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Boas notícias para médicos, más para pacientes: hospitais lucram bilhões com exames desnecessários e ninguém sabe em quem confiar.

Médico consulta paciente numa sala com aparelho de ressonância magnética ao fundo.

As lâmpadas fluorescentes zumbem. Um homem de meia‑idade senta‑se na beira da cama, a bata de papel a estalar a cada movimento, os dedos apertados em volta do telemóvel. O médico acabou de pedir “mais alguns exames, só por precaução”. Ele acena com a cabeça. Que outra coisa poderá fazer? A mulher fica num canto, a deslizar o dedo por fóruns médicos, a esforçar‑se para não deixar transparecer o medo.

Mais tarde, chegam tabuleiros com tubos, uma segunda imagem, mais um especialista. Ninguém pronuncia a palavra “dinheiro”. Ninguém diz que aqueles exames podem não mudar nada. A factura aparece muito depois de a ansiedade abrandar - e vai falar mais alto do que todos os sorrisos tranquilizadores.

Nesse intervalo silencioso entre “vamos fazer uns exames” e “o seu seguro processou o pedido”, há um negócio discreto a crescer.

Quando o “só por precaução” vira modelo de negócio

Entre por um hospital moderno e é quase como se os equipamentos se apresentassem antes das pessoas: túneis reluzentes de ressonância magnética, aparelhos de TAC, analisadores de sangue empilhados como se fossem tecnologia espacial. Cada bip e cada ruído mecânico soam a avanço, a ciência a funcionar. E, ao mesmo tempo, soam a receita.

Os médicos aprendem cedo uma regra não escrita: pedir exames raramente dá problemas; falhar um diagnóstico, sim. Essa assimetria molda o comportamento real. Assim, quando a escolha é entre “vamos aguardar e ver” e “vamos fazer mais uma imagem”, já se sabe para onde tende a balança.

Do lado de quem está doente - ou com medo de estar - a resistência é pouca. Quem é que quer arriscar parecer imprudente com a própria saúde?

Só nos EUA, há estimativas que apontam para dezenas de milhares de milhões de dólares por ano a entrarem naquilo a que os economistas da saúde chamam, de forma polida, cuidados de baixo valor. Entram aí, por exemplo, imagiologia para dor lombar sem complicações, painéis laboratoriais diários em doentes estáveis, testes cardíacos em pessoas com risco extremamente baixo. Isoladamente, os valores podem parecer “aceitáveis”: 200 dólares aqui, 800 dólares ali.

Em escala nacional, estes momentos de “mais vale prevenir do que remediar” tornam‑se um rio de receitas. Uma análise de 2022 sugeriu que perto de 30% de certos exames comuns não trouxeram benefício relevante para o desfecho. Ainda assim, as contas dos hospitais agradecem. Muitos grandes grupos já dependem destes fluxos para tapar buracos orçamentais e financiar expansões.

O mais estranho é que, na maioria dos casos, isto é tecnicamente legal - protegido pela expressão “juízo clínico”. A linha entre boa medicina e excesso rentável é, muitas vezes, propositadamente difusa.

Se olhar por trás do pano, vê estruturas de incentivos a empurrar decisões sem grande barulho. Em sistemas de pagamento por acto, cada exame vira uma linha faturável, uma pequena vitória numa luta constante por sustentabilidade financeira. Médicos séniores sabem quais os serviços que precisam de “produção” para justificar máquinas novas. Ninguém envia um e‑mail a dizer “peçam mais TAC desnecessárias”; ainda assim, a mensagem chega.

E, por cima de tudo, paira a medicina defensiva como uma nuvem carregada. Um tumor que passou despercebido, um caso trágico, e uma carreira pode ficar em risco. Por isso, alguns clínicos inclinam‑se para testar mais - não apenas pelo doente, mas para construir uma proteção documental contra processos futuros.

O resultado é um cocktail desconfortável de medo, lucro e boas intenções a descarrilar.

Como os doentes podem orientar‑se num sistema em que já não confiam

Há uma pergunta simples que muda, de forma subtil, a dinâmica na consulta: “De que forma este exame vai alterar o que fazemos a seguir?” Dita com calma e sem tom acusatório, tira a conversa do piloto automático. De repente, o exame deixa de ser reflexo e passa a ter de justificar a sua utilidade.

Se a resposta for do género: “Se der positivo, avançamos com o tratamento A; se der negativo, seguimos o B”, isso é informação concreta. Se a explicação se perder em garantias vagas, também fica a saber algo importante. Não é preciso formação médica para perceber quando um exame está mais próximo do ritual do que da necessidade.

Outra frase que devolve algum controlo, sem transformar a visita numa discussão, é: “Podemos, com segurança, esperar e vigiar?” Muitas vezes, esperar e vigiar é uma opção clinicamente aceitável - e os próprios guias a apoiam em cenários específicos.

Em dias maus, a linguagem clínica parece um muro feito para manter o doente do lado de fora. Muita gente sai a acenar e a concordar, para só mais tarde perceber que não entendeu bem o que foi dito. Às 23h, no ecrã do telemóvel, blogues e fios do Reddit soam mais francos do que folhetos com linguagem polida.

Num plano humano, faz sentido. Quase todos já tiveram aquele momento em que chega uma conta de saúde e a pergunta surge de imediato: Como é que isto é sequer legal? O espaço entre “preocupamo‑nos consigo” e uma linha de quatro dígitos por um exame de 10 minutos gera uma raiva muito particular - e não desaparece de um dia para o outro.

Por isso, os gestos pequenos contam: pedir explicações em linguagem simples, repetir com as suas palavras o que entendeu, tomar notas, ou levar alguém que tenha mais à‑vontade para fazer perguntas diretas. Isto não é um ataque. É autoproteção num sistema capaz de consumir as poupanças até da pessoa mais confiante.

Um internista hospitalar resumiu assim:

“Nem todos os exames são pedidos por causa do doente à nossa frente. Às vezes são para o fantasma de um processo em tribunal, ou para o relatório trimestral do hospital. Se os doentes soubessem, perguntavam mais. E, sinceramente, deviam.”

Essa franqueza é rara em público e comum em privado. No meio disto, muitos profissionais estão tão presos quanto os seus doentes: veem o desperdício, veem a confusão, e veem administradores a acompanhar folhas de cálculo de “utilização de exames” como se fossem previsões do tempo.

Perguntas práticas para levar para a consulta (e reduzir cuidados de baixo valor)

  • Pergunte que decisões este exame vai realmente mudar.
  • Pergunte pelos riscos: falsos positivos, radiação, efeitos secundários.
  • Pergunte se esperar e vigiar é clinicamente seguro no seu caso.
  • Pergunte pela ordem de grandeza de custos antes de aceitar.
  • Pergunte se alguma recomendação clínica desaconselha este exame na sua situação.

Além disso, há duas estratégias que nem sempre são lembradas e podem ajudar muito: pedir uma segunda opinião quando a decisão é “cinzenta” (especialmente em situações não urgentes) e solicitar acesso ao seu processo clínico e resultados anteriores, para evitar repetições desnecessárias. Em muitos contextos, a repetição acontece por falhas de comunicação entre serviços - e o doente é quem paga, em tempo, ansiedade e dinheiro.

Também vale a pena conhecer iniciativas e recomendações públicas focadas em reduzir exames e tratamentos sem benefício - por exemplo, listas do tipo “escolhas criteriosas” (inspiradas em movimentos internacionais como o Choosing Wisely). Não substituem o médico, mas dão linguagem e referências para uma conversa mais equilibrada.

Quem merece confiança quando todos têm algo a perder?

Houve um tempo em que a confiança na saúde tinha um lado quase sagrado: o médico falava, o doente obedecia, e ninguém perguntava como é que o hospital fechava contas. Esse mundo já não existe. Recusas de seguradoras, cobranças inesperadas e histórias virais de paracetamóis a 15 dólares tornaram as pessoas desconfiadas - e com razão.

Apesar disso, no centro dessa suspeita, a maioria continua a querer acreditar que o seu médico está do seu lado. Essa tensão - confiança pessoal versus desconfiança do sistema - cansa. E ajuda a explicar porque é que tantos doentes concordam na consulta e depois passam a noite no TikTok ou no YouTube a tentar decidir se devem mesmo fazer os exames.

A verdade triste é que ambos os lados costumam estar assustados: os doentes com a doença e a dívida; os médicos com a reação pública e a culpa. Não é o melhor terreno para decisões serenas e racionais.

Ponto‑chave Detalhe Interesse para o leitor
Siga o dinheiro Os hospitais faturam milhares de milhões com exames de alto volume e cuidados de baixo valor Ajuda a perceber padrões em vez de ver apenas contas isoladas
Faça perguntas sobre impacto “Como é que este exame vai mudar o meu tratamento?” Dá um guião simples para usar em consultas reais
Decisões partilhadas Muitas orientações aceitam esperar e vigiar em determinados cenários Mostra quando é razoável abrandar e reavaliar

Perguntas frequentes

  • Todos os exames extra são automaticamente maus?
    Não. Alguns “extras” detetam problemas raros mas graves. O problema surge quando se pede por hábito, medo ou pressão financeira, sem benefício claro para si.

  • Como posso perceber se um exame é provavelmente desnecessário?
    Nem sempre dá para saber. Ainda assim, se grandes recomendações não o indicam para o seu caso, ou se o médico tem dificuldade em explicar como muda a sua abordagem, isso é um sinal de alerta.

  • Questionar exames não vai irritar o meu médico?
    Perguntas bem colocadas costumam mostrar envolvimento, não desrespeito. Um bom clínico aceita uma conversa curta sobre vantagens e desvantagens, mesmo com pouco tempo.

  • E se eu estiver ansioso e quiser fazer todos os exames possíveis?
    Esse impulso é humano. Mas mais exames também podem aumentar a ansiedade por via de falsos alarmes. Falar abertamente do medo pode ser mais útil do que perseguir todas as possibilidades.

  • Existe forma de evitar totalmente exames desnecessários?
    Não há sistema perfeito. O que pode fazer é abrandar o processo, fazer perguntas‑chave e insistir em decisões partilhadas - em vez de confiança cega ou recusa cega.

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