A Teledyne FLIR Defense, empresa do sector da defesa, anunciou a assinatura de um contrato para fornecer o seu nano-drone Black Hornet 4 (BH4) às Forças Armadas Suíças. Em concreto, o BH4 será instalado a bordo do veículo blindado Piranha 8×8, passando a disponibilizar à guarnição uma capacidade “aérea e desmontável” de Intelligence, Surveillance, and Reconnaissance (ISR), sob a forma de sensor. A integração de drones em viaturas blindadas é uma capacidade recente que as forças militares latino‑americanas podem vir a ponderar; sobre este tema, Sissel Moe, Directora de Programas de UAS na Teledyne FLIR Defense, explicou à Zona Militar por que razão o BH4 se encaixa particularmente bem num veículo blindado.
Contrato com a armasuisse e integração com a Integrated Combat Solution (ICS)
A 2 de fevereiro, a empresa comunicou um contrato no valor de 17,5 milhões de dólares (USD) com a armasuisse, o Gabinete Federal Suíço de Aquisições de Defesa, para o fornecimento do Black Hornet 4, com instalação prevista nos Piranha. A integração será feita de acordo com normas militares harmonizadas e ligada à Integrated Combat Solution (ICS) das viaturas, fornecida pela Kongsberg Defence & Aerospace.
Como o Black Hornet 4 (BH4) opera a partir do Piranha 8×8
A partir do Piranha, o BH4 pode ser lançado manualmente, permitindo ao operador recolher informação e, ao mesmo tempo, partilhar os dados “em simultâneo com a tripulação”. Tirando partido da ICS da Kongsberg, a informação do BH4 pode ser usada para criar pontos de alvo para a estação de armas remotamente operada (Remote Weapon Station) do Piranha. O conjunto é igualmente totalmente destacável, o que permite que os militares desembarquem e voltem a ligar o sistema enquanto o drone permanece em voo.
As entregas começaram em 2025 e prolongam-se por 2026; a Zona Militar considera provável que sejam entregues centenas de sistemas BH4.
Discrição e portabilidade do nano-drone
Sissel Moe sublinhou que o Black Hornet 4 pesa “apenas cerca de 70 gramas e apresenta uma assinatura visual e eletromagnética muito reduzida”, o que facilita o transporte e o lançamento sem comprometer a discrição operacional.
Integração do Black Hornet 4 (BH4) em veículos blindados: requisitos e interfaces
Questionada sobre o que implica instalar o BH4 numa viatura blindada, Moe explicou que a integração física “passa sobretudo por cablagem, um concentrador (hub) para transmissão de energia e dados, e uma antena externa da viatura para comunicações por rádio”.
Segundo a responsável, a instalação do BH4 é viável quando o veículo “envia e recebe energia e dados (rede)”. Para comunicações de dados, o BH4 recorre a interfaces padrão - por exemplo, STANAG 4609 para vídeo em tempo real e cursor sobre o alvo para dados de posição e pontos de passagem (waypoints). Além disso, a viatura terá de dispor de “uma arquitectura digital capaz de receber e distribuir os dados do BH4 para as interfaces de utilizador relevantes”, como o ecrã do comandante ou os postos dos operadores da estação de armas.
Em termos práticos, isto significa que as forças da América Latina beneficiarão em discutir, caso a caso, as suas frotas de veículos blindados com a Teledyne FLIR Defense, para apurar quais os sistemas que conseguem operar o Black Hornet 4 com plena integração.
Por que motivo a América Latina pode beneficiar do BH4 nas suas frotas
A Zona Militar perguntou também por que razão a Teledyne FLIR Defense entende que os militares latino‑americanos podem ganhar ao adicionar o BH4 às suas frotas. Ben Grainger, director de vendas para a América Latina e Caraíbas, indicou que o BH4 foi ensaiado e validado em múltiplas zonas climáticas, incluindo ambientes de elevada humidade e regiões montanhosas, e que tem experiência comprovada tanto em cenários urbanos como em diferentes condições de selva.
Grainger acrescentou ainda que o Equador já adquiriu drones da Teledyne FLIR Defense, o que poderá levar Quito a considerar também a incorporação do nano-drone Black Hornet em veículos blindados, como os novos Otokar Cobra II 4×4.
Vantagens operacionais ao enfrentar cartéis e outros adversários
Grainger salientou que, além de ser praticamente silencioso e difícil de detectar durante o voo, lançar o Black Hornet a partir de uma viatura oferece vantagens críticas quando se opera contra cartéis ou outros adversários. Entre essas vantagens, enumerou:
- Protecção contra contra‑vigilância e fogo de armas ligeiras;
- Protecção contra explosivos largados por drones;
- Protecção contra engenhos explosivos improvisados em terra, cuja presença tem vindo a aumentar;
- Capacidade de recolher informação em tempo real sobre um alvo a uma distância segura, ajudando as equipas a planear com precisão antes de assaltar uma posição inimiga.
Veículos blindados na América do Sul: oportunidades e limitações de modernização
As forças militares sul‑americanas utilizam diversos modelos de veículos blindados. O Exército da Argentina está a receber Stryker dos Estados Unidos; o Exército do Brasil opera os Urutu e Guarani de produção nacional (e está a incorporar o veículo de combate italiano Centauro II 8×8); o Exército da Colômbia opera o LAV III; e o Peru anunciou a aquisição do transporte blindado de pessoal sul‑coreano K808 White Tiger. Outro país que adquiriu viaturas blindadas é o Equador, embora com plataformas mais leves do que o Piranha - em particular, o já referido Otokar Cobra II 4×4.
Apesar destes programas, nem tudo aponta para uma modernização rápida: na região continuam em serviço frotas herdadas e envelhecidas, algumas com várias décadas, como os M113 e os TAM VCTP da Argentina.
Da vigilância à “caça e abate”: tendência para configurações caçador‑assassino
A Zona Militar recordou recentemente o PERCH, um sistema portátil que pode ser instalado num carro de combate Abrams ou numa viatura Stryker, capaz de lançar uma munição vagueante desenvolvida pela AeroVironment. Essa solução dá ao carro de combate ou ao blindado uma capacidade aérea letal. Embora o Black Hornet 4 seja um nano-drone para missões ISR e não uma munição vagueante, o movimento é semelhante: a indústria de defesa está a apostar em soluções aéreas para alargar o leque de missões executáveis por veículos blindados.
Moe concordou com esta leitura e apontou uma “tendência clara para empregar drones em configurações coordenadas de ‘caçador‑assassino’”. Nesse contexto, uma plataforma dedicada ao papel de “caçador”, como o Black Hornet 4, “funciona em combinação com um veículo blindado, ou com drones FPV ou munições vagueantes, para localizar e identificar” alvos - e permitir a sua neutralização. Na perspectiva da empresa, o BH4 “está particularmente bem adaptado ao papel de caçador”, enquanto os veículos blindados podem assumir o papel de “assassino” quando o drone gera pontos de alvo que alimentam a estação de armas remotamente operada, tal como acontece com o BH4 nos Piranha suíços, concluiu Moe.
Considerações adicionais: formação, comunicações e emprego táctico
Para além da integração física e digital, a adopção de um nano-drone como o Black Hornet 4 em veículos blindados implica preparar procedimentos de treino e coordenação entre funções (condutor, comandante, operador de sensores e operador da estação de armas). Em unidades que já operam em ambientes urbanos e de selva, a padronização de perfis de voo, regras de partilha de imagem e ciclos de actualização de alvos pode fazer a diferença entre um ganho marginal e uma melhoria significativa da consciência situacional.
Outro ponto relevante é a gestão do espectro e a robustez das comunicações. A presença de uma antena externa e a necessidade de trocar dados com a arquitectura digital da viatura tornam essencial planear o emprego do BH4 com atenção a interferências, redundâncias e integração com redes de comando e controlo, sobretudo quando se pretende disseminar vídeo e coordenadas para vários utilizadores dentro da mesma plataforma.
Perspectiva: a América Latina seguirá o modelo suíço?
Resta saber se as forças militares latino‑americanas irão seguir o exemplo suíço e avaliar o Black Hornet 4 como forma de reforçar as capacidades dos seus veículos blindados, tanto ao nível da vigilância aérea como do potencial de letalidade através de integração com sistemas de armas.
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