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A “Mulher de Beachy Head” afinal não era quem se pensava

Cientista em laboratório a examinar um crânio humano com mapa e código genético no portátil.

O intrigante esqueleto de uma pessoa da Britânia do período romano, conhecido pelo nome “Mulher de Beachy Head”, não corresponde à ideia que durante anos se fez sobre a sua origem.

Ao contrário do que alguns cientistas chegaram a sugerir a partir de traços físicos, esta mulher enigmática não é a “primeira britânica negra”.

Uma nova análise ao seu ADN com 2.000 anos, conduzida por investigadores do Museu de História Natural (NHM) em Londres, indica que teria pele mais clara e que, na realidade, era natural da Britânia.

“Recorrendo a técnicas de ADN de ponta e a genomas publicados recentemente, conseguimos determinar a ascendência da Mulher de Beachy Head com uma precisão muito superior à anterior”, afirma William Marsh, arqueogeneticista do NHM.

“Mostramos que ela apresenta uma ascendência genética mais semelhante à de outros indivíduos da população local da Britânia durante o período romano.”

A descoberta do esqueleto e o longo debate sobre a Mulher de Beachy Head

Os restos mortais da Mulher de Beachy Head têm sido motivo de discussão há mais de uma década.

O esqueleto foi encontrado pela primeira vez no sudeste de Inglaterra algures em meados do século XX e voltou a ser identificado em 2012 - dentro de uma caixa com uma etiqueta que acabou por lhe dar o nome. Nessa etiqueta lia-se: “Beachy Head (1959)”, em referência ao troço de costa em East Sussex onde se pensa que os restos terão sido descobertos.

A datação por radiocarbono do esqueleto mostrou que a mulher morreu entre 129 e 311 cal d.C., durante a ocupação do que é hoje a Britânia pelo Império Romano. No entanto, o aspeto do seu crânio levou alguns cientistas a considerar que a sua linhagem teria vindo de muito longe.

Em 2017, uma análise preliminar do seu ADN já tinha sugerido que a Mulher de Beachy Head não era oriunda de África, como inicialmente se supôs, mas sim da região do Mediterrâneo oriental.

Agora, tudo indica que essa interpretação também poderá ter estado errada.

O que revela o ADN: afinidade com a Britânia romana e com britânicos atuais

Com base em ADN de maior qualidade extraído do esqueleto, esta mulher apresenta uma “forte afinidade genética com indivíduos da Britânia rural durante a ocupação romana e com britânicos dos dias de hoje”, escrevem Marsh e os seus colegas no artigo publicado.

Não existem indícios de ancestralidade africana recente. A partir dos seus genes, é provável que tivesse olhos azuis, uma cor de pele entre clara e escura, e cabelo claro.

Segundo os cientistas, o enigma da Mulher de Beachy Head “desencadeou debates importantes sobre diversidade e sobre a forma como representamos indivíduos do nosso passado”.

“A descoberta da ‘primeira britânica negra de que temos conhecimento’ ganhou força em vários meios de comunicação, livros de não-ficção, recursos educativos e publicações académicas”, escreve a equipa de investigação.

Mas essa conclusão assentava numa suposição baseada numa técnica falha e pouco fiável.

Tradicionalmente, na antropologia, têm-se usado as características físicas do crânio para inferir raça e etnia. No entanto, esta abordagem promove “noções ultrapassadas sobre a realidade biológica da raça”, escrevem Marsh e colegas, e “ignora a natureza contínua da maior parte da variação humana”.

O caso da Mulher de Beachy Head mostra até que ponto as inferências feitas apenas a partir da aparência podem ser erradas - e por que razão a genética constitui uma base de análise muito mais rica e fiável.

“O nosso conhecimento e compreensão científicos estão em constante evolução e, enquanto cientistas, cabe-nos continuar a procurar respostas”, afirma Selina Brace, antropóloga do NHM.

“Graças ao avanço tecnológico que ocorreu na última década desde que a Mulher de Beachy Head veio a público, temos o prazer de apresentar estes novos dados abrangentes e de partilhar mais sobre esta pessoa e a sua vida.”

O estudo foi publicado na Revista de Ciência Arqueológica.

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