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Nova terapia genética transforma células imunitárias do próprio corpo em arma contra o cancro através de injeção.

Homem jovem sentado recebe explicação sobre tratamento genético por profissional de saúde numa clínica moderna.

Uma equipa de investigação nos EUA descreve um potencial ponto de viragem na medicina oncológica: em vez de modificar células imunitárias num laboratório e devolvê-las ao doente num processo caro e demorado, em ratinhos bastou uma injecção na corrente sanguínea. Se esta abordagem se confirmar em humanos, poderá simplificar e tornar mais acessíveis as terapias para cancros do sangue e, a mais longo prazo, também para tumores sólidos.

Como a oncologia “treina” hoje as células imunitárias: CAR-T em laboratório

As imunoterapias com células CAR-T têm permitido que alguns doentes com leucemia e linfoma ganhem anos de vida. A ideia é relativamente fácil de explicar, mas a execução é altamente complexa.

Em termos práticos, o percurso típico é o seguinte:

  • Primeiro, os médicos recolhem do doente linfócitos T, células de defesa do sistema imunitário.
  • Depois, essas células são alteradas geneticamente num laboratório de alta segurança, para passarem a exibir um receptor artificial - o Chimeric Antigen Receptor (CAR).
  • Esse receptor permite que as células reconheçam alvos específicos presentes nas células tumorais e as ataquem.
  • Após várias semanas de multiplicação celular e controlos de qualidade, as células CAR-T são administradas de volta ao doente por perfusão.

As limitações são sobretudo logísticas e económicas. Nos EUA, este processo pode custar cerca de 400.000 a 500.000 dólares por doente (aproximadamente 370.000 a 460.000 euros, dependendo do câmbio). Exige equipas altamente especializadas, infra-estruturas sofisticadas e tempo - algo de que muitos doentes oncológicos não dispõem. Por isso, a terapêutica é disponibilizada quase sempre em grandes centros oncológicos.

Além disso, antes da reinfusão das células, é frequente o doente ter de fazer quimioterapia de preparação, para abrir “espaço” na medula óssea e facilitar a implantação das novas células imunitárias. Ou seja: não é apenas dispendiosa; pode ser também fisicamente exigente.

A proposta da UCSF: produzir CAR-T no corpo com CRISPR-Cas9

É precisamente aqui que entra o trabalho liderado pelo médico Justin Eyquem, na Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF). O objectivo do seu grupo é criar um “kit” que permita gerar células CAR-T diretamente no organismo, evitando colheitas de sangue e semanas de manipulação em laboratório.

A estratégia usa dois tipos de partículas administradas por perfusão, que circulam no sangue:

  • Partícula 1: transporta a maquinaria CRISPR-Cas9, uma ferramenta de edição genética que procura preferencialmente células T e faz um corte numa posição definida do ADN.
  • Partícula 2: leva o “plano” do receptor CAR - o segmento de ADN que codifica o receptor artificial de reconhecimento tumoral.

O próprio corpo passa a funcionar como uma mini-fábrica de células assassinas contra o cancro, pelo menos no modelo animal.

Depois da injecção, as células T editadas começam a exibir o novo receptor à superfície e, idealmente, actuam como as CAR-T produzidas em laboratório: identificam células tumorais e destroem-nas.

Resultados em ratinhos: leucemia indetectável em menos de duas semanas

Nos ensaios em ratinhos com leucemia, os resultados foram particularmente marcantes: uma única injecção do sistema de duas partículas foi suficiente para eliminar, em menos de duas semanas, praticamente todos os sinais detectáveis da doença em quase todos os animais tratados.

O método também mostrou um efeito claro noutro cancro do sangue, o mieloma múltiplo. Porém, o teste que mais chamou a atenção foi o confronto com um terceiro alvo: um sarcoma (um tumor maligno do osso), ou seja, um tumor sólido.

Este ponto é relevante porque as CAR-T “clássicas” têm tido mais dificuldades contra tumores compactos. Muitos tumores sólidos criam uma espécie de barreira (feita de células e moléculas sinalizadoras) que dificulta a entrada e a acção das células imunitárias. Ainda assim, no modelo em ratinho, estes tumores também encolheram de forma expressiva. Em alguns órgãos, as novas CAR-T chegaram a representar até 40% de todas as células imunitárias, sugerindo uma activação muito intensa.

Inserção mais controlada do receptor CAR: a vantagem da “tesoura” CRISPR-Cas9

Um benefício adicional da abordagem é a capacidade de controlar onde o “plano” do receptor CAR fica integrado no genoma das células T. A CRISPR-Cas9 corta o ADN num ponto previamente escolhido e é aí que a nova sequência é inserida.

Em contraste, muitos métodos anteriores recorrem a vírus para inserir o gene, o que tende a acontecer de forma mais aleatória. Em situações muito raras, essa integração pode ocorrer em locais desfavoráveis e desencadear problemas graves, incluindo novos cancros (por exemplo, se um gene de controlo celular for afectado). A integração dirigida pretende reduzir substancialmente esse risco.

A edição genética precisa pode transformar uma terapia de alto risco e custo elevado numa opção mais padronizada - se os resultados se confirmarem em pessoas.

Da revista Nature ao hospital: quando poderá chegar a clínicas “normais”?

Os dados foram publicados na revista Nature e envolveram, além da UCSF, instituições de referência como os Gladstone Institutes, a Duke University e o Innovative Genomics Institute, associado à Nobel Jennifer Doudna, uma das co-desenvolvedoras do CRISPR.

A equipa já lançou uma empresa, a Azalea Therapeutics, com o propósito de levar a tecnologia para ensaios clínicos. Ainda assim, a passagem do laboratório para a primeira utilização em doentes deverá demorar anos.

Se a transição for bem-sucedida, o impacto no dia-a-dia da oncologia pode ser significativo:

  • Em vez de esperar semanas por células preparadas em laboratório, o doente poderia receber uma ou poucas perfusões.
  • Hospitais regionais poderiam, em teoria, administrar estes tratamentos, e não apenas grandes centros especializados.
  • Os custos por doente tenderiam a baixar de forma acentuada.
  • Mais pessoas teriam acesso a imunoterapia avançada.

Hoje, existem sete terapias CAR-T aprovadas nos EUA para diferentes cancros do sangue. Para tumores sólidos, ainda não há qualquer CAR-T aprovada, apesar de estes representarem a maioria dos diagnósticos oncológicos. Por isso, os sinais observados no sarcoma são vistos como um indício de que esta barreira poderá começar a ceder.

Um aspecto adicional - particularmente relevante para sistemas de saúde europeus - é a possibilidade de reduzir dependências de cadeias de fabrico muito centralizadas. Mesmo que a administração possa vir a ser feita em unidades hospitalares de dia, será essencial criar circuitos robustos de farmácia, armazenamento, transporte e rastreabilidade, com normas comparáveis às de medicamentos biológicos.

Também é provável que, em tumores sólidos, estas abordagens acabem por ser combinadas com outras estratégias (por exemplo, fármacos que desbloqueiam travões do sistema imunitário ou terapias que alteram o microambiente tumoral). Esse tipo de combinação poderá aumentar a eficácia, mas também exige vigilância clínica mais apertada.

O que significam CRISPR, CAR-T e terapia génica (em linguagem simples)

Alguns termos da investigação oncológica parecem excessivamente técnicos. Este resumo ajuda a enquadrar:

Termo Explicação simples
Células CAR-T Células de defesa com um receptor artificial tipo “cão farejador”, que identifica células tumorais e as ataca de forma dirigida.
CRISPR-Cas9 Uma “tesoura” molecular que permite cortar e alterar o ADN em locais específicos.
Terapia génica Tratamento que modifica o material genético das células para tratar ou prevenir doenças.
Leucemia Cancro das células do sangue, geralmente com origem na medula óssea e presença no sangue.
Sarcoma Tumor sólido que pode surgir, por exemplo, do osso, músculo ou tecido conjuntivo.

Oportunidades, riscos e perguntas ainda sem resposta

Apesar de impressionantes, estes resultados continuam a ser dados em animais: ratos não são humanos. Efeitos adversos pouco visíveis num modelo pequeno podem tornar-se críticos em pessoas.

Entre os pontos que terão de ser avaliados com rigor estão:

  • As partículas atingem quase só células T, ou acabam por alterar também outros tipos celulares?
  • As células reprogramadas mantêm-se estáveis e activas durante quanto tempo?
  • Uma activação imunitária tão intensa pode provocar reacções perigosas, como a síndrome de tempestade de citocinas?
  • Os tumores conseguem adaptar-se e escapar a esta nova vaga de ataque?

Há ainda questões práticas inevitáveis: como armazenar e transportar estas partículas em segurança? Será possível adaptar o método a diferentes cancros trocando apenas o “plano” do receptor CAR? E como minimizar ao máximo a possibilidade de a CRISPR-Cas9 cortar o genoma em locais não desejados?

Para doentes e familiares, esta publicação não altera o tratamento no curto prazo. Intervenções que mexem directamente no genoma são avaliadas de forma particularmente exigente. Os ensaios clínicos avançam por fases: começam com poucos voluntários, sob vigilância apertada, e só alargam quando a segurança e a eficácia se tornam convincentes.

Ainda assim, o trabalho de São Francisco aponta uma direcção clara para a oncologia: sair de terapias artesanais, altamente especializadas, e aproximar-se de medicamentos genéticos mais padronizados e potencialmente mais simples de administrar - capazes de transformar as defesas do próprio organismo numa arma de precisão contra o cancro.

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