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Fim das burlas telefónicas? Arcep pressiona operadoras em França a agir – veja as novidades

Pessoa a usar telemóvel com aplicação de autenticação em ambiente interior iluminado perto de mesa e janelas.

Durante anos, muitos burlões protegeram-se atrás de números móveis franceses falsificados, ligando a partir de centros de chamadas no estrangeiro e passando por “alguém aqui ao lado”. Essa manobra - fazer a chamada parecer local com um 06 ou 07 - tornou-se um dos truques mais eficazes para aumentar a taxa de atendimento. Agora, a Arcep, regulador nacional das telecomunicações em França, está a obrigar os grandes operadores a reforçar os seus sistemas, com regras que visam cortar uma das táticas preferidas do crime telefónico.

Porque é que a França está finalmente a apertar o cerco às burlas telefónicas (Arcep)

O cenário repete-se com frequência: o telefone toca, o número parece um móvel normal (06 ou 07), e por instantes fica a dúvida - poderá ser um estafeta, a escola, um colega com outro telemóvel. Atende. Do outro lado, surge de imediato um discurso comercial agressivo ou um “assistente” que, afinal, é falso.

Em muitos casos, o que está por trás é um truque técnico simples: spoofing (falseamento) da identificação de chamada. Os burlões, muitas vezes a operar a partir do estrangeiro, fazem-se passar por números com aspeto legítimo para tornar a chamada familiar e “nacional”. Essa sensação de proximidade aumenta a probabilidade de atender; depois, a engenharia social trata do resto.

Perante a escala do fenómeno, a Arcep decidiu que não pode continuar tudo na mesma. O regulador definiu um conjunto de obrigações para os principais operadores - Orange, SFR, Bouygues Telecom e Free - com o objetivo de travar chamadas sem autenticação e de fechar falhas que os burlões exploram.

Mudança-chave no manual dos burlões: a partir de 2026, chamadas vindas do estrangeiro que usem um número francês sem autenticação deixará de mostrar qualquer número.

A mudança central: chamadas internacionais sem autenticação passam a “anónimas”

A medida mais visível entra em vigor a 1 de janeiro de 2026. A partir dessa data, qualquer chamada originada fora de França que “alegue” um número francês só poderá apresentar esse número ao destinatário se passar verificações técnicas de autenticação. Se falhar, o número deixa de aparecer e a chamada será apresentada como número oculto/anónimo.

Para tornar isto possível, França está a implementar novos protocolos de sinalização que permitem aos operadores confirmar, ao nível da rede, se quem liga tem mesmo o direito de usar aquele número. A abordagem acompanha iniciativas internacionais como o STIR/SHAKEN (EUA e Canadá), em que as chamadas podem receber uma espécie de “assinatura” criptográfica que suporta a validação da origem.

Na prática, quando uma chamada vem do estrangeiro, tenta mostrar um número francês e não traz autenticação válida, o operador deixará de permitir que esse número apareça no ecrã. Para o utilizador, será como se o chamador tivesse ocultado manualmente a identificação.

Se a rede não conseguir ter a certeza de quem está a ligar, o número desaparece. O telefone pode tocar na mesma, mas o prefixo móvel “familiar” deixa de servir de isco.

Isto não elimina todas as chamadas indesejadas, mas reduz um poderoso gatilho psicológico: “parece ser alguém conhecido”. E a Arcep está claramente a apostar no facto de muitas pessoas encararem chamadas anónimas com mais desconfiança.

E quando a tecnologia falha? A regra mantém-se

A Arcep também contemplou os casos-limite. Nem sempre a falta de dados de autenticação significa burla: pode haver uma avaria temporária, um problema de interligação entre redes, ou equipamento antigo num percurso internacional.

Mesmo assim, a orientação é rígida: se a autenticação não for transmitida corretamente, o número é mascarado na mesma. Os operadores não podem “apostar” na legitimidade.

Além disso, existe uma segunda camada de exigência: sempre que ocorram falhas técnicas repetidas que impeçam a autenticação, os operadores terão de reportar os incidentes à Arcep e explicar como tencionam corrigi-los. Dessa forma, os “glitches” deixam de ser apenas problemas internos e passam a pontos formais de pressão regulatória.

Os “buracos negros” técnicos deixam de ser invisíveis: as operadoras terão de indicar ao regulador onde a autenticação falha e o que estão a fazer para fechar essas lacunas.

Contratos passam a definir que números cada cliente pode apresentar

Outra ferramenta do plano da Arcep atua na base do ecossistema: a forma como empresas e prestadores de serviços usam números. Em breve, os contratos de telecomunicações em França terão de indicar, com clareza, quais os números que um cliente está autorizado a apresentar como identificação de chamada.

Apesar de parecer burocrático, o efeito pode ser forte. Os operadores terão de implementar controlos técnicos que impeçam um cliente de apresentar um número fora da sua lista autorizada.

Porque isto é relevante para centros de chamadas e VoIP (Arcep)

Esta exigência tem como alvo principal o uso massivo de spoofing por:

  • centros de telemarketing que exibem números que não lhes pertencem;
  • serviços de telefonia na nuvem (VoIP) que permitem apresentação de números com verificações fracas;
  • redes de fraude que “alugam” conectividade através de intermediários estrangeiros.

Ao forçar um mapeamento explícito entre cliente e números permitidos, a Arcep reduz a margem para práticas de “zona cinzenta”, em que plataformas legítimas acabam, involuntariamente, por transportar tráfego fraudulento.

Para empresas cumpridoras, o impacto deverá ser controlável: será necessário garantir que o contrato inclui todos os números apresentados (locais, nacionais ou de tarifário especial). Para operadores menos transparentes, o aperto será muito mais difícil de contornar.

Proteção específica nos territórios ultramarinos franceses: “quarentena” de números

As regras também abrangem a reutilização de números nos territórios ultramarinos franceses. A Arcep vai impor um período mínimo de “quarentena” antes de um número poder ser atribuído a um novo utilizador quando o contrato anterior tenha terminado por iniciativa do operador.

O intervalo mínimo definido é de 45 dias antes da reatribuição.

Território Problema atual Nova regra
Departamentos e coletividades ultramarinas Os números podem ser reassociados rapidamente, criando confusão e risco de chamadas ou mensagens dirigidas à pessoa errada. As operadoras têm de esperar pelo menos 45 dias após terminar uma linha antes de atribuir o número a outro cliente.

Esta margem reduz situações em que alguém “herda” um número que ainda está associado, por serviços, contactos ou até burlões, ao titular anterior. Esse tipo de sobreposição pode gerar episódios estranhos: faturas, códigos de autenticação ou tentativas de phishing a chegarem subitamente à pessoa errada.

18 000 sinalizações desde 2025: o regulador está a reagir a uma pressão real

A Arcep não está a agir no vazio. Desde janeiro de 2025, o regulador registou cerca de 18 000 queixas de usurpação de números na sua plataforma “J’alerte l’Arcep”.

Estes números não representam todos os casos - muita gente desliga e segue em frente sem reportar. Ainda assim, o volume mostra persistência e dá ao regulador dados sobre padrões: que números aparecem repetidamente, por que operadores passam certas rotas, e que técnicas se repetem.

Com as novas obrigações, a Arcep poderá cruzar essas denúncias com dados técnicos fornecidos pelos operadores: que trajetos internacionais transportam chamadas sem autenticação, que clientes abusam da identificação e em que pontos a autenticação se degrada.

O regulador está a passar de uma resposta reativa, caso a caso, para mudanças estruturais na autenticação das chamadas e no controlo de quem pode apresentar que números.

Comparação com EUA e Reino Unido: semelhanças e a diferença mais “visível”

A França não é caso único. Nos EUA, a Federal Communications Commission impulsionou a adoção do STIR/SHAKEN para reduzir spoofing associado a robocalls. No Reino Unido, a Ofcom também apertou regras contra falseamento de números, sobretudo em chamadas que entram no país vindas do exterior usando números britânicos.

Há pontos de contacto claros com a abordagem francesa:

  • chamadas sem autenticação que usam números nacionais enfrentam tratamento mais restritivo;
  • os operadores são pressionados a modernizar infraestruturas para autenticação e rastreabilidade;
  • contratos e regras de atribuição de números tornam-se mais exigentes.

Onde a França se destaca é na decisão de mascarar automaticamente chamadas internacionais sem autenticação quando tentam apresentar números franceses. Esse sinal é imediato e muito perceptível para quem recebe a chamada - e pode alterar hábitos do dia a dia.

O que muda para utilizadores comuns em França a partir de 2026

Para o público, o efeito prático deverá surgir de forma gradual, à medida que os operadores concluírem atualizações técnicas. Ainda assim, a partir de 2026 é razoável esperar menos chamadas obviamente falsificadas a fingir que são de telemóveis locais.

Também é provável que mais chamadas vindas do estrangeiro passem a aparecer como número oculto, sobretudo quando tentarem exibir números franceses sem autorização ou autenticação. Isso pode levar muitas pessoas a ajustar comportamentos - por exemplo, ignorar chamadas anónimas e deixar que o voicemail faça o primeiro filtro.

As burlas não vão desaparecer de um dia para o outro. É natural que os criminosos mudem de estratégia, por exemplo:

  • usar números reais comprados através de operadores estrangeiros com controlos menos rigorosos;
  • deslocar-se para SMS com ligações de phishing;
  • apostar mais em aplicações de mensagens onde as regras de identificação são diferentes.

Mesmo assim, o custo de lançar campanhas de grande volume com “aparência local” aumenta, e algumas operações mais agressivas poderão perder escala.

Um efeito colateral provável: mais “anónimos” legítimos em rotas internacionais

Há um impacto possível que merece atenção: durante a fase de transição, algumas chamadas legítimas internacionais (por exemplo, empresas com centrais fora de França, equipas em roaming, ou interligações complexas) podem surgir como anónimas quando a cadeia técnica não transportar a autenticação como deve. A obrigação de reportar falhas à Arcep existe precisamente para acelerar a correção desses pontos.

Segurança vs. privacidade: o equilíbrio na apresentação do número

Outro aspeto relacionado é a perceção pública: mascarar números pode parecer um retrocesso de transparência, mas aqui o objetivo é o inverso - retirar credibilidade a chamadas que não conseguem provar a origem. A decisão da Arcep não proíbe chamadas anónimas; limita, isso sim, o uso de um número francês visível quando a rede não consegue validar o direito a esse número.

Dicas práticas para se proteger contra fraude telefónica

Mesmo com uma infraestrutura mais robusta, a proteção depende muito de hábitos. Algumas regras simples reduzem bastante o risco:

  • Desconfie de chamadas anónimas, sobretudo quando há pressão para decidir “já”.
  • Desligue e volte a ligar para um número oficial obtido no site da empresa (não use o número ditado pelo chamador).
  • Nunca partilhe dados bancários ou códigos de autenticação por telefone, a menos que tenha sido você a iniciar o contacto e tenha confirmado o canal.
  • Reporte chamadas suspeitas ao seu operador e, quando aplicável, em plataformas nacionais de denúncia.

Estas práticas continuam válidas mesmo com autenticação: nenhum protocolo substitui o ceticismo quando alguém pede dados sensíveis por telefone.

O que significa “autenticação” na prática (por trás das regras da Arcep)

Por trás do texto regulatório está um mecanismo técnico concreto: autenticar uma chamada significa a rede verificar se o chamador tem o direito de usar o número apresentado. Tipicamente, isso é feito através de assinaturas digitais associadas à informação de estabelecimento da chamada. À medida que a chamada passa por diferentes operadores, cada um pode validar essa assinatura - de forma semelhante ao que acontece quando um navegador verifica certificados de um website.

Quando a assinatura existe e é válida, a chamada fica “confiável” do ponto de vista de numeração. Quando não existe ou é inválida, entra numa zona de incerteza. As regras da Arcep, em essência, estabelecem: chamadas internacionais nessa zona de incerteza não podem beneficiar da apresentação de um número francês.

Aplicada a milhões de chamadas, esta lógica altera a economia da fraude. Obriga os criminosos a investir em blocos de numeração e percursos mais controlados, a recorrer a intermediários mais arriscados, ou a aceitar taxas de resposta mais baixas porque as pessoas desconfiam mais de chamadas anónimas. Com o tempo, essa pressão pode empurrar parte do problema para a periferia - ainda que dificilmente o elimine por completo.

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