O caso é um revés para a Qwant: a Autoridade da Concorrência rejeitou a queixa apresentada contra a Microsoft, deixando o grupo norte-americano sem qualquer sanção. O motor de pesquisa francês denuncia injustiça e diz já estar a preparar a resposta.
A Autoridade da Concorrência decidiu não dar seguimento à denúncia que a Qwant tinha formalizado em janeiro passado, noticiou o 01.net. A empresa pretendia ver reconhecidas práticas anticoncorrenciais e um abuso de posição dominante, mas não conseguiu convencer o regulador.
Desde 2016, a Qwant apoia-se na tecnologia do Bing para complementar os seus resultados orgânicos. Segundo a empresa, a Microsoft estaria a limitar a capacidade da Qwant de desenvolver tecnologia própria de pesquisa e o seu modelo de inteligência artificial (IA). A alegação assenta, em particular, na existência de práticas de exclusividade e de vendas associadas (vendas ligadas), que, na perspetiva da Qwant, se traduziriam em condições contratuais discriminatórias.
A Qwant criticou ainda o aumento abrupto das tarifas de indexação do Bing, aplicado no início de 2023, bem como um acesso que considera desequilibrado à publicidade associada às pesquisas - um pilar determinante no modelo económico dos motores de busca. A empresa sustenta também que a Microsoft favoreceria o seu próprio motor Bing na qualidade dos resultados fornecidos aos parceiros.
Autoridade da Concorrência dá razão à Microsoft no processo da Qwant
Apesar das acusações, os argumentos apresentados não foram considerados suficientes. Num comunicado, a Autoridade da Concorrência afirma que a Qwant “não apresenta elementos suficientemente probatórios” para demonstrar a posição dominante da Microsoft no mercado de sindicação de resultados.
O regulador recorda, além disso, que a Google também disponibiliza serviços de sindicação e sublinha que o mercado da publicidade associada às pesquisas é “ultradominado” pela empresa de Mountain View.
Outro ponto decisivo para a Autoridade é que a Qwant dispõe de capacidades próprias de pesquisa e que é, no quadro contratual em causa, a única empresa autorizada pela Microsoft a desenvolver a sua tecnologia nesses termos. Acresce que a Qwant lançou, em junho de 2025, em conjunto com a Ecosia, uma oferta de sindicação baseada num índice comum. Para o regulador, estes factos enfraquecem a tese de um bloqueio do mercado ou da inexistência de alternativas equivalentes.
A Autoridade conclui: “rejeita a queixa de fundo por falta de elementos suficientemente probatórios e, por consequência, o pedido de aplicação de medidas conservatórias acessórias a essa queixa.”
Reacções: Microsoft aplaude, Qwant contesta e avança com recurso
Do lado da Microsoft, a reacção foi imediata e alinhada com o desfecho: a empresa saudou a decisão e afirmou manter-se “determinada a fornecer serviços de pesquisa online de elevada qualidade e a promover a inovação em França e em toda a Europa”.
A Qwant, por sua vez, diz-se desapontada e considera que a decisão “minimiza o impacto real” das práticas da Microsoft na concorrência. A empresa francesa anuncia que vai recorrer (interpor recurso), procurando repor aquilo que entende serem condições mais justas para os actores europeus da pesquisa online.
A partir daqui, a disputa tende a deslocar-se para o plano jurídico: num recurso, a Qwant procurará demonstrar, com documentação e elementos adicionais, de que forma as condições de sindicação de resultados, os custos de indexação e o acesso à publicidade associada às pesquisas podem afectar a concorrência e a capacidade de inovação - incluindo no desenvolvimento de IA - de um motor europeu.
Este caso volta a colocar no centro do debate a dependência de vários motores de pesquisa de tecnologias e índices de terceiros. Para os actores europeus, a ambição de reforçar autonomia passa, muitas vezes, por construir alternativas viáveis - como o índice comum lançado com a Ecosia - e por assegurar condições contratuais que não penalizem a evolução de soluções próprias num mercado em que a publicidade de pesquisa continua a ser determinante.
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