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Ferrari 296 Speciale está à altura do nome?

Carro desportivo vermelho Ferrari 296 speciale estacionado em espaço interior moderno.

A ambição era clara: transformar o Ferrari 296 Speciale no Ferrari mais divertido de sempre em circuito, sem o tornar um bicho impossível de usar na estrada. Pelo que senti, a Ferrari acertou em cheio.


Conduzi um superdesportivo acabado de chegar e que, na prática, já está esgotado: toda a produção prevista tem dono. É o efeito Ferrari - e diz muito sobre este novo Ferrari 296 Speciale, que recupera um nome usado pela última vez no 458 Speciale, o auge dos V8 atmosféricos de Maranello.

Não dá para prever se o 296 Speciale vai conquistar o mesmo estatuto lendário, mas uma coisa é certa: a Ferrari não facilitou. Face ao 296 GTB, as alterações são profundas - e depois de o termos apresentado em vídeo aquando da revelação, em maio passado, chegou a altura de voltar ao essencial: como é, de facto, conduzi-lo… e pilotá-lo.

Dois 296 Speciale, duas personalidades

Na realidade, foram dois carros diferentes.

  • Em estrada (cerca de duas horas), conduzi um 296 Speciale com suspensão semiativa Magnaride, que inclui função de elevação do eixo dianteiro para evitar raspar em lombas e em entradas/saídas de parques.
  • Em Fiorano (cerca de dez voltas), o carro estava equipado com suspensão Multimatic (amortecimento fixo), molas de titânio, menos peso e uma afinação mais “seca”, além de jantes de fibra de carbono (opção a rondar os 25 mil euros).

Entrar é fácil, mas o cinto não perdoa

Apesar da altura reduzida, a entrada no habitáculo é simples… até chegar a parte do cinto de quatro pontos, que dá trabalho a colocar e a ajustar.

No carro mais “civilizado”, os bancos são mais confortáveis para o quotidiano: suficientemente largos e com bom apoio lateral. Já o de Fiorano usava bancos tipo baquet com estrutura em fibra de carbono, coerentes com o menor isolamento acústico do interior.

No topo do aro do volante há uma faixa de luzes que vai acendendo progressivamente entre as 6200 rpm e o regime de corte, pouco depois das 8500 rpm. Ainda assim, não chega a ser “tudo” o que o volante faz.


Tudo no volante e tudo num ecrã

Quase todas as funções estão concentradas no volante: piscas, limpa-para-brisas e até comandos de climatização. Existem ainda dois seletores rotativos:

  • Um para os modos de condução: Molhado, Desportivo, Corrida, controlo de tração desligado e controlo de estabilidade desligado.
  • Outro (à direita) para a gestão da energia e estratégia da bateria: Elétrico, Híbrido, Desempenho e Qualificação.

E aqui entra uma escolha muito Ferrari: não existe ecrã central. Toda a informação aparece no painel digital diante do condutor (com um ecrã digital estreito à frente do passageiro). Num carro destes, entende-se a opção, mas há um inconveniente óbvio: se o painel estiver ocupado com algo menos “de pista”, como o navegador da Google, ficam de fora dados de desempenho, comportamento, telemetria e afins.

A arrumação é praticamente inexistente - sem bolsas nas portas e sem porta-luvas - pelo que a solução realista é simples: levar um casaco com bolsos e colocá-lo atrás do seu banco, se o lugar do passageiro estiver ocupado.

Pontos positivos: a visibilidade traseira é bastante aceitável e os pedais estão bem espaçados. Isso ajuda a ganhar confiança nos primeiros quilómetros em estrada, no percurso entre Maranello, Modena e arredores.


880 cv no Ferrari 296 Speciale… mas não a toda a hora

A manhã acordou com chuva, por isso o primeiro contacto teve de começar no modo Molhado. Nessa configuração, os sistemas eletrónicos (tração e estabilidade) estão mais atentos e intervêm mais cedo - e, nestas condições, é exatamente o que se quer.

À medida que o piso foi secando, e sempre que o trânsito e o policiamento (naturalmente tolerante nesta região-berço de Ferrari, Lamborghini e Maserati) deixaram, ficou claro o quão “telepática” é a direção: ultraprecisa e com apenas 1,75 voltas entre batentes. Curiosamente, a resposta não muda de modo para modo.

Rafaele De Simone explica o motivo: a Ferrari quer que o condutor/piloto ganhe confiança com uma resposta consistente dos principais interfaces - direção, mapeamento do acelerador e travões - que não variam.

O que varia é a potência máxima disponível em aceleração a fundo, que depende do modo de condução e também da energia regenerada. Os 880 cv, por exemplo, só ficam integralmente disponíveis no modo Qualificação - e mesmo aí por tempo limitado, até que a bateria precise de recuperar carga.

A lógica é recarregar sempre que possível para gastar essa energia quando realmente faz diferença. Sem o ter planeado, confirmei-o no final do trajeto: depois de 120 km em estrada, entrei pelos portões míticos de Fiorano com os 25 km de autonomia elétrica disponíveis.

Elétrico: para silêncio, cidade e impulso extra

A componente elétrica - que pode ser forçada em modo Elétrico - serve para: - arrancar sem acordar a vizinhança, - pequenos percursos urbanos, - situações em que apetece ser discreto, - e, claro, para o impulso adicional em cooperação com o motor a gasolina.

Em modo elétrico, a velocidade máxima indicada é 135 km/h.


Elevação dianteira: útil, mas ainda não é automática

Só é pena ainda não existir um sistema de elevação automática do nariz. De Simone admite a utilidade: sim, faria sentido e poderá vir a acontecer, mas o desafio é não aumentar o peso.

Na prática, torna-se chato estar sempre a carregar no botão para elevar a frente e confirmar que continua levantada até à próxima lomba (muito comuns em Modena), até porque aos 35 km/h o carro baixa automaticamente.


Ferrari 296 Speciale em pista: aqui sente-se em casa

Em Fiorano, já ao volante do Speciale com suspensão Multimatic, percebe-se que o carro se sente no seu habitat: deixa de “tentar” acomodar irregularidades para as quais não foi desenhado. Em pista, o arranque faz-se em Desempenho - porque num circuito ninguém quer silêncio.

A eficácia é difícil de traduzir em palavras e resulta também de um dado crítico: mais 70% de carga aerodinâmica à frente, para controlar tendências de sobreviragem num Ferrari que é, ao mesmo tempo, o mais potente de tração traseira de sempre em produção em série. E com um equilíbrio de massas claramente traseiro: 40% à frente e 60% atrás.

Mais carga aerodinâmica, mais potência e afinação global convergem num resultado que De Simone resume assim: este é o Ferrari com o melhor momento polar de inércia (a resistência de um corpo à torção em torno de um eixo).

Com 880 cv e 800 Nm (com uma curva de binário quase plana entre as 3000 rpm e as 7000 rpm), é natural que as acelerações sejam violentas: - 0–100 km/h: 2,8 s - 0–200 km/h: 7,0 s (7,3 s na versão descapotável) - Face ao 296 GTB, é meio segundo mais rápido até 100 km/h e oito décimas mais rápido até 200 km/h. - É ainda 60 kg mais leve, com melhor relação peso/potência: 1,6 kg/cv vs 1,76 kg/cv. - Velocidade máxima: “superior a 330 km/h”.


Travagem “à prova de distrações”

Quando se fala de travagem, a Porsche costuma ser a referência, mas este ABS Evo da Ferrari não fica atrás. A resposta é limpa e confiante.

Permite entrar em curva com o carro ligeiramente descomposto e, ainda assim, travar muito forte enquanto se estende a travagem até ao ponto de corda. Depois, dá para modular a pressão: aliviar o pedal apenas o suficiente para manter carga à frente, ganhar velocidade de entrada e contar com uma carroçaria estável para preservar a previsibilidade da trajetória.

Também a fusão entre travagem regenerativa e travagem por fricção está muito bem calibrada: o pedal esquerdo mantém-se pronto, linear e potente.

As mudanças de caixa são “musculadas” e consistentemente rápidas. E com o tal reforço elétrico a apimentar tudo, o impulso adicional à saída das curvas chega ao ponto de nos apanhar desprevenidos - mesmo quando já achávamos que o carro tinha mostrado tudo.

O retrato final da competência dinâmica fica no cronómetro de Fiorano: 1 min 19,0 s. São menos 2 segundos do que o 296 GTB e menos 4,5 s do que o 458 Speciale, igualando o tempo do SF90 Stradale. O F80 segura o recorde com 1 min 15,3 s.


Preço elevado não assusta - e a exclusividade faz o resto

Em Portugal, o Ferrari 296 Speciale começa nos 528 mil euros - mas boa sorte a encontrar um para encomendar. Os cerca de dois anos de produção previstos para esta versão especial foram avidamente absorvidos por clientes “ativos”. Não foi preciso ir à caça de compradores: o carro vendeu-se sozinho.

O aumento de preço face ao 296 GTB é enorme e, sim, a Ferrari não levou o foco de pista tão longe quanto a Porsche levou no 911 GT3 RS (992). É difícil defender a compra com argumentos frios - mas neste patamar, a racionalidade raramente manda.

Visto assim, este 296 Speciale é, de facto, mais… especial.


O que muda na vida real (e em Portugal)

Num país onde as estradas nem sempre são amigas de carros muito baixos, a função de elevação dianteira é mais do que um “extra simpático”: passa a ser uma ferramenta diária, sobretudo em zonas urbanas com lombas agressivas, rampas de garagem e passeios elevados. No entanto, o facto de a elevação não ser automática e baixar aos 35 km/h obriga a uma atenção constante - algo que se torna cansativo fora de um contexto de passeio descontraído.

Também vale a pena pensar no lado prático da tecnologia híbrida: a autonomia elétrica anunciada (os tais 25 km) não é “o carro elétrico do dia a dia”, mas é suficiente para deslocações curtas e silenciosas, e para gerir o desempenho quando interessa. Em utilização real, a forma como o carro alterna entre regeneração e descarga de energia acaba por influenciar diretamente a sensação de disponibilidade do conjunto - sobretudo se se procurar repetidamente o máximo desempenho.


Veredito - Ferrari 296 Speciale

O 296 Speciale cumpre a promessa de ser mais afiado, mais expressivo e mais eficaz do que o 296 GTB, sem perder por completo a capacidade de circular em estrada. Em pista, a sensação é a de um produto profundamente refinado: aerodinâmica funcional, travões de referência, direção de bisturi e uma componente híbrida que acrescenta intensidade quando a bateria está no ponto.

A exclusividade e o preço colocam-no fora do alcance da maioria, mas, no universo Ferrari, o 296 Speciale faz sentido precisamente por isso: é uma versão que não pede justificações, pede compromisso.


Especificações técnicas

Item Ferrari 296 Speciale
Potência máxima 880 cv (total disponível integralmente no modo Qualificação)
Binário máximo 800 Nm
Curva de binário Quase plana entre 3000 rpm e 7000 rpm
Regime de referência (luzes no volante) De 6200 rpm até ao regime de corte (pouco depois de 8500 rpm)
Tração Traseira
Distribuição de peso 40% / 60% (frente / trás)
Direção 1,75 voltas entre batentes
0–100 km/h 2,8 s
0–200 km/h 7,0 s (versão descapotável: 7,3 s)
Velocidade máxima Superior a 330 km/h
Diferença face ao 296 GTB -60 kg, melhor relação peso/potência (1,6 kg/cv vs 1,76 kg/cv)
Autonomia elétrica indicada 25 km
Velocidade máxima em modo elétrico 135 km/h
Suspensão testada em estrada Magnaride semiativa + elevação dianteira
Suspensão testada em pista Multimatic (fixa) + molas de titânio
Jantes de fibra de carbono Opcional, cerca de 25 000 €
Tempo em Fiorano 1 min 19,0 s
Preço em Portugal (a partir de) 528 000 €
Produção prevista Cerca de 2 anos (já esgotada)

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