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O Perseverance chega a Bright Angel e encontra “rocha pipoca” no Cráter Jezero

Rover espacial a explorar um terreno árido com rochas e dunas ao longe num ambiente marciano.

O rover Perseverance da NASA deixou para trás o Monte Washburn e atingiu o seu próximo ponto de interesse, Bright Angel. À chegada, identificou um tipo invulgar de rocha a que os cientistas estão a chamar “rocha pipoca”, mais um indício de que, em tempos, existiu água no Cráter Jezero.

Porquê o Perseverance está no Cráter Jezero, em Marte antigo

A missão do Perseverance está focada em perceber se houve vida em Marte antigo. Para além de procurar sinais fossilizados de vida passada, o rover está a caracterizar e a tentar compreender ambientes que poderiam ter sido habitáveis.

É precisamente por isso que opera no Cráter Jezero: uma antiga paleolagoa (um lago já desaparecido), com um delta de sedimentos e outras estruturas geológicas particularmente apelativas para investigação.

Bright Angel (Sol 1175): um troço do canal que alimentou Jezero

No Sol 1175 (dia marciano 1175) da missão, o Perseverance entrou em Bright Angel, uma zona cientificamente relevante inserida no canal fluvial que, outrora, descarregava água para o Cráter Jezero.

Bright Angel destaca-se por afloramentos de rocha de tonalidade clara. Estas rochas poderão ser sedimentos antigos que preencheram o canal ou, em alternativa, rocha muito mais antiga que ficou exposta pela erosão e actividade do próprio rio.

A imagem que acompanhava o trajecto (não incluída aqui) mostrava o caminho do rover até Bright Angel: a zona a branco assinalava onde o Perseverance seguiu em paralelo ao canal de Neretva Vallis, e a zona a azul indicava o segmento em que circulou pelo interior do canal. As rochas claras de Bright Angel eram visíveis de forma evidente.

Um percurso difícil: pedregulhos, dunas e as limitações do AutoNav

À medida que avançava na direcção de Bright Angel, a equipa da missão já conseguia observar as rochas claras ao longe - mas chegar lá revelou-se mais complicado do que o previsto. O rover encontrou um campo de grandes blocos rochosos tão exigente que os operadores optaram por alterar a rota.

“Começámos a seguir o canal em paralelo no final de Janeiro e estávamos a avançar bem, mas depois os pedregulhos tornaram-se maiores e mais numerosos”, explicou Evan Graser, adjunto do responsável pelo planeamento estratégico de rotas do Perseverance no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, no sul da Califórnia.

“O que eram deslocações com médias superiores a 100 metros por dia marciano passaram para apenas dezenas de metros. Foi frustrante.”

O Perseverance dispõe de dois modos de deslocação. Em terreno mais agreste, a equipa planeia o trajecto com base em imagens, definindo o percurso em passos de cerca de 30 metros de cada vez. Para cobrir distâncias maiores num único sol, recorrem ao modo de piloto automático do rover, o AutoNav.

Contudo, à medida que o campo de blocos se tornava mais hostil, o AutoNav passou a ter dificuldades. Em alguns momentos, o sistema optava por parar - uma decisão prudente do ponto de vista de segurança - mas isso significava que a chegada a Bright Angel estava a demorar muito mais do que o esperado.

“Íamos observando o canal a norte e esperávamos encontrar um troço onde as dunas fossem pequenas e suficientemente afastadas para o rover passar entre elas - porque as dunas já são conhecidas por ‘engolirem’ rovers em Marte”, acrescentou Graser.

“O Perseverance também precisava de uma rampa de entrada por onde pudéssemos descer em segurança. Quando as imagens mostraram as duas condições, apontámos directamente para esse ponto.”

O rover foi então reencaminhado através do campo de dunas e atravessou o canal fluvial, encurtando o trajecto em várias semanas.

Nota adicional: em Marte, o risco das dunas não é apenas ficarem “no caminho”. A areia solta pode reduzir drasticamente a tracção, aumentar o desgaste e, em cenários extremos, imobilizar o veículo - por isso, a navegação segura tenta equilibrar distância, risco e consumo de tempo.

O fim da quarta fase científica e a expectativa de encontrar rochas diferentes

O Perseverance está a aproximar-se do encerramento da sua quarta fase científica. Até aqui, tem procurado rochas carbonatadas e olivina na Unidade Marginal (Margin Unit), localizada ao longo da zona interior da borda do Cráter Jezero. Em Bright Angel, porém, a expectativa era encontrar litologias distintas das observadas nessa unidade - e foi exactamente isso que aconteceu.

De acordo com um comunicado de imprensa da NASA, os geólogos ficaram fascinados com o que viram. Algumas rochas apresentam-se densamente preenchidas por pequenas esferas, uma textura que lhes valeu o apelido de “rochas pipoca”.

“Rocha pipoca” e veios minerais: pistas de água a circular nas rochas

Além das esferas, estas rochas exibem numerosas cristas e feições que lembram veios minerais. Veios formam-se quando a água transporta minerais através de fracturas na rocha e, ao longo do tempo, os deposita.

Na Terra, veios minerais são frequentes em ambientes húmidos e ricos em água, e os rovers já identificaram estruturas semelhantes noutras regiões de Marte.

As feições do tipo “pipoca” também podem constituir evidência adicional de água: tal como os veios, sugerem que a água circulou no interior destas rochas, alterando a sua textura e composição.

Contexto adicional: rochas com sinais de circulação de fluidos são especialmente relevantes porque podem preservar registos químicos do ambiente antigo - incluindo condições de pH, salinidade e disponibilidade de certos elementos - factores cruciais para avaliar habitabilidade.

O que se segue: identificar minerais, abrasão e análises com a SuperCam

O próximo passo passa por determinar que minerais compõem estas “rochas pipoca”. O Perseverance irá progredir ao longo de Bright Angel, efectuando medições ao longo do caminho.

Durante o fim-de-semana, deverá usar a sua ferramenta de abrasão e outros instrumentos para observar a rocha de forma mais próxima. O plano inclui vaporizar uma pequena porção do material e recorrer ao conjunto de instrumentos da SuperCam para analisar a química das rochas.

A decisão de recolher uma amostra - com vista a um eventual regresso à Terra - dependerá dos resultados dessas análises.

Depois de Bright Angel: rumo a Serpentine Rapids, via Neretva Vallis

Concluídos os trabalhos em Bright Angel, o Perseverance deverá deslocar-se novamente para sul, atravessando Neretva Vallis, em direcção ao próximo destino: Serpentine Rapids.

Este artigo foi originalmente publicado por Universo Hoje. Leia o artigo original.

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