A maioria das pessoas encara a doença de Alzheimer como um problema típico da velhice. No entanto, as alterações cerebrais que a caracterizam começam muito antes - algures por volta da terceira década de vida.
Uma das primeiras mudanças envolve uma forma “enredada” de uma proteína chamada tau, que começa a acumular-se numa pequena área profunda do cérebro ligada ao sono, à atenção e ao estado de alerta: o locus coeruleus. Com o tempo, essa tau acaba por se disseminar por outras regiões cerebrais.
A presença de emaranhados de tau, por si só, não significa que alguém tenha Alzheimer - na verdade, isto acontece a quase todas as pessoas, em graus diferentes. Ainda assim, como estas alterações tendem a iniciar-se no locus coeruleus, alguns investigadores do cérebro - eu incluída - encaram esta região como um verdadeiro “aviso precoce” para o risco de evolução para a doença de Alzheimer.
Por isso, estamos a estudar se travarmos ou abrandarmos a formação desses emaranhados de tau nesta zona, ou se conseguirmos preservar a sua saúde, poderá ser uma forma de interromper a forma como a doença se desenvolve mais tarde e, em paralelo, atenuar outros aspetos do envelhecimento cognitivo.
Há investigação recente, no meu laboratório e noutros, a explorar uma possibilidade concreta: uma terapia chamada estimulação do nervo vago, já utilizada de forma alargada noutras condições médicas, que poderá ajudar a manter o locus coeruleus a funcionar de forma adequada.
Locus coeruleus e doença de Alzheimer: o “ponto azul” como sinal precoce
O locus coeruleus localiza-se no tronco cerebral, a porção mais inferior do cérebro. O seu nome, “ponto azul”, deriva de um pigmento chamado neuromelanina, produzido pelas suas células.
Esta estrutura é essencial para vários aspetos do funcionamento humano básico. Em particular, produz praticamente toda a norepinefrina (também conhecida como noradrenalina) do cérebro - uma substância indispensável para o sono, o estado de alerta, a capacidade de concentração, a aprendizagem e até para funções do sistema imunitário.
Além disso, o locus coeruleus recebe sinais de nervos com origem em muitas partes do cérebro e do corpo - incluindo do nervo vago, que transporta informação de e para o coração, os pulmões e outros órgãos.
O meu trabalho científico analisa a estrutura desta região, a forma como as células nervosas nela comunicam e como o locus coeruleus se liga a outras áreas do cérebro. Também estudo como estas características se transformam ao longo da vida e de que modo influenciam o pensamento e a memória.
Vários estudos indicam que, a partir da meia-idade, as células nervosas do locus coeruleus podem sofrer danos devido ao acúmulo de tau, e que esses danos poderão estar associados a quebras de memória. A sequência de acumulação de tau, morte celular e perda de função no locus coeruleus surge antes e ajuda a prever o diagnóstico e os sintomas da doença de Alzheimer.
Isto levou investigadores a defender que proteger a saúde do locus coeruleus pode também ser uma forma de proteger o resto do cérebro.
Estimulação do nervo vago e saúde cerebral
O nervo vago faz a ligação entre o cérebro e órgãos do tórax e do abdómen - como o coração e os intestinos - ajudando o cérebro a monitorizar e regular vários órgãos vitais. É também responsável por difundir sinais de “repouso e digestão” por todo o corpo e pelo cérebro, estimulando a digestão e favorecendo processos de reparação celular.
Nas décadas de 1980 e 1990, investigadores descobriram que estimular o nervo vago podia aliviar a epilepsia. Repararam também que, muitas vezes, essa intervenção trazia benefícios adicionais, como melhorias do humor e do pensamento.
Atualmente, a estimulação do nervo vago está aprovada pela entidade reguladora norte-americana (Food and Drug Administration) não só para o tratamento da epilepsia, mas também para enxaqueca e depressão, além de ser usada como apoio na reabilitação após AVC.
No caso da epilepsia e da depressão, a estimulação do nervo vago costuma implicar a implantação de um estimulador elétrico no lado esquerdo do tórax do doente, junto ao local onde passa o nervo vago. Já os dispositivos não invasivos usados para dores de cabeça aplicam impulsos elétricos suaves em pontos específicos do pescoço ou da orelha, onde o nervo vago está muito próximo da superfície da pele.
Mesmo antes de se compreender a ligação entre o locus coeruleus e a doença de Alzheimer, já se levantava a hipótese de que a estimulação do nervo vago poderia beneficiar o humor e a cognição em pessoas com a doença. Um motivo possível é que esta estimulação pode atuar, pelo menos em parte, ao elevar os níveis de norepinefrina no cérebro - e sabe-se que pessoas com Alzheimer têm níveis demasiado baixos desta substância.
Manter o ritmo: regular a atividade do locus coeruleus
Os neurocientistas ainda não sabem com precisão como - ou por que razão - a estimulação do nervo vago pode ser benéfica para o cérebro. No entanto, uma teoria influente propõe que ela ajuda a regular a atividade das células nervosas do locus coeruleus, permitindo que este funcione de forma estável.
Uma atividade excessiva do locus coeruleus pode, teoricamente, tornar as pessoas demasiado vigilantes, levando-as a sentirem-se sob stresse ou até em pânico. Aliás, um locus coeruleus hiperativo alimenta alguns sintomas da perturbação de stress pós-traumático. Pelo contrário, uma atividade demasiado baixa pode contribuir para depressão ou para problemas de memória.
Curiosamente, certas formas de estimulação do nervo vago não parecem aumentar nem reduzir diretamente a atividade do locus coeruleus. Em vez disso, parecem influenciar a temporização e o ritmo com que os neurónios desta região disparam. Outras formas, por sua vez, parecem aumentar a norepinefrina no cérebro de ratos, e os investigadores levantam a hipótese de que este possa também ser um dos mecanismos através dos quais a estimulação do nervo vago ajuda a tratar a epilepsia.
Em conjunto, estes resultados levaram a sugerir que a estimulação do nervo vago pode funcionar como um regulador eficaz do locus coeruleus, ajudando-o a atingir o nível de atividade “certo” para um desempenho ideal.
Pode a estimulação do nervo vago contrariar a perda de memória no Alzheimer?
Estão a surgir indícios promissores de que a estimulação do nervo vago pode ajudar o cérebro que envelhece.
Um pequeno conjunto de estudos observou que a estimulação do nervo vago pode impedir que a memória piore - ou até melhorá-la - em pessoas com compromisso cognitivo ligeiro ou em fases iniciais da doença de Alzheimer.
Num ensaio com 52 pessoas, com idades entre 55 e 75 anos, diagnosticadas com compromisso cognitivo ligeiro, foram reportadas melhorias relevantes na memória e na cognição global após um protocolo de estimulação do nervo vago de 1 hora por dia, 5 dias por semana, durante cerca de 6 meses.
Há também estudos em adultos saudáveis com cerca de 60 anos - e em adultos saudáveis entre 18 e 25 anos - que descrevem melhorias em diferentes dimensões da memória após apenas uma sessão de estimulação do nervo vago.
Apesar de tudo, esta área de investigação ainda está numa fase muito inicial. Mesmo assim, estes dados abrem espaço à esperança de uma nova estratégia para manter sob controlo alguns dos sintomas mais angustiantes associados à doença de Alzheimer e ao envelhecimento.
Um olhar adicional: o que ainda falta esclarecer e para quem poderá fazer sentido
Embora os resultados sejam encorajadores, é importante perceber quais os perfis de pessoas que podem beneficiar mais - por exemplo, indivíduos com compromisso cognitivo ligeiro versus pessoas já com diagnóstico de Alzheimer - e em que fase a intervenção terá maior impacto. Também é essencial definir com rigor quais os parâmetros (duração, frequência e tipo de dispositivo) que maximizam efeitos cognitivos sem induzir desconforto ou alterações indesejadas do estado de alerta.
Outro ponto crítico é compreender se os potenciais benefícios se devem sobretudo à modulação do locus coeruleus, ao aumento de norepinefrina ou a um conjunto mais amplo de efeitos no cérebro e no corpo (incluindo efeitos indiretos via sono, humor e regulação fisiológica). Responder a estas perguntas será decisivo para transformar a estimulação do nervo vago numa ferramenta fiável de proteção do cérebro ao longo do envelhecimento.
Elizabeth Riley, Docente de Psicologia, Universidade de Cornell
Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons.
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