Compreender a cronologia da degeneração no Alzheimer pode melhorar o apoio a quem é afetado. Nesse sentido, investigadores desenvolveram um novo “relógio molecular” que, a partir de marcadores sanguíneos já estabelecidos, procura prever com anos de antecedência quando os sintomas poderão começar.
Em muitos doentes, o intervalo entre os primeiros sinais biológicos de Alzheimer e o momento em que as alterações cognitivas se tornam percetíveis pode situar-se entre 10 e 30 anos. Por isso, os cientistas querem perceber melhor o que influencia essa janela temporal.
O “relógio molecular” proposto reduz a estimativa do início de problemas de memória para uma janela de três a quatro anos. Embora não seja a primeira ferramenta de previsão identificada, poderá ser uma das mais simples e rápidas até agora.
Segundo a equipa responsável pelo desenvolvimento, liderada por investigadores da Washington University in St. Louis (WashU), nos EUA, a utilidade será, numa fase inicial, sobretudo para estudos ao nível de grupos, e mais tarde poderá vir a aplicar-se a doentes individuais.
"O nosso trabalho mostra a viabilidade de usar análises ao sangue, que são substancialmente mais baratas e mais acessíveis do que exames de imagiologia cerebral ou testes ao líquido cefalorraquidiano, para prever o início dos sintomas de Alzheimer", afirma a neurologista Suzanne Schindler, da WashU.
"A curto prazo, estes modelos vão acelerar a nossa investigação e os ensaios clínicos. Eventualmente, o objetivo é conseguir dizer a doentes individuais quando é provável que venham a desenvolver sintomas, o que os ajudará, assim como aos seus médicos, a delinear um plano para prevenir ou abrandar os sintomas."
Como funciona o relógio molecular do Alzheimer com p-tau217 plasmático
Para construir o modelo, os investigadores recorreram a um teste sanguíneo já existente que mede os níveis da proteína p-tau217. Esta proteína já pode ser utilizada para diagnosticar Alzheimer, mas, com modelação matemática adicional, a equipa concluiu que também pode servir para estimar se é provável que alguém venha a desenvolver sintomas e em que altura isso poderá acontecer.
Trabalhos anteriores indicaram que a p-tau217 no sangue funciona como um sinal indireto da acumulação, no cérebro, das proteínas tau e amiloide-beta - alterações fortemente associadas à doença de Alzheimer e aos danos que provoca nos neurónios.
Com base em dados já recolhidos ao longo de vários anos, os investigadores analisaram resultados de testes sanguíneos de 603 pessoas para desenvolver o seu teste de “relógio” do Alzheimer. Ao cruzarem os níveis de p-tau217 nas amostras com o momento em que surgiram os primeiros sinais de défice cognitivo, conseguiram elaborar fórmulas que ligam estes dois acontecimentos.
A equipa observou ainda que, em pessoas mais velhas, o período entre estes dois marcos tende a ser mais curto. Uma possível interpretação é que cérebros mais jovens conseguem resistir melhor à neurodegeneração e contê-la durante mais tempo depois de esta se iniciar.
"Os níveis de amiloide e tau são semelhantes aos anéis de uma árvore", explica o autor principal e neurologista Kellen Petersen, da WashU. "Se soubermos quantos anéis uma árvore tem, sabemos quantos anos ela tem."
"Acontece que a amiloide e a tau também se acumulam seguindo um padrão consistente e a idade em que se tornam positivas prevê fortemente quando alguém vai desenvolver sintomas de Alzheimer. Descobrimos que isto também é verdade para a p-tau217 plasmática, que reflete tanto os níveis de amiloide como os de tau."
Para que serve já (e o que ainda não consegue fazer)
É importante salientar que, por agora, a precisão do teste só é realmente útil na análise de grandes grupos de pessoas. Ou seja, ainda não é uma ferramenta capaz de indicar de forma fiável, para um indivíduo específico, quanto tempo falta até começarem a manifestar-se sintomas de Alzheimer (embora isso possa vir a acontecer com investigação adicional).
Mesmo assim, este tipo de teste ao sangue mantém-se valioso para a organização de ensaios clínicos e de estudos sobre Alzheimer.
Se os investigadores conseguirem estimar, ainda que aproximadamente, quando problemas de memória e aprendizagem deverão surgir num subconjunto de participantes, podem planear ensaios ao longo desses anos. Isso permite observar de perto a evolução da doença e as alterações biológicas associadas.
"Estes modelos de relógio podem tornar os ensaios clínicos mais eficientes ao identificar indivíduos com probabilidade de desenvolver sintomas dentro de um determinado período de tempo", refere Petersen.
"Com mais aperfeiçoamento, estas metodologias têm potencial para prever o início dos sintomas com precisão suficiente para que possamos usá-las em cuidados clínicos individuais."
A investigação foi publicada na revista Nature Medicine.
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