A psicologia positiva é, hoje, a base de muitos programas de bem-estar por todo o mundo. Quem procura fortalecer a saúde mental e viver melhor ouve frequentemente o mesmo conselho: seguir um conjunto de actividades que exijam um esforço deliberado para aumentar o bem-estar.
No entanto, investigação recente que desenvolvi com colegas mostra que, apesar de os especialistas em bem-estar recomendarem estas práticas a outras pessoas, no dia a dia raramente as aplicam a si próprios. Esta diferença pode ser um sinal relevante sobre aquilo que, de facto, sustenta o bem-estar ao longo do tempo.
Para o estudo, entrevistei 22 especialistas e profissionais de psicologia positiva - alguns com mais de dez anos de experiência. Todos afirmaram recomendar, com regularidade, actividades de bem-estar a clientes, amigos e familiares, e explicaram que ajustariam cada proposta às necessidades específicas de cada pessoa.
Quando lhes perguntei como integravam as práticas da psicologia positiva nas suas próprias vidas, ficou claro que não as faziam de forma consistente. Na maioria dos casos, recorriam a essas actividades apenas em fases mais difíceis, quando sentiam que precisavam de um impulso de bem-estar.
Muitos programas de psicologia positiva sugerem, por exemplo, práticas como o “diário de gratidão” (registar por escrito as coisas pelas quais se está grato) todos os dias, ou realizar três actos de bondade por semana. O foco central destes programas é a ideia de adoptar um esforço intencional e contínuo para ser mais positivo.
O nosso estudo, porém, indicou que os especialistas não usam o bem-estar da forma que muitos destes programas ensinam. Em vez de seguirem um calendário de tarefas, o bem-estar deles parecia resultar de uma mentalidade flexível e orientada para o bem-estar, a que chamámos “mentalidade meliotrópica de bem-estar”.
A expressão vem do latim melior (melhor) e do grego tropismo (movimento em direcção a). Em termos simples, trata-se de avançar em direcção ao que torna a vida digna de ser vivida. Esta forma de pensar implicava que os especialistas não encaravam o bem-estar como uma lista de tarefas a cumprir, mas sim como algo integrado na vida quotidiana.
Isso também significava que nenhum dos especialistas “perseguia” activamente a felicidade ou a positividade. Se tinham um dia mau, deixavam-no simplesmente acontecer - aceitando que a vida, por vezes, traz dificuldades.
Além disso, os participantes não faziam mudanças drásticas e propositadas na vida do tipo que recomendariam a doentes para melhorar o bem-estar.
Em vez disso, já mantinham, com naturalidade, hábitos regulares que davam mais sentido aos seus dias - por exemplo, reservavam tempo para ler diariamente, faziam voluntariado numa instituição local, cozinhavam uma refeição de que gostavam, ou até praticavam ioga.
Apesar de actividades como estas poderem ser propostas num programa de psicologia positiva, aqui havia um ponto essencial de diferença: estes especialistas faziam-nas por fazerem parte de quem eram, ou por os ajudarem a sentir equilíbrio, e não apenas porque alguém lhas tinha aconselhado.
Também demonstravam grande atenção ao corpo, cuidando dele com o mesmo zelo com que cuidavam da mente, ao dar prioridade ao sono, a alimentação nutritiva e ao movimento regular.
E, por estarem muito conscientes do impacto do ambiente físico e social no seu estado, não hesitavam em agir preventivamente para proteger o bem-estar.
Por exemplo, se o trabalho os deixava infelizes, ou se alguém no seu círculo social os desgastava de forma persistente, procuravam alternativas ou limitavam o contacto sem grandes hesitações.
Ao mesmo tempo, mostravam-se receptivos a oportunidades que lhes permitiam viver com mais presença. Uma participante descreveu um momento em que esperava à porta da escola para ir buscar o filho. O tempo estava tão agradável que tirou os sapatos e atravessou descalça um pedaço de relva - um gesto simples que melhorou o seu estado de espírito.
Outra relatou ter tido um dia particularmente mau, mas, ao deitar-se nessa noite, sentiu uma onda de gratidão pelo calor e pela segurança da sua casa, em contraste com todas as pessoas deslocadas pela guerra.
O conhecimento que tinham de psicologia positiva ajudava-os a reparar nestas oportunidades quotidianas de reforçar o bem-estar.
Mudança de mentalidade na psicologia positiva
Todos os anos surgem novas aplicações de bem-estar, as escolas incluem o bem-estar nos seus currículos e as organizações investem fortemente em programas de bem-estar no local de trabalho. Ainda assim, o efeito destas iniciativas continua a ser modesto. E, segundo alguns relatos, programas de bem-estar podem até produzir efeitos negativos.
As conclusões do nosso estudo podem ajudar a perceber por que razão o impacto destes programas é tão irregular - e sugerem que estas actividades positivas podem não ser tão eficazes para pessoas que já aplicaram práticas de bem-estar de forma extensa nas suas vidas.
O estudo chama também a atenção para uma necessidade urgente: investigadores e especialistas em psicologia positiva precisam de reconsiderar prioridades.
Em vez de desenvolver programas de bem-estar cada vez mais longos ou de incentivar a busca da felicidade - algo que, segundo a evidência, não é necessariamente benéfico - deveríamos concentrar-nos em compreender o impacto das práticas de bem-estar no longo prazo.
Para quem está a tentar melhorar o bem-estar, os nossos resultados são um lembrete importante de que não é preciso estar sempre a “trabalhar em si” nem a perseguir a felicidade. Os especialistas em bem-estar raramente dependem de mudanças dramáticas de vida ou de programas formais de bem-estar.
O que fazem, de forma discreta, é cultivar uma mentalidade que os orienta para aquilo que realmente importa.
Não se trata de correr atrás da felicidade nem de nos obrigarmos a pensar de forma positiva num dia mau. Trata-se de avançar com suavidade na direcção das coisas que fazem a vida parecer mais valiosa, de uma forma que combine com quem somos.
Essa mudança de mentalidade é algo que todos nós podemos adoptar.
Jolanta Burke, Professora Associada, Centro de Ciências da Saúde Positiva, Universidade de Medicina e Ciências da Saúde da RCSI
Este artigo é republicado ao abrigo de uma licença Commons Criativas, a partir de um texto originalmente publicado na plataforma A Conversa. Leia o artigo original.
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