Algumas pessoas saem de uma noite ao ar livre sem uma única picada; outras parecem servir de banquete, sem qualquer piedade.
Um estudo recente dos Países Baixos indica que a tua cerveja pode estar a inclinar a balança a favor dos mosquitos, sobretudo em noites quentes de verão, quando a pele fica mais exposta e a vigilância tende a baixar.
Quando a “hora do copo” vira a hora dos mosquitos (Anopheles)
Investigadores da Radboud University, em Nijmegen, quiseram perceber porque é que, em grandes eventos ao ar livre, os mosquitos parecem escolher determinadas pessoas. Em vez de um ensaio “limpinho” de laboratório, decidiram observar comportamentos reais no terreno: foram ao Lowlands music festival, nos Países Baixos.
Para isso, montaram um laboratório temporário dentro de contentores marítimos adaptados. Quase 500 voluntários aceitaram participar, respondendo a questões sobre higiene, alimentação, consumo de álcool e hábitos de sono durante o festival.
Depois veio a parte mais desagradável: cada participante colocou um braço num compartimento especial com fêmeas de mosquitos do género Anopheles, conhecidas por procurarem sangue humano. Um sistema de câmaras registou quantos mosquitos pousavam junto da pele exposta e quantos se dirigiam para um alimentador de açúcar colocado do lado oposto.
Em média, participantes que tinham bebido cerveja nas 12 horas anteriores foram 35% mais atrativos para mosquitos do que quem não bebeu.
Os resultados foram diretos: quem tinha consumido cerveja tinha 1,35 vezes mais probabilidade de atrair mosquitos do que quem não tinha bebido. Isto não significa que toda a gente que bebe cerveja acabe coberta de mordidelas - mas a probabilidade aumentou de forma clara.
Porque é que a cerveja parece “chamar” os mosquitos
O estudo, divulgado em agosto de 2025 no servidor de preprints bioRxiv, aponta a cerveja como um caso particular dentro das bebidas alcoólicas. Nesta investigação, outras bebidas - como o vinho - não mostraram uma associação tão forte com a atração de mosquitos.
O que poderá explicar esta diferença? Uma hipótese é que a cerveja altere sinais químicos e físicos à superfície do corpo. Trabalhos anteriores já sugeriam que o álcool pode mexer com a temperatura corporal, os odores da pele e a quantidade de dióxido de carbono (CO₂) que expiramos - um guia fundamental para os mosquitos nos localizarem.
A cerveja parece ajustar o “cheiro” e os sinais de calor do corpo de forma a dar aos mosquitos um alvo mais fácil.
O especialista em mosquitos Nigel Beebe, professor associado na University of Queensland, tem defendido que o consumo de álcool pode intensificar a “assinatura térmica” do corpo ao dilatar vasos sanguíneos próximos da pele. Esse calor extra, somado a alterações subtis nos compostos libertados pela pele, pode tornar-te mais detetável do que a pessoa ao lado.
Além disso, a cerveja contém açúcares e subprodutos da fermentação que podem influenciar o metabolismo e aquilo que o corpo excreta através do suor. A equipa neerlandesa sugere que a cerveja pode tornar o perfil de cheiro da pele e, indiretamente, o “alvo” sanguíneo um pouco mais apelativo - funcionando como um atrativo leve e involuntário.
Não é só cerveja: pistas de estilo de vida que os mosquitos seguem
Os investigadores não se ficaram pelas bebidas. Também analisaram rotinas típicas de festivais: uso de protetor solar, forma de dormir e hábitos gerais de higiene. A partir daí, começou a desenhar-se o perfil do “íman de mosquitos”.
Os mosquitos tenderam a preferir participantes que não usaram protetor solar, beberam cerveja e partilharam cama ou tenda durante o festival.
Segundo a equipa da Radboud, estas escolhas parecem influenciar o quão interessante uma pessoa se torna para os insetos. O estudo não diz que os mosquitos “procuram hedonistas”, mas os dados apontam para um padrão: comportamentos mais descontraídos e sociais frequentemente coincidem com condições que os mosquitos aproveitam.
Hábitos que podem aumentar (ou reduzir) o risco de picadas
Tanto este estudo como a literatura sobre mosquitos indicam que a probabilidade de seres picado resulta de uma mistura de fatores biológicos e comportamentais:
- Beber cerveja nas 12 horas anteriores
- Não aplicar ou não reaplicar protetor solar ou repelente
- Partilhar cama ou tenda, concentrando respiração (CO₂) e calor num espaço pequeno
- Atividade física elevada, gerando mais suor e mais CO₂
- Diferenças individuais de odor corporal, ligadas a bactérias da pele
A ideia popular do “sangue doce” é uma explicação simplista. Na prática, os cientistas focam-se muito mais nos compostos voláteis libertados pela pele, no padrão respiratório e no microclima de calor e humidade à volta do corpo.
O que isto significa para as tuas noites de verão
Embora a experiência neerlandesa tenha usado Anopheles, as implicações vão além de um único género. Muitos mosquitos recorrem a pistas semelhantes: seguem plumas de CO₂, odores cutâneos, calor corporal e humidade. Se a cerveja altera um ou vários destes sinais, o risco de seres escolhido pode subir - especialmente onde a densidade de mosquitos já é elevada.
Festivais, churrascos e esplanadas ao ar livre juntam vários ingredientes perfeitos: temperaturas altas, multidões, bebidas abertas e noites longas com roupa leve. E, muitas vezes, ainda há relva, zonas húmidas, tendas e pontos de água por perto, que podem servir de locais de repouso e reprodução.
| Fator | Efeito nos mosquitos | O que podes fazer |
|---|---|---|
| Consumo de cerveja | Observou-se até 35% mais atração | Reduzir as rondas, sobretudo mais tarde |
| Sem protetor solar ou repelente | Acesso mais fácil à pele e aos sinais de odor | Usar protetor solar de largo espetro e, em separado, repelente |
| Tenda ou cama partilhada | Mais CO₂ e calor num espaço pequeno | Ventilar e usar redes mosquiteiras quando possível |
| Atividade elevada | Mais suor e calor; odor mais marcado | Trocar de roupa e lavar o suor com regularidade |
Uma medida adicional muitas vezes esquecida, sobretudo em campismo: reduzir criadouros. Eliminar água parada (baldes, copos, caixas, dobras de lonas) e evitar deixar recipientes expostos pode não resolver tudo num festival, mas ajuda a baixar a pressão de mosquitos na zona imediata.
Outra nota útil para quem quer proteção consistente: escolher um repelente eficaz (por exemplo, com DEET, icaridina/picaridina ou PMD, conforme a idade e recomendações do rótulo) e reaplicá-lo quando necessário faz mais diferença do que depender apenas de “truques” caseiros. Se usares também protetor solar, aplica primeiro o protetor, deixa absorver e depois aplica o repelente.
Riscos de saúde que vão além da comichão
Em muitos contextos europeus e norte-americanos, as picadas significam sobretudo comichão e noites mal dormidas. Noutras regiões, o impacto é bastante mais sério. Mosquitos Anopheles podem transmitir malária; outros géneros, como Aedes e Culex, podem disseminar dengue, Zika, chikungunya, vírus do Nilo Ocidental e outras infeções.
Quando o álcool - incluindo a cerveja - diminui a atenção e abranda o tempo de reação, é mais provável não dares conta das picadas no momento em que acontecem. Isso pode aumentar o tempo de alimentação dos mosquitos e, onde há circulação de doença, elevar as oportunidades de transmissão.
A atração acrescida associada à cerveja não afeta apenas o conforto; em alguns países pode alterar o teu risco real de doenças transmitidas por mosquitos.
Para profissionais humanitários, militares ou viajantes que vão a eventos e festivais em zonas tropicais, este detalhe pode ser relevante: algumas bebidas, ausência de repelente e uma rede mosquiteira danificada podem somar riscos rapidamente em locais onde a malária ou o dengue são endémicos.
Dá para manter a cerveja e reduzir as picadas?
O estudo não defende que se elimine a cerveja da vida. O que faz é clarificar o que pode acontecer quando se combina álcool com ambientes cheios de mosquitos. Pequenas mudanças podem atenuar o efeito sem estragar os planos.
Medidas práticas para quem gosta de cerveja
Se já sabes que és “alvo fácil”, encara a cerveja como uma variável entre várias - e não como um detalhe inofensivo. Podes, por exemplo:
- Espaçar as bebidas em vez de fazer rondas rápidas
- Evitar consumo elevado de cerveja mesmo antes de dormir ao ar livre
- Usar um repelente dedicado e reaplicar durante noites longas
- Vestir roupa clara e de manga comprida nas horas de maior atividade, geralmente ao entardecer e início da noite
- Manter tendas, janelas e redes bem fechadas depois de escurecer
Nenhuma destas medidas “apaga” automaticamente o aumento de cerca de 35% observado no estudo, mas ajudam a compensar. A ideia é simples: se a cerveja aumenta um pouco o risco, roupa, repelente e boas condições de sono podem baixá-lo.
Porque é que algumas pessoas continuam a ser mais picadas do que outras
Mesmo antes da experiência no festival, já se sabia que os mosquitos não tratam todos os humanos da mesma forma. Genética, bactérias da pele, hormonas e até gravidez podem influenciar o número de picadas. Algumas pessoas libertam mais compostos que servem de “farol” para os mosquitos; outras têm microbiomas cutâneos que geram odores menos atrativos.
A cerveja parece acrescentar mais uma camada por cima dessas diferenças de base. Se já estás no topo da lista de preferências dos mosquitos, o álcool - e, em especial, a cerveja - pode tornar essa diferença ainda mais evidente em eventos de verão com muita gente.
Para quem acaba a noite coberto de vergões vermelhos enquanto os amigos parecem intocáveis, estes dados ajudam a preencher parte do puzzle: o que bebes, se usas protetor e repelente e onde dormes pode somar-se à tua biologia - e determinar quantas picadas levas quando a música acaba.
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