A água puxada através do caule oco de uma planta viva do género Equisetum, conhecida como cavalinha, exibiu a assinatura isotópica de oxigénio mais extrema alguma vez registada em qualquer material terrestre.
Esta observação alarga os limites químicos conhecidos da água na Terra e obriga os cientistas a reavaliar a forma como plantas, fósseis e até climas desérticos guardam o rasto deixado pela evaporação.
Uma surpresa do tamanho de um caule
Ao longo do caule liso e articulado de uma cavalinha actual, a água sobe desde a base e vai-se tornando progressivamente mais invulgar na sua composição em oxigénio.
Ao recolher amostras de água desde a zona inferior até à ponta, Zachary Sharp, doutorado na Universidade do Novo México, mostrou que o próprio caule vai concentrando, de forma contínua, oxigénio pesado à medida que a humidade se perde para o ar seco.
Os valores, que na base começavam dentro do intervalo natural habitual, aumentaram até níveis tão enriquecidos na extremidade superior que ultrapassaram todas as medições terrestres anteriores.
Como esta transformação química acontece dentro de uma única planta - e não num ambiente extremo -, o resultado impõe uma análise mais atenta de como a evaporação altera a água muito antes de esta chegar a uma folha.
Evaporação ao longo do caule
Enquanto a água ascendia no caule, a evaporação continuou a retirar parte desse líquido, mesmo antes de alcançar quaisquer ramos com estruturas folhosas.
À medida que pequenas quantidades escapavam pela parede do caule, as moléculas de água com oxigénio mais leve saíam primeiro, deixando para trás uma fracção relativamente mais rica em oxigénio pesado.
Cada secção mais alta recebia água já previamente enriquecida e, depois, perdia mais para o ar, construindo um gradiente extremo até à ponta.
Vento seco e temperaturas elevadas podem intensificar este mecanismo, o que ajuda a compreender dados de oxigénio aparentemente estranhos observados em plantas de regiões desérticas.
Átomos de oxigénio como pistas
O oxigénio presente na água transporta uma assinatura química que os cientistas usam para rastrear a origem da humidade e o que lhe aconteceu a seguir.
Uma amostra de água contém mais do que um tipo de oxigénio, e os isótopos - átomos do mesmo elemento com massas diferentes - definem essa mistura.
Quando a água seca, as moléculas com oxigénio mais leve tendem a escapar primeiro; o líquido remanescente retém, por efeito da evaporação, uma proporção maior de oxigénio pesado.
Sem uma leitura cuidadosa, esta separação simples pode fazer com que um lago, uma folha ou um fóssil pareça ter estado mais húmido ou mais seco do que realmente esteve.
Três sinais de oxigénio
Três versões distintas de oxigénio na mesma gota de água permitem distinguir se a mudança foi dominada pela evaporação ou pela água de origem.
A equipa de Sharp acompanhou em simultâneo três variantes de oxigénio, observando como cada uma evoluía em conjunto na água que se deslocava pelo interior do caule.
Este nível adicional é relevante porque o oxigénio pesado é raro e pequenas distorções podem passar despercebidas quando se mede apenas uma razão isotópica.
Com três sinais em paralelo, o grupo conseguiu pôr à prova modelos de água nas plantas de uma forma que as medições comuns não permitem.
Para lá do intervalo da Terra
As cavalinhas têm um registo fóssil que recua até ao Devoniano, um período de há cerca de 400 milhões de anos, o que evidencia a sua linhagem antiga.
Na água do caule liso da cavalinha, a fracção de oxigénio mais pesado aumentou acentuadamente da base para a ponta, atingindo valores nunca antes observados numa planta viva.
“Se eu encontrasse esta amostra, diria que veio de um meteorito”, afirmou Sharp.
Ao estender em cinco vezes o intervalo conhecido de oxigénio na Terra e no Sistema Solar, estes resultados impuseram aos modeladores um limite difícil de contornar.
Química da água aprisionada
No interior dos tecidos da cavalinha, a sílica forma pequenas estruturas vítreas que podem persistir muito depois de a planta morrer.
Os investigadores chamam-lhes fitólitos - minúsculos moldes de sílica formados dentro das plantas - e as cavalinhas estão entre os maiores acumuladores de sílica.
Nos dados de Sharp, a impressão digital de oxigénio na sílica dos fitólitos não coincidiu com a água que circulava pelo caule.
Esta discrepância implica que leituras de fitólitos fósseis podem contar uma história de humidade errada, sobretudo quando se faz a média do caule inteiro.
Corrigir pressupostos dos modelos
Os modelos que antecipam a química da água nas plantas dependem de algumas constantes, e uma delas estava ligeiramente desviada.
Com base em medições ao longo de todo o caule, a equipa de Sharp ajustou um valor-chave em modelos de evaporação para o tornar mais compatível com a forma como o vapor de água se desloca de facto no ar seco.
Esse valor revisto ajudou a explicar medições de oxigénio anteriormente intrigantes em plantas do deserto e em animais que bebem água fortemente evaporada.
Constantes mais fiáveis não eliminam todas as incertezas, mas diminuem o risco de atribuir à biologia um sinal que, na realidade, foi imposto pela física.
Fósseis em contacto com ar seco
Os cientistas têm testado sinais de oxigénio em fitólitos fósseis como ferramenta para estimar a humidade do passado.
Como a humidade do ar influencia a rapidez com que a água se perde das plantas, o padrão de oxigénio que fica pode reflectir quão seco estava o ar.
“Agora podemos começar a reconstruir a humidade e as condições climáticas de ambientes que recuam até ao tempo em que os dinossauros percorriam a Terra”, disse Sharp.
Ainda assim, o aviso de Sharp sobre sinais desencontrados nos fitólitos estabelece limites ao que estes fósseis conseguem revelar sem contexto adicional.
Cavalinhas, água e isótopos de oxigénio
Um curso de verão tornou o trabalho viável, combinando amostragem no terreno com análises laboratoriais que treinaram estudantes com dados reais.
Numa unidade de verão com vertente de campo e laboratório, 14 estudantes ajudaram a recolher caules e a medir assinaturas de oxigénio nas instalações da UNM.
De volta a Albuquerque, no Novo México, o Centro de Isótopos Estáveis processou as amostras, e microscópios electrónicos verificaram a sílica que se estava a formar nos caules.
Este percurso prático é importante, porque as ferramentas climáticas evoluem mais depressa quando estudantes e cientistas experientes as testam contra a complexidade da natureza.
Assinaturas extremas da água numa cavalinha viva oferecem aos cientistas uma nova forma de pôr à prova modelos climáticos e indicadores fósseis.
Trabalhos futuros terão de cartografar sinais semelhantes noutras plantas e noutros ambientes, em especial onde a seca leva a evaporação ao limite.
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