A 3 de janeiro começa mais uma edição do Dakar, mas hoje vale a pena voltar a 1988, quando a prova ainda respondia pelo nome Paris-Dakar e alguém decidiu tentar o impensável: ganhar um rali destes… ao volante de um camião.
Jan De Rooy e o super-DAF no Paris-Dakar de 1988
O protagonista desta história é Jan De Rooy e o seu super-DAF - um projecto tão radical que acabaria por oferecer um dos momentos mais marcantes de toda a história do Dakar.
Para perceber o impacto, basta imaginar a cena: Ari Vatanen, aos comandos do Peugeot 405 Turbo 16, vê-se ultrapassado por um camião bimotor com 1200 cv, lançado a mais de 200 km/h. Mesmo para uma época de excessos, era algo que parecia desafiar o bom senso.
Como é que isto foi possível?
A explicação está no contexto. Eram os anos 80: uma década em que os regulamentos deixavam espaço a soluções quase sem limites, desde que houvesse criatividade - e orçamento. Foi o tempo dos Grupo B e dos Fórmula 1 Turbo, com potência a transbordar e electrónica ainda longe do nível de controlo e segurança actuais.
Nesse ambiente, a pergunta surgiu quase naturalmente: se os carros podiam ser tão extremos, porque não construir um camião capaz de lhes fazer frente no Dakar?
DAF 95 Turbo Twin (X1 e X2): a ambição levada ao limite
A resposta materializou-se nos DAF 95 Turbo Twin (X1 e X2), o símbolo máximo dessa ideia: um “super-camião” concebido para atacar o deserto com uma velocidade que, até então, parecia reservada às equipas de automóveis.
O resultado foi espectacular - e, ao mesmo tempo, um aviso sobre até onde se pode esticar a corda quando potência e velocidade avançam mais depressa do que as medidas de segurança.
O preço da velocidade e o fim de uma era
Essa ambição acabaria por terminar de forma trágica pouco tempo depois. Um dos DAF “voou” a mais de 180 km/h ao atingir uma duna, capotou seis vezes e o acidente provocou a morte de Kees van Loevezijn, navegador.
Foi, na prática, o ponto final para estes super-camiões e para a ideia de velocidades sem limites no Dakar.
O legado: quando o Dakar mudou de prioridade
Além de ter ficado como imagem icónica para fãs e pilotos, este capítulo ajudou a cimentar uma mudança inevitável: a prova teria de equilibrar desempenho com segurança. A partir daí, o debate sobre limites, controlo e enquadramento regulamentar tornou-se impossível de ignorar.
E é precisamente por isso que o super-DAF de Jan De Rooy continua a ser lembrado: não apenas pela velocidade absurda, mas por ter marcado uma fronteira clara entre a ousadia técnica e o risco real no coração do Dakar.
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