A Europa ainda debate calendários para pôr fim aos motores de combustão, mas a China já traçou um caminho diferente: para Pequim, esta tecnologia continuará presente nos catálogos das marcas durante, pelo menos, as próximas duas décadas.
Essa orientação fica explícita no novo Roteiro Tecnológico 3.0 para Veículos de Poupança de Energia e de Novas Energias, preparado pela China Society of Automotive Engineers (CSAE). O documento assume que, mesmo em 2040, o motor de combustão interna manterá um peso considerável no maior mercado automóvel do planeta.
Motores de combustão na China: o Roteiro Tecnológico 3.0 da CSAE até 2040
Segundo este plano estratégico, que serve de referência para a indústria automóvel chinesa até 2040, os veículos com motor de combustão - incluindo híbridos, híbridos com carregamento externo e elétricos com extensor de autonomia - deverão representar cerca de um terço das vendas de automóveis nesse ano. No caso dos veículos comerciais ligeiros, a divisão prevista é equilibrada, numa proporção 50/50.
Esta opção tem implicações directas na forma como fabricantes e fornecedores planeiam investimento e capacidade industrial. Ao manter espaço para diferentes arquitecturas de propulsão, a China procura reduzir o risco de uma transição demasiado abrupta, protegendo competências, emprego especializado e a continuidade de cadeias de fornecimento que ainda dependem de componentes ligados à combustão.
Ao mesmo tempo, a estratégia sugere uma transição em camadas: a electrificação avança, mas a coexistência com soluções híbridas facilita a adaptação a realidades distintas de utilização, desde grandes centros urbanos a regiões onde a infraestrutura energética e de carregamento pode evoluir a ritmos diferentes.
Elétricos, sim - mas híbridos são fundamentais
Como meta intermédia, o roteiro estabelece que, em 2035, todos os veículos com motor de combustão deverão ser híbridos, abrangendo igualmente os comerciais ligeiros. Já em 2040, no cenário mais favorável, os veículos elétricos deverão alcançar 80% do mercado.
Estes objectivos contrastam com a trajectória definida na Europa, onde se mantém como prioridade a eliminação quase total do motor de combustão. Essa abordagem é apresentada como essencial para cumprir a nova meta europeia: reduzir em 90% as emissões dos automóveis até 2035.
De acordo com Zhang Jinhua, presidente da CSAE, o rumo chinês pretende traduzir uma leitura mais pragmática da transição energética. A electrificação, a diminuição de emissões e a digitalização continuam a acelerar, mas sem colocar em causa a estabilidade industrial, a rede de fornecedores ou a competitividade internacional das marcas chinesas.
Plano chinês não descarta energias
O Roteiro Tecnológico 3.0 corresponde à terceira actualização do documento que define metas para a indústria automóvel da China: a primeira edição surgiu em 2016 e voltou a ser revista em 2021. A prioridade mantém-se nos veículos 100% elétricos, mas com uma implementação progressiva e faseada.
Um ponto-chave deste documento é a confirmação de que, até 2035, todos os automóveis de passageiros equipados com motor de combustão terão de ser parcialmente eletrificados. Em vez de desaparecer, o motor de combustão é reposicionado: passa a operar em conjunto com sistemas eléctricos, contribui para baixar emissões e continua a ser visto como um activo industrial e tecnológico - um desfecho que, na Europa, tem sido repetidamente afastado.
Emissões, indústria e digitalização: metas até 2040
O plano chinês destaca ainda um indicador considerado determinante: as emissões totais de carbono da indústria automóvel da China deverão atingir o pico já em 2028, com a expectativa de que caiam mais de 60% até 2040.
Essa redução não dependerá apenas do veículo final. O documento aponta para uma transformação profunda dos processos industriais, sustentada por uma aposta forte em fabrico inteligente, integração de dados e diminuição da intensidade carbónica por veículo ao longo da cadeia de produção.
Condução autónoma: níveis 4 e 5 no horizonte
No domínio da condução autónoma, a ambição é igualmente inequívoca. A China prevê a massificação de veículos de nível 4 - já capazes de operar de forma totalmente autónoma em cenários definidos - até 2040, e antecipa que as primeiras utilizações comerciais de nível 5 comecem a surgir perto dessa data.
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