Os percevejos hematófagos conhecidos como percevejos-beijadores já transportaram um parasita mortal por 32 estados dos EUA, alerta o CDC, e é provável que centenas de milhares de pessoas já estejam infectadas com a doença de Chagas sem o saberem.
Apesar da dimensão potencial do problema, entre 2000 e 2018 só foram registadas 29 infecções confirmadas nos Estados Unidos. Perante este desfasamento, o CDC está a pressionar as autoridades para que a doença seja reclassificada como endémica no país, com o objectivo de aumentar a consciencialização e facilitar o acesso a diagnóstico e tratamento atempados.
“A maioria das pessoas que vivem com a doença de Chagas não tem consciência do diagnóstico, muitas vezes até ser tarde demais para um tratamento eficaz”, adverte a epidemiologista de doenças infecciosas Judith Currier, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
Doença de Chagas e o parasita Trypanosoma cruzi (T. cruzi)
Sem tratamento, o parasita (Trypanosoma cruzi, ou T. cruzi) pode provocar, de forma lenta e progressiva, lesões no coração e noutros órgãos em até 30% das infecções.
Os percevejos-beijadores receberam este nome pela tendência para picarem a face humana. São insectos de corpo achatado, com cerca de 2,5 cm de comprimento, distribuídos por várias regiões das Américas. Também são designados por percevejos-de-focinho (conenose) ou percevejos-vampiro. Alimentam-se de sangue e podem transmitir T. cruzi através das fezes, que contaminam a pele e podem entrar no organismo quando a pessoa coça a zona da picada ou quando há contacto com mucosas.
Expansão dos percevejos-beijadores nos EUA e o papel do aquecimento global
Em termos globais, estima-se que até 8 milhões de pessoas estejam infectadas com este parasita protozoário, sobretudo na América Latina. No entanto, à medida que as temperaturas sobem, os ambientes favoráveis aos percevejos-beijadores tendem a expandir-se. Cerca de metade destes insectos transporta o parasita da doença de Chagas.
“Com o aquecimento global, existe a preocupação entre os cientistas de que as fronteiras das áreas onde ocorrem infecções endémicas estejam a deslocar-se para norte”, afirma a médica de doenças infecciosas Joanna Schaenman.
Embora a falta de dados ainda não permita confirmar plenamente esta tendência, o novo relatório do CDC sustenta que a elevada ocorrência de doença de Chagas em cães e a sua presença continuada em fauna selvagem são sinais de que a doença está bem estabelecida nos EUA.
Reservatórios, outras vias de transmissão e risco na gravidez
Animais de companhia e animais selvagens funcionam como reservatórios do parasita, alertam o cientista de doenças infecciosas Norman Beatty, da Universidade da Flórida, e colegas. Para além da transmissão associada aos percevejos-beijadores, a infecção também pode ocorrer através de:
- alimentos contaminados
- produtos de sangue
- doação de órgãos
Depois de infectada, uma mãe pode ainda transmitir o parasita ao bebé durante a gravidez.
Sintomas: de casos silenciosos a sinais intensos
Muitas pessoas não apresentam sintomas logo após a infecção. Ainda assim, alguns doentes podem desenvolver:
- inchaço acentuado das pálpebras
- febre
- cansaço
- dores no corpo
- dor de cabeça
- perda de apetite
- diarreia
- vómitos
Fase aguda, fase crónica e danos no coração e no sistema digestivo
Se a doença de Chagas não for detectada e tratada durante a fase aguda, que pode durar cerca de dois meses, o parasita pode instalar-se nos músculos do coração e do sistema digestivo. A partir daí, pode causar lesões digestivas, cardíacas e do sistema nervoso.
“A doença está claramente subdiagnosticada”, afirmou o cardiologista Salvador Hernandez à jornalista Susanne Rust, do Times de Los Angeles. “Se fizéssemos rastreio e apanhássemos cedo, a maioria dos doentes podia ser curada. O problema é que não o fazemos, e as pessoas acabam por morrer ou por necessitar de cuidados terrivelmente caros.”
Como reduzir o risco de contacto com percevejos-beijadores
Para diminuir a probabilidade de encontrar percevejos-beijadores, os médicos recomendam:
- usar repelente de insectos
- selar fendas e aberturas em torno de janelas e portas
- manter a área da casa livre de desordem, afastando montes de lenha e outros abrigos potenciais
Diagnóstico e actuação precoce: o que muda com mais rastreio
O aumento do reconhecimento da doença como endémica pode tornar mais frequentes os pedidos de testes laboratoriais quando existe suspeita clínica ou exposição, incluindo em zonas onde o problema é pouco valorizado. Quanto mais cedo a infecção for confirmada, maior é a possibilidade de interromper a progressão para complicações cardíacas e digestivas que se tornam difíceis de reverter.
Também do ponto de vista de saúde pública, uma maior vigilância facilita a identificação de cadeias de transmissão e reforça a necessidade de medidas de segurança em contextos como transfusões e transplantes, reduzindo o risco de casos silenciosos passarem despercebidos durante anos.
Esta investigação foi publicada na revista Doenças Infecciosas Emergentes.
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