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Ondas sonoras ajudam medicamentos de quimioterapia a atingir tumores localizados profundamente no cérebro.

Paciente com eletrodos no crânio e soro sentado diante de ecrã com imagem cerebral, enquanto técnica ajusta máquina de resson

O cérebro pode ser visto como a cidadela do organismo, resguardada por um fosso quase intransponível: a barreira hematoencefálica.

Formada por células que funcionam como fronteira, esta barreira procura impedir que toxinas e agentes patogénicos que circulam no resto do corpo cheguem aos tecidos mais delicados - aqueles onde se tomam decisões vitais.

Essa eficácia tem, porém, um custo: o mesmo “muro” que bloqueia substâncias indesejáveis também costuma travar medicamentos. No tratamento de doenças como o cancro do cérebro, isto torna-se uma verdadeira faca de dois gumes.

Barreira hematoencefálica e glioblastoma: como “abrir” a entrada com ultrassons

Há anos que investigadores tentam encontrar formas de fazer passar fármacos através da barreira hematoencefálica. Em 2014, foi possível, pela primeira vez, obter acesso interno ao cérebro humano com ondas sonoras.

Agora, um ensaio clínico que recorre à mesma abordagem conseguiu escancarar ainda mais essa passagem, permitindo a entrada, no cérebro, de dois medicamentos de quimioterapia particularmente potentes.

Após o tratamento, a quantidade de fármacos anticancerígenos a circular no tecido neurológico atingiu valores quatro a seis vezes superiores aos que, em condições normais, seria possível obter.

Entretanto, já está em curso um ensaio clínico de fase 2 para avaliar de que forma esta maior entrega de medicação pode influenciar a saúde e a sobrevivência de pessoas com glioblastoma recorrente - um tipo de cancro do cérebro agressivo e de crescimento rápido, para o qual não existe cura.

“Trata-se, potencialmente, de um avanço enorme para doentes com glioblastoma”, afirma o neurocirurgião Adam Sonabend, da Universidade Northwestern.

Ensaio clínico de fase 1: 17 doentes e um emissor implantado no cérebro

O ensaio clínico de fase 1 aqui descrito incluiu 17 doentes com glioblastoma recorrente, que foram submetidos a cirurgia para remoção do tumor. Durante a intervenção, foi também implantado no cérebro um dispositivo de ultrassons, desenvolvido por uma empresa francesa de biotecnologia.

Ao longo de dois a quatro meses, e com uma periodicidade de três em três semanas, cada emissor libertou um pulso de ultrassons de baixa intensidade. Em simultâneo, o doente - acordado - recebia uma injeção intravenosa de microbolhas. Todo o procedimento demorava cerca de quatro minutos.

Quando as microbolhas presentes no sangue são atingidas por ultrassons, começam a vibrar, o que lhes permite “mexer-se” e atravessar temporariamente a barreira hematoencefálica.

Uma janela mais curta do que se pensava para a entrada dos fármacos

Com base em estudos anteriores em animais, estimava-se que certas zonas da barreira hematoencefálica pudessem permanecer “abertas” durante aproximadamente seis horas após uma sessão de ultrassons, antes de voltarem a fechar.

Contudo, este novo ensaio clínico indica que a oportunidade poderá ser mais limitada.

Segundo Sonabend e colegas, a permeabilidade da barreira hematoencefálica fica praticamente reposta no espaço de uma hora. Isso significa que, para surtir efeito, a medicação tem de estar a circular no sangue dentro desse intervalo.

Foi precisamente nessa janela crítica que, no ensaio atual, foram administrados dois fármacos de quimioterapia: paclitaxel e carboplatina.

Embora nenhum dos dois seja, por norma, particularmente eficaz a atravessar a barreira hematoencefálica, ambos são terapêuticas mais potentes do que alguns medicamentos que conseguem penetrar no cérebro e que, por essa razão, acabam por ser usados no tratamento do cancro do cérebro.

Segurança, tolerabilidade e efeitos secundários a vigiar

Ensaios clínicos anteriores já tinham mostrado que a terapia por ultrassons é, em geral, segura e bem tolerada. Ainda assim, este estudo é o primeiro a demonstrar diretamente que o procedimento conduz a um aumento substancial da concentração de medicamentos de quimioterapia que chegam ao cérebro.

Com um dispositivo de maiores dimensões, a equipa conseguiu atuar sobre uma área mais ampla da barreira hematoencefálica do que em tentativas anteriores. Por outro lado, alguns participantes relataram efeitos secundários transitórios, que exigirão vigilância apertada em estudos futuros - sobretudo se as doses forem aumentadas ou se os ciclos de tratamento forem prolongados:

  • dor de cabeça
  • fraqueza nos membros
  • visão turva

O que isto pode significar para outras doenças do cérebro

Apesar de o foco ter sido o cancro do cérebro - existindo cerca de 30 000 gliomas nos EUA -, Sonabend sublinha que esta técnica pode abrir caminho para investigar novos tratamentos baseados em fármacos para milhões de pessoas com diferentes doenças neurológicas.

Um ponto crucial para aplicações futuras será a afinação do momento exato entre a administração das microbolhas, a emissão de ultrassons e a perfusão do medicamento, uma vez que a restauração rápida da barreira hematoencefálica parece reduzir a margem de erro. Também será relevante perceber que combinações de fármacos tiram maior partido deste “acesso temporário”, sem comprometer a segurança.

Conquistar um acesso eficaz ao cérebro tem sido, durante muito tempo, uma fronteira da medicina. Os cientistas estão a preparar-se para avançar sobre essa fortaleza como nunca.

O estudo foi publicado na The Lancet Oncology.

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