfeito.

Nos exemplos norte-americanos - muitas vezes filmados para divulgação científica ou notícias locais - costuma existir um factor desencadeante identificável: alguém a fazer “patinagem” de pedras na superfície, ou uma coluna de bolhas visível sob o gelo. É precisamente por isso que o caso húngaro se tornou tão intrigante.

Porque é que os anéis húngaros são um enigma

Na Hungria, especialistas que analisaram o vídeo e relatos locais indicam que não se viu nenhuma perturbação externa evidente. Não havia pessoas a atirar pedras, não se observaram bolhas e não existiam sinais claros de uma nascente ou de uma descarga de água sob os anéis.

De acordo com comentários divulgados pelo serviço meteorológico norte-americano AccuWeather, o Dr. Gordon Giesbrecht, da Universidade de Manitoba, aponta para uma combinação diferente de factores. Na sua leitura, o fenómeno pode resultar de um equilíbrio extremamente delicado entre:

  • Temperatura do ar apenas um pouco abaixo de 0 °C
  • Gelo do lago muito fino
  • Uma camada recente de neve a assentar por cima

Nestas circunstâncias, a própria neve passa a ser uma peça central do processo.

Anéis de gelo na Hungria: como peso, fendas e água podem desenhar círculos

A neve recém-caída parece leve e fofa, mas, quando se distribui por uma grande placa de gelo fino, o peso total torna-se significativo. Segundo a hipótese de Giesbrecht, essa carga adicional pode levar o gelo frágil a rachar.

O processo, passo a passo, pode ser imaginado assim:

  • A neve cai e acumula-se sobre uma camada fina de gelo.
  • O peso abre uma pequena fenda num ponto mais fraco.
  • Água líquida infiltra-se para cima através da fenda e espalha-se para fora por baixo da neve.
  • A água exposta cria por instantes uma mancha escura e húmida.
  • O ar frio volta a congelar essa água muito rapidamente, deixando uma marca circular ou em forma de anel.

O pormenor decisivo aqui é a rapidez. Observadores na Hungria relataram que cada anel parecia formar-se em menos de um minuto.

Testemunhas dizem que um anel individual pode aparecer em menos de sessenta segundos, como se o lago estivesse a desenhar a sua própria geometria em tempo real.

Quando a água sobe num ponto, pode alterar o equilíbrio de peso nas proximidades e desencadear outra fenda um pouco mais longe. Essa nova fenda permite a subida de mais água, e o ciclo repete-se. Cada episódio “traça” mais um anel, como se fossem ondulações em expansão.

Quando as condições meteorológicas “encaixam na perfeição”

Este tipo de evento exige uma janela muito estreita de condições. Se estiver demasiado frio, o gelo tende a ser espesso e pouco reactivo. Se estiver demasiado “ameno”, a superfície pode transformar-se em papa de gelo antes de qualquer anel conseguir definir-se.

Factor Papel na formação de anéis de gelo
Temperatura do ar Tem de estar ligeiramente abaixo de 0 °C, para que a água volte a congelar depressa, mas o gelo continue fino.
Espessura do gelo Deve ser fina o suficiente para rachar com o peso da neve, mas suficientemente resistente para não colapsar de imediato.
Carga de neve Fornece o peso que provoca fendas e permite que a água suba à superfície.
Vento Vento em excesso pode desfazer padrões ou deslocar a neve de forma irregular.
Condições do lago Água relativamente parada e profundidade bastante uniforme ajudam os anéis a manterem-se regulares e bem definidos.

Como tantos parâmetros têm de coincidir, os cientistas consideram estes anéis de gelo “à húngara” acontecimentos raros, mesmo em países habituados a invernos prolongados.

Quão raro é “raro” nos fenómenos de gelo?

Meteorologistas e comunicadores de clima costumam agrupar ocorrências deste tipo na categoria de fenómenos meteorológicos extraordinários, ao lado de flores de gelo, “hair ice” (gelo em filamentos) e gelo em panquecas. Não são visões do dia a dia, mas assentam em física real e reproduzível - não em mitos nem ilusões.

O que torna o caso da Hungria especialmente marcante é a quantidade de anéis e a nitidez com que se vêem do ar. O vídeo de drone revela um padrão repetitivo que lembra quase “círculos nas culturas”, só que gravados no gelo, alimentando perguntas e especulações nas redes sociais.

Estes anéis de gelo parecem obra de engenharia, mas tudo indica que resultam apenas de meteorologia, física e um pouco de sorte.

Ainda assim, os especialistas sublinham que não existe uma explicação única definitivamente provada para aquele lago específico. O cenário neve–fenda–água encaixa bem em grande parte do que se observa, mas seriam necessárias medições directas no local para confirmar totalmente.

Questões de segurança para quem caminha ou patina no gelo

Para lá do impacto visual, o fenómeno levanta preocupações práticas. Anéis de gelo frequentemente assinalam zonas onde a estrutura foi enfraquecida ou perturbada repetidas vezes.

Para quem se aventura em lagos gelados, estes padrões podem ser um aviso de risco. Um anel pode indicar áreas onde:

  • O gelo é mais fino do que nas zonas circundantes.
  • A água subiu recentemente à superfície e voltou a congelar.
  • Existem fendas escondidas sob a cobertura de neve.

Em regiões frias, as autoridades costumam recomendar evitar locais com desenhos invulgares, manchas escuras ou fracturas visíveis, mesmo quando o resto do lago parece sólido. O episódio húngaro reforça a ideia de que o gelo pode mudar depressa - por vezes em questão de minutos.

Termos-chave por detrás do fenómeno

Situações como esta trazem para a conversa pública alguns conceitos científicos, muitas vezes sem contexto. Dois dos mais relevantes são:

Superarrefecimento e congelamento rápido

A água próxima de 0 °C pode solidificar muito depressa se as condições mudarem subitamente. Quando uma fenda se abre e a água sobe para um ar mais frio, pode perder calor em segundos e congelar. Este congelamento rápido ajuda a preservar cada anel antes que o vento ou novos movimentos o apaguem.

Capacidade de suporte de carga do gelo

O gelo fino só aguenta um peso limitado. A neve pode parecer leve, mas uma camada espessa distribui toneladas de carga por uma área grande. Quando esse limite é ultrapassado num ponto, as fendas propagam-se, e essas linhas podem definir os limites exteriores de um anel.

Cenários futuros e pistas para investigação

Com a crescente utilização de drones, os cientistas esperam receber mais relatos de padrões semelhantes. Imagens aéreas de alta resolução, recolhidas ao longo de vários dias, podem permitir seguir como os anéis aparecem, crescem e desaparecem - fornecendo dados que, há dez anos, seriam praticamente impossíveis de obter.

Num próximo inverno, uma equipa dedicada poderia combinar medições de temperatura no local, perfurações para avaliar a espessura do gelo e voos de drone em time-lapse num lago como o de perto de Budapeste. Com uma campanha desse tipo, seria possível testar se o peso da neve, por si só, desencadeia os anéis, ou se correntes subaquáticas subtis e sedimentos também têm influência.

Entretanto, o lago húngaro deixa um lembrete marcante: mesmo num inverno europeu aparentemente comum, a combinação de ar frio, gelo fino e neve macia pode criar padrões quase irreais - círculos desenhados sobre uma superfície congelada no espaço de menos de um minuto.

O que observar (com prudência) se vir anéis de gelo

Se alguma vez encontrar anéis de gelo num lago, vale a pena notar alguns sinais - sempre à distância e sem entrar no gelo - que podem ajudar a interpretar o fenómeno:

  • Se existem manchas escuras (sugestivas de água recente) junto aos anéis.
  • Se a neve está distribuída de forma uniforme ou acumulada em “ilhas”.
  • Se há vento forte a varrer a superfície, o que pode deformar padrões e mascarar fendas.

Estes detalhes, quando registados em fotografias e vídeo, podem ser úteis para autoridades locais e investigadores - e, acima de tudo, ajudam a reforçar a mensagem essencial: padrões belos no gelo nem sempre significam gelo seguro.

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