A discussão repete-se. À semelhança do que aconteceu em 2024, o Reino Unido voltou a falhar em 2025 a meta de quota de elétricos definida pelo Governo britânico.
Ao contrário da União Europeia (UE), que pressiona os construtores sobretudo através de metas de redução de emissões de CO₂, a abordagem britânica é mais direta: impõe quotas mínimas de vendas de veículos elétricos, que aumentam ano após ano até chegarem aos 100% em 2035.
Com o mercado de 2025 fechado, a fasquia estava nos 28%, mas a quota efetivamente alcançada ficou-se pelos 23,4% - o equivalente a 473 340 automóveis elétricos vendidos, de acordo com a Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT).
Apesar de se tratar de um recorde anual de vendas de elétricos no Reino Unido, o resultado ficou ainda assim a mais de 90 mil unidades do objetivo estabelecido.
Este desempenho ocorreu num ano em que o mercado britânico de carros novos voltou a crescer: em 2025 foram vendidos 2 020 373 veículos, o terceiro ano consecutivo de subida (+3,5%) e o melhor registo desde a pandemia. Ainda assim, o total continua abaixo das 2,3 milhões de unidades comercializadas em 2019.
Metas de quota de elétricos: por que motivo são insustentáveis, segundo a SMMT
Mike Hawes, diretor-executivo da SMMT, reconhece que a procura por veículos elétricos está a aumentar, mas sublinha que o ritmo não chega para cumprir as metas oficiais.
Segundo o responsável, para tentarem aproximar-se das quotas de vendas impostas, os fabricantes têm recorrido a descontos muito agressivos, que classifica como financeiramente incomportáveis. O impacto estimado ronda os cinco mil milhões de libras (cerca de 5,7 mil milhões de euros ao câmbio atual), o que corresponde a aproximadamente 11 mil libras (12 700 euros) por cada elétrico vendido - um cenário semelhante ao verificado em 2024.
Tudo isto acontece num contexto em que, até aqui, o Reino Unido não oferecia incentivos diretos à compra de automóveis elétricos. Esse quadro altera-se este ano com a entrada em vigor de um programa de subsídios no valor total de 1,3 mil milhões de libras (aprox. 1,4 mil milhões de euros).
Hawes considera que “o aumento da adoção de veículos elétricos é inegavelmente positivo”, mas insiste que “a velocidade continua demasiado baixa e o custo para a indústria demasiado elevado”, sobretudo tendo em conta que a quota sobe para 33% este ano.
Multas no mandato ZEV
O mandato ZEV prevê penalizações significativas para os construtores que falhem as quotas de vendas de elétricos. Em 2024, a multa era de 15 mil libras (cerca de 17 329 euros) por cada veículo vendido abaixo da quota definida.
Para além do preço de aquisição, a transição também é travada por fatores práticos: a disponibilidade de carregamento, a previsibilidade de custos e a confiança do consumidor na evolução das regras. Sempre que o enquadramento muda (ou parece poder mudar), muitos compradores acabam por adiar decisões, especialmente num mercado em que o financiamento e o valor residual continuam a pesar na escolha.
A pressão é ainda maior para quem depende da rede pública. Quando o carregamento fora de casa é caro ou pouco conveniente, a vantagem económica do elétrico reduz-se - e a adoção tende a concentrar-se em utilizadores com garagem e tomada, deixando uma parte significativa do mercado para trás.
Flexibilização das regras do mandato ZEV no Reino Unido
Perante as dificuldades em cumprir as metas, o Governo britânico anunciou no ano passado ajustes ao mandato ZEV.
Mantém-se o objetivo de terminar com a venda de automóveis exclusivamente a gasolina ou gasóleo até 2030, mas passa a ser permitido que híbridos, híbridos de ligação à tomada e veículos comerciais com motor de combustão continuem a ser vendidos até 2035.
Além disso, o sistema de créditos de acumulação e antecipação (que permite guardar créditos para anos seguintes ou “trazer” créditos de anos futuros para cumprir metas) foi prolongado de 2026 para 2030 e passa a admitir transferências entre veículos ligeiros e veículos comerciais. Em síntese, as principais medidas incluem:
- Manutenção do fim das vendas de carros exclusivamente a gasolina ou gasóleo até 2030.
- Possibilidade de vender híbridos, híbridos de ligação à tomada e comerciais a combustão até 2035.
- Extensão do sistema de créditos de acumulação e antecipação até 2030.
- Permissão de transferência de créditos entre categorias (ligeiros e comerciais).
Sinais contraditórios para consumidores e indústria
Mesmo com esta maior flexibilidade, a SMMT avisa que as mensagens políticas podem estar a tornar-se incoerentes, levando alguns consumidores a hesitar na mudança para os 100% elétricos.
Foi, por exemplo, anunciado um novo imposto para veículos elétricos que os irá taxar em função da distância percorrida - por quilómetro - a partir de 2028, com o objetivo de compensar a quebra de receita dos impostos sobre os combustíveis.
Em Londres, os elétricos também passaram a pagar a taxa de congestão para entrar na cidade, deixando de beneficiar da isenção em vigor desde 2003, ano em que a medida foi criada. Ao mesmo tempo, o custo elevado do carregamento público continua a ser apontado como um obstáculo relevante para acelerar a eletrificação.
Na leitura do diretor-executivo da SMMT, “o governo interveio com subsídios para carros elétricos, mas medidas como este novo imposto e taxas adicionais enviam sinais contraditórios”.
A associação apela ao Governo para garantir que o mercado britânico permanece atrativo para investimento e capaz de apoiar consumidores, indústria e economia. E, perante o que se passa noutros países, pede rapidez na resposta: o executivo, diz a SMMT, deve antecipar a revisão das políticas e agir depressa para criar “um mercado dinâmico, uma indústria sustentável e uma proposta de investimento” que mantenha o Reino Unido competitivo à escala global.
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