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O ADN revelou uma surpreendente descoberta sobre Cristóvão Colombo.

Cientista com luvas analisa documento antigo enquanto trabalha num laboratório de investigação genética.

Em 22 de fevereiro de 1498, Cristóvão Colombo - já na meia-idade e com as marcas de anos de navegação - deixou por escrito que o seu património na cidade portuária italiana de Génova deveria ser preservado para a família, “porque foi dali que vim e ali nasci”.

Para a maioria dos historiadores, esta declaração funciona como um registo direto e sem ambiguidades do seu local de nascimento. Ainda assim, ao longo do tempo, alguns investigadores levantaram dúvidas sobre a autenticidade do documento e admitiram a hipótese de existir uma história mais complexa por trás da origem do navegador.

Cristóvão Colombo, Génova e a reabertura do debate sobre a origem

Em outubro de 2024, uma investigação de longa duração coordenada pelo cientista forense José Antonio Lorente, da Universidade de Granada (Espanha), foi divulgada num programa especial emitido em Espanha para assinalar a chegada de Colombo ao Novo Mundo em 12 de outubro de 1492. A equipa apresentou argumentos a favor da ideia de que Colombo talvez não fosse de ascendência italiana, podendo ter nascido em Espanha, com ascendência judaica.

Apesar do impacto mediático, este tipo de divulgação exige prudência: quando não existe uma publicação científica com revisão por pares, torna-se difícil avaliar a robustez dos métodos, das amostras e das conclusões.

Antonio Alonso, antigo diretor do Instituto Nacional de Toxicologia e Ciências Forenses de Espanha, sublinhou essa limitação numa declaração ao El País, citada por Manuel Ansede e Nuño Domínguez: “Infelizmente, do ponto de vista científico, não conseguimos avaliar o que estava no documentário porque não apresentaram quaisquer dados da análise.” E acrescentou: “A minha conclusão é que o documentário nunca mostra o ADN de Colombo e, enquanto cientistas, não sabemos que análise foi realizada.

ADN antigo: o que pode (e não pode) esclarecer

Nos últimos anos, a história tem sido cada vez mais confrontada - e, por vezes, reforçada - por análises forenses a vestígios biológicos. Em teoria, o ADN pode abrir uma nova janela sobre relações familiares e origens geográficas, mas raramente oferece uma resposta simples sobre “onde nasceu” alguém, sobretudo quando falamos de mobilidade, diásporas e cruzamentos populacionais antigos.

Há ainda obstáculos técnicos típicos do ADN antigo: degradação das amostras ao longo dos séculos, risco de contaminação moderna, cadeias de custódia difíceis de reconstituir e margens estatísticas que precisam de ser explicitadas. Sem acesso a dados e metodologias, o público fica com conclusões sem a possibilidade de escrutínio independente.

A narrativa tradicional: Cristoforo Colombo e o caminho até Lisboa

Com base em interpretações de documentos da sua vida adulta, o homem conhecido em grande parte do Ocidente como Cristóvão Colombo teria nascido como Cristoforo Colombo.

A versão mais aceite situa o nascimento entre o fim de agosto e o fim de outubro de 1451, em Génova, a movimentada capital da região italiana da Ligúria, no noroeste da Itália.

Mais tarde, já jovem - na casa dos vinte anos - Colombo deslocou-se para oeste, até Lisboa, em Portugal, à procura de patrocinadores abastados que financiassem a sua proposta ousada: alcançar o Oriente por uma “via mais curta” navegando precisamente na direção oposta.

Embora a maioria dos historiadores considere sólidos os documentos judiciais que apontam para Génova como berço do navegador, há décadas que circulam especulações sobre uma origem alternativa.

Cristóvão Colombo e a hipótese judaica sefardita: rumores antigos, provas novas?

Um dos rumores mais persistentes sustenta que Colombo teria sido secretamente judeu, nascido em Espanha numa época de forte perseguição religiosa e de limpeza étnica. Quem defende esta hipótese costuma invocar alegadas estranhezas no seu testamento e leituras particulares da sintaxe presente em cartas atribuídas ao navegador.

Agora, segundo o que foi apresentado no programa televisivo, os genes poderiam acrescentar um novo tipo de indício.

Lorente e a sua equipa afirmaram que a análise do cromossoma Y e do ADN mitocondrial, obtidos a partir de restos mortais do filho de Colombo, Fernando, e do irmão, Diego, é compatível com uma herança espanhola ou judaica sefardita.

Isto, por si só, não exclui categoricamente Génova, nem identifica de forma conclusiva um único local de nascimento na Europa. Além disso, no final do século XV - precisamente quando Colombo realizava a sua viagem decisiva - judeus expulsos de Espanha procuraram refúgio em cidades italianas, incluindo Génova, embora poucos tenham conseguido fixar-se com sucesso.

Ainda assim, se as conclusões de Lorente tiverem mérito científico verificável, tornam mais difícil sustentar, sem reservas, uma origem estritamente italiana, e levantam a questão de como alguém com herança sefardita poderia ter nascido em Génova na década de 1450.

O que faltaria para a comunidade aceitar as conclusões

Para que estes resultados fossem amplamente aceites, seria necessário que fossem apresentados de forma detalhada e passassem por avaliação crítica - idealmente, com replicação convincente por equipas independentes.

E mesmo que a genética venha a inclinar a balança, a história de uma pessoa não se esgota no ADN. Permanece em aberto como alguém pertencente, total ou parcialmente, a um grupo perseguido poderia ter-se tornado - por circunstâncias políticas, sociais e económicas - numa figura associada à linha da frente da expansão espanhola.

Um ponto adicional, muitas vezes ausente do debate público, é a diferença entre origem genética, identidade cultural e trajetória biográfica. Em contextos de conversões forçadas, deslocações e assimilação, estas dimensões podem não coincidir, e é precisamente aí que a interpretação histórica continua indispensável.

Entre celebração e crítica: um legado longe de casa

Por agora, permanece a narrativa de um marinheiro italiano que chamou a atenção da realeza espanhola e que, por causa do impacto - involuntário, mas profundo - das suas viagens, passou a ser simultaneamente celebrado e contestado. E tudo isto aconteceu muito longe daquela “nobre e poderosa cidade à beira-mar” que ele próprio apontou como a sua casa: Génova.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em outubro de 2024.

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