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O criador da nova série de Game of Thrones sabia que isto seria polémico, e eu estou entre os desiludidos.

Cavaleiros em armadura no chão de batalha diante de trono com reis e estandartes em ambiente medieval.

O confronto mais aguardado da nova série no universo de A Guerra dos Tronos finalmente arranca… e, precisamente quando devia acelerar, a história carrega no travão.

A tensão estava no limite, as lâminas já tinham saído das bainhas e o destino de Duncan parecia preso por um fio. Tudo apontava para um episódio conduzido pela ação do princípio ao fim, mas a série escolhe um desvio inesperado: um longo retorno ao passado, enfiado a meio do clímax, que acabou por dividir quem está a ver - e, admito, deixou-me irritado.

A série derivada que conquistou depressa - e arriscou no episódio 5

O Cavaleiro dos Sete Reinos tem-se afirmado como um dos projetos mais interessantes ligados a A Guerra dos Tronos. Em vez de apostar em batalhas colossais e intrigas à escala do continente, esta série derivada prefere uma abordagem mais próxima e humana, centrada num punhado de personagens e em conflitos muito delimitados.

Desde a estreia, a receção tem sido claramente positiva. As classificações em plataformas como o IMDb têm subido semana após semana, sinal de que o público tem gostado da mistura entre drama de viagem, humor contido e os bastidores da nobreza de Westeros numa fase historicamente menos caótica do reino.

Essa boa vontade do público ganhou ainda mais força no quarto episódio. Depois de travar a crueldade de Aerion Targaryen contra a artista Tanselle, Sor Duncan é detido e condenado ao Julgamento dos Sete - um antigo duelo judicial em que sete campeões de cada lado combatem para que os deuses determinem quem está do lado da razão. O capítulo fecha no ponto ideal: os guerreiros perfilam-se, prontos para se lançarem uns contra os outros. Suspense no ponto.

O Julgamento dos Sete começa… e o passado toma conta do ecrã

No episódio 5, a narrativa reata exatamente onde tinha parado: o choque começa, as lanças avançam, e Duncan vai ao chão. E então, num corte seco, a ação desaparece para dar lugar a um retorno ao passado prolongado sobre a infância do protagonista nos bairros miseráveis de Porto Real.

Como golpe emocional, o recurso resulta; como decisão de ritmo, entra pela porta errada - sobretudo para quem só queria ver o duelo que a série prometeu.

Segundo o responsável pela série, Ira Parker, esta opção foi tomada com plena noção de que não agradaria a toda a gente. Em entrevista, reconheceu que “odeia” recorrer a um retorno ao passado precisamente no momento em que o público está à espera da batalha, mas defendeu que, dentro da estrutura pensada para a temporada, não encontrou alternativa melhor. A sua justificação é clara: voltar ao passado de Dunk reforça o fecho do episódio e dá mais densidade ao caminho da personagem.

O que o retorno ao passado acerta na construção de Duncan

Do ponto de vista dramático, há muito a elogiar. Este segmento não existe nos contos originais de O Cavaleiro Errante, o que significa que a série está a expandir o cânone com margem criativa. A infância de Duncan, apresentada num ambiente degradado, brutal e sem horizonte, ajuda a explicar porque insiste tanto em valores como lealdade, honra e proteção dos mais frágeis.

  • Vemos um miúdo que apanha, mas não se vergue.
  • Vemos alguém sem apelido nem estatuto, mas que escolhe viver com princípios.
  • Vemos um futuro cavaleiro que não nasce nobre e, ainda assim, decide comportar-se como tal.

É aqui que a série encontra o seu núcleo: o contraste entre origem humilde e vocação heroica. O episódio torna essa ideia muito explícita - Duncan não é “especial” por linhagem, mas por teimosia moral. A força dele não vem de um título: vem da recusa em aceitar que a sarjeta onde cresceu define o que merece.

O paralelismo é imediato: tanto o rapaz em Porto Real como o cavaleiro diante do Julgamento dos Sete estão cercados, desacreditados e, mesmo assim, recusam recuar.

O problema não é o que se conta - é quando se conta (O Cavaleiro dos Sete Reinos)

Ainda assim, mesmo quem valoriza a carga dramática do retorno ao passado esbarra na mesma questão: o ritmo. Os primeiros episódios da temporada foram mais calmos, quase rotineiros. A partir do terceiro, a história começa a ganhar velocidade com revelações, ameaças ligadas aos Targaryen e a preparação do duelo judicial.

O quarto capítulo termina no pico da expectativa. A lógica de televisão semanal sugeria que o episódio seguinte entregasse o combate sem hesitações. Em vez disso, a série mantém-nos afastados do campo de batalha durante mais de vinte minutos. Quando a luta regressa ao ecrã, já vem “marcada” pela interrupção - e isso inevitavelmente retira impacto ao confronto.

As reações dos fãs tornaram-se, por isso, bastante fáceis de mapear:

Grupo de fãs Leitura do retorno ao passado
Entusiastas do recurso Defendem que o passado de Duncan é essencial para compreender as suas escolhas e consideram o episódio mais rico em emoção.
Críticos do momento escolhido Acham que o retorno ao passado surge “fora de tempo”, prolonga-se em excesso e quebra o embalo que a série vinha a construir.

Uma aposta calculada contra a pressa do entretenimento atual

Enquadrar esta escolha ajuda a perceber porque é que irrita tanta gente. As séries de hoje vivem sob pressão para entregar recompensas rápidas: quando se cria expectativa para um duelo, o caminho “seguro” é cumprir a promessa sem cortes nem desvios. O Cavaleiro dos Sete Reinos faz o oposto e adia a catarse.

Do ponto de vista autoral, o risco é interessante: o episódio pergunta, na prática, o que pesa mais - a luta em si ou a formação do homem que entrou nela. Para uma parte da audiência, a resposta será sempre o combate. Para outra, acompanhar a construção do caráter vale o atraso.

Ira Parker apostou que o público aceitaria trocar adrenalina imediata por profundidade de personagem - e aparentemente sabia que uma fatia dos espectadores iria ficar furiosa com essa troca.

Há também um fator adicional que torna o Julgamento dos Sete particularmente sensível a quebras de ritmo: este tipo de duelo não é apenas ação; é um rito público, uma sentença dramatizada, um espetáculo político. Quanto mais tempo se passa longe da arena, mais se dilui a sensação de “irreversibilidade” que a cena devia transmitir.

E, numa adaptação como esta, existe sempre um equilíbrio difícil entre respeitar o material-base e preencher o que ficou fora de página. Ao criar passado para Duncan, a série ganha textura e contexto - mas paga esse ganho com o risco de frustrar quem está à espera de uma progressão mais linear.

O golpe em Baelor e o gancho final que resulta

Se a zona central do episódio divide opiniões, o fecho tende a unir a reação: o gancho final funciona mesmo. Quando parecia que Duncan tinha sobrevivido ao pior num jogo perigoso com os Targaryen, a série atira um choque rápido e cruel. Baelor Targaryen, uma das figuras mais respeitadas do reino, cai com uma ferida grave na cabeça. Assim que o elmo é retirado, torna-se evidente que o dano é fatal.

A morte do príncipe abre várias frentes de consequências: mexe com o equilíbrio político dentro da dinastia Targaryen e altera, inevitavelmente, o percurso de Duncan e do jovem Egg. A ligação entre os dois, que já vinha a ganhar força, tem tudo para ficar mais pesada e sombria a partir daqui.

A expectativa para o sexto episódio cresce não só pela curiosidade em ver o “depois” do duelo, mas pelo buraco que esta perda cria na linha de sucessão e na memória coletiva do reino. Nesse aspeto, a série prova que sabe combinar drama íntimo com impacto histórico - uma das marcas mais fortes de A Guerra dos Tronos.

Porque é que os retornos ao passado geram tanta discussão em séries

Este episódio é um bom exemplo de um dilema recorrente na televisão: como usar retornos ao passado sem sabotar o andamento. Regra geral, quem escreve avalia três pontos antes de avançar:

  • Até que ponto o passado muda a nossa leitura do presente da personagem.
  • Se a informação não podia surgir através de diálogo, comportamento ou detalhe no tempo atual.
  • O risco de cortar a tensão de uma cena que já está em andamento.

No episódio 5, a balança inclina-se para o lado da profundidade de personagem, sacrificando parte da energia imediata. Em termos de construção de mundo, a série sai a ganhar. Para quem vê sobretudo à procura da emoção do Julgamento dos Sete, a sensação de frustração é compreensível - e, em muitos casos, inevitável.

No fim, o quinto episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos expõe um conflito típico entre uma narrativa pensada para ser vista de seguida e uma narrativa consumida semana a semana. Quem vir a temporada inteira de uma vez poderá sentir menos a quebra. Já quem esperou dias pelo Julgamento dos Sete tem boas razões para sentir que a câmara virou o rosto exatamente no instante em que a primeira espada finalmente se cruzou.

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