Um palco cheio de adolescentes no TNSJ, no Porto
“Visitações: Manuel António Pina” volta a mobilizar, neste fim-de-semana, mais de uma centena de adolescentes de 14 nacionalidades na cidade do Porto.
“"Isto oscila entre o prazer total e o caos absoluto."” Assim descreve Manuel Tur o desafio de trabalhar em ensaio com 110 jovens, entre os 12 e os 18 anos, para o espetáculo “Visitações: Manuel António Pina”, que chega ao palco do Teatro São João (TNSJ) este sábado e domingo.
A 8.ª edição de “Visitações” e a homenagem a Manuel António Pina
Na 8.ª edição do projeto “Visitações” - fruto do compromisso entre o Centro Educativo do TNSJ e os clubes de teatro de várias escolas da Área Metropolitana do Porto - mantém-se a celebração do escritor portuense. Os seus textos já tinham sido o eixo de “Falsas histórias verdadeiras: uma Pina colagem”, espetáculo estreado em março e que marcou a primeira encenação de Victor Hugo Pontes enquanto diretor do teatro.
“Alguém brinca infinitamente num jardim”: o texto e o trabalho com as escolas
Ao longo de meses, os participantes foram orientados por artistas convidados pelo TNSJ, entre os quais Mafalda Banquart, Marta Freitas Almendra, Pedro Manana e Rodrigo Santos. No total, os adolescentes vêm de oito escolas e representam 14 nacionalidades - do México à Palestina, de Itália à Coreia do Sul.
Na última semana, já em pleno palco do Nacional, o acompanhamento passou para o encenador Manuel Tur, que parte do texto criado por Bernardo Fortuna, “Alguém brinca infinitamente num jardim”. “"70 por cento da peça é formada por palavras do Manuel António Pina contidas em poemas e no teatro para a juventude. O resto são palavras minhas que remetem para o universo dele"”, afirma Fortuna.
Pedagogia, “babysitting” e um espetáculo longe de ser simplista
Ao relacionar com Pirandello a situação concebida para cena - onde as palavras de Manuel António Pina desaparecem subitamente das páginas dos seus livros e as personagens “materialificam-se” - Manuel Tur sublinha a dimensão de “pedagogia”, com “doses de sarcasmo” e “paciência infinita” na forma de estar com os jovens. “"Nunca penso neles como atores, nem estou preocupado em medir talentos. São adolescentes, é preciso fazer um bocado de "babysitting". Alguns não têm qualquer experiência e sentem vergonha, outros não se lembram das marcações. Mas isto não é um espetáculo simplista, há mutações em palco, troca de figurinos. É também bastante democrático. Cada um tem os seus papéis, mas estão sempre todos em palco, participando no conjunto das ações"”, detalha.
O que os jovens levam da experiência
Na perspetiva do encenador, importa que o processo seja “prazerosa” para quem participa - e, pelo caminho, já há quem diga ter sentido nascer a vontade de fazer do teatro um projeto de vida. Victória Nunes, 15 anos, aluna da Escola Secundária Filipa de Vilhena, descreve o que vive como um “momento grandioso” e uma “oportunidade de vida”. Pouco antes de um dos últimos ensaios, conta ao JN que o espetáculo é “lindo e meticuloso” e partilha a decisão: “"Quero seguir a via profissional no próximo ano numas das escolas de teatro do Porto."”
A brasileira Maria Luísa, 18 anos, da Escola Secundária Inês de Castro, considera “muito legal juntar as escolas e trabalhar com artistas”. Ainda assim, apesar de já trazer alguma prática no teatro musical - experiência feita na RockSchool Porto -, a carioca reconhece um obstáculo na dimensão emocional: “"Fico muito afetada com a rejeição e com a crítica."” Talvez a proximidade às palavras de Manuel António Pina ajude a destrancar esse lado, porque, como lembra Manuel Tur, a chave da literatura do autor está em “"permitir que o não saber seja motor, que a dúvida seja método, que o equívoco seja linguagem."”
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