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Reorganização no Solar do Dão revela 1680 garrafas antigas em Viseu

Pessoa a segurar uma garrafa de vinho Dão numa adega com várias garrafas, uvas e caderno sobre mesa de madeira.

Arrumar e reorganizar espaços costuma ter esse lado de surpresa: o imaginário, quase romântico, de ir ao fundo de um baú e de lá retirar “tesouros” com valor afectivo, histórico ou até económico. Foi precisamente isso que aconteceu na sede da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, em Viseu, onde a arrumação trouxe à superfície vinhos engarrafados no século passado.

A reconfiguração dos locais de trabalho no Solar do Dão, em Viseu, acabou por revelar um espólio inesperado: 1680 garrafas de vinhos da região, guardadas entre o mais antigo, da década de 60 do século passado, e o mais recente, dos anos 90. Depois de cerca de 25 anos a acumular pó e teias de aranha, as garrafas foram agora alinhadas, organizadas e limpas. Para uma prova destinada a evidenciar “a longevidade dos vinhos da região”, foram seleccionados quatro exemplares, explicou o presidente da CVR Dão, Manuel Pinheiro.

"Queremos ver o que nos dizem estes vinhos sobre a região, o que era a região", sublinhou Manuel Pinheiro. Antes de as garrafas serem abertas, a expectativa juntou-se à mesa com enólogos e jornalistas convidados. "Há elementos diferenciadores da nossa região em relação a outras que garantem que estejam bebíveis", afirmou o vogal da direcção da CVRD e responsável pela produção, António Mendes.

Os quatro representantes da longevidade

Com tonalidade “acastanhada”, a fazer lembrar um Vinho do Porto, o primeiro vinho em prova - engarrafado em 1970, ano da morte do ditador António Oliveira Salazar - mostrou "acidez, vivacidade e presença na boca". A apreciação foi de Paulo Nunes, enólogo da Casa da Passarella, que acrescentou: "Se calhar temos de repensar os vinhos que se fazem hoje, se há 56 anos já se faziam vinhos com esta frescura".

"Temos de respeitar o que foi feito com estes vinhos", contrapôs Mafalda Perdigão, enóloga da Quinta do Perdigão. "É preciso respeitar a vinha, respeitar a uva", reforçou. Já Sónia Martins, enóloga da Lusovini/Pedra Cancela, chamou a atenção para as práticas da época: "Na altura não se vinificavam castas em separado".

A garrafa seguinte, de 1971, apresentava também uma cor castanho-alaranjada e acabou por ser, no entender de Paulo Nunes, "uma prova da consistência da região", como se percebeu no fim de boca. O vinho foi engarrafado ainda em período de ditadura, já sob Marcelo Caetano, que sucedeu a Salazar, e os seus 55 anos dentro de vidro abriram uma janela para aquele tempo. Pode tratar-se de um vinho de qualquer casa da região ou de vinho comprado a granel pela Federação dos Vinhos do Dão, para posterior colocação no mercado. "Na altura, estas organizações tinham esse poder, de comprar para armazenar e controlar o preço. Por isso não sabemos bem a origem ou as castas", explicou António Mendes. "Enólogo intermitente", disse, arriscaria que entrariam castas clássicas da região como a Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro ou Baga.

Já o exemplar engarrafado em 1983 - ano em que Portugal, em liberdade, se aproximava do fim das negociações de adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje conhecida como União Europeia - mostrou notas de caruma, "um cheiro típico do Dão, em que o pinheiro está sempre presente", observou Paulo Prior, enólogo da Global Wines/Casa de Santar. Paulo Nunes descreveu-o como um vinho com "mais complexidade, mais extração", distinto do perfil habitual da década de 70. E Sónia Martins recordou que, nessa altura, não existia controlo da extração de taninos, responsáveis por uma sensação mais seca e adstringente.

Quanto à garrafa de 1993, a cor “rubi” denunciava um vinho mais jovem quando comparado com os primeiros. Era um "vinho de colheita, simples", que António Mendes queria provar para perceber como tinha evoluído. "É um vinho standard, mas muito bem feito", avaliou Paulo Prior. O comentário funcionou como elogio a um vinho produzido pela União das Adegas Cooperativas do Dão (UDACA), num período em que a região apostava sobretudo nos tintos, amplamente presentes na maioria dos restaurantes portugueses, com marcas como Meia Encosta, Terras Altas, Grão Vasco ou Porta dos Cavaleiros. Muitas dessas garrafas estavam, afinal, entre o espólio esquecido da CRV Dão.

Até os correntes têm antiguidade no corpo

"É um orgulho uma região que tem esta longevidade", defendeu Manuel Pinheiro. "O Dão não é só história, acredito que tem presente e futuro", acrescentou o presidente da CRVD, que impulsionou a reorganização do Solar do Dão que esteve na origem da descoberta.

"Sinto que a região do Dão quando olha para o passado tem mais confiança", considerou Paulo Nunes. E, para Mafalda Perdigão, o que se provou reforça uma ideia: "Uma região que fez isto", vinhos com mais e 50 anos com qualidade, "tem potencial para o continuar a fazer".

Na perspectiva de Paulo Nunes, nem sequer é preciso subir de gama para encontrar esse comportamento no tempo: "Um vinho do Dão, da gama de entrada, de consumo imediato, tem potencial de grande longevidade". "O clima e o solo permitem fazer isto", completou o enólogo da Casa da Passarella. António Mendes apontou a mesma direcção ao referir que dias quentes e noites frias se combinam numa "amplitude térmica que determina muito o caráter do vinho da região".

A isto soma-se a rede de ribeiras e riachos que alimentam os rios Dão e Mondego, ajudando a marcar a diferença, numa região circundada por serras que "protegem da influência marítima e da humidade", argumentou o responsável pela produção da CVRD. Numa área onde é raro encontrar grandes superfícies planas, pratica-se "uma vinha de montanha" em solos "pobres de granito", salientou António Mendes, com excepção das zonas mais a sul do Dão, como Alcácer do Sal, características do lugar da Pedra Cancela.

As razões de um envelhecimento com saúde

O que se demonstrou no copo com os quatro vinhos, considera Sónia Martins, "explica-se pelas características da região, os solos, o clima e principalmente as castas". "E, muito provavelmente, a forma como os vinhos eram feitos no passado, com pouca intervenção enológica e pouca mecanização. Vinhos, de alguma forma, feitos para poderem ser guardados na garrafa", acrescentou a enóloga da Lusovini/Pedra Cancela.

Paulo Prior destacou que são vinhos "com uma grande componente de aromas terciários desenvolvidos em garrafa" e que, por isso, beneficiam de decantação para respirarem. Ainda assim, apresentaram-se em boa forma. "A expectativa que tenho de uma região como o Dão é que os vinhos possam perdurar durante muitos, muitos anos na garrafa. Portanto, esses foram alguns exemplares que demonstram aquilo que é o potencial desta região", comentou Sónia Martins.

"Isto é o Dão. É muito fácil abrir uma garrafa com 30. 40, 50 anos, desde que esteja uma rolha mais ou menos bem, que a probabilidade de o vinho estar bem é muito grande", acrescentou Mafalda Perdigão. Para Paulo Nunes, esse cenário não tem nada de surpreendente: "Sou um consumidor, há muitos anos, de vinhos antigos. Sei que esse potencial existe particularmente no Dão", rematou o enólogo da Casa da Passarela.

"O dão é mesmo isto, a constância dos vinhos por um longo longo período de tempo", complementou Paulo Prior. "Há um descritor de prova, um aroma de caruma, de pinhal e bosque que típico do Dão. Depois, o tanino é suficientemente tenso para suportar a evolução do vinho" na garrafa, afirmou o enólogo da Global Wines/Casa de Santar, defendendo ainda que o "Dão é generoso" com a vinha e as uvas.

Clima, montanhas e granito na alma

Mafalda Perdigão voltou a apontar o clima e as amplitudes térmicas como traços distintivos. "O solo, de granito, a nossa intervenção e as nossas castas tornam-nos únicos e diferentes", disse a enóloga da Quinta do Perdigão. "Dá-nos um à-vontade para fazer vinhos. Tanto de consumo mais rápido como de maior longevidade", acrescentou.

E, na leitura de Sónia Martins, esse é o caminho a seguir. "As empresas não são viáveis se pensarem só na longevidade, tem que pensar no dia a dia. Para isso tem que ter vinhos vendáveis mais cedo, mas, por outro lado, e outros que possam prestigiar a marca a região, mostrando essa diferença de vinhos com carácter e com muito tempo na garrafa", argumentou a enóloga da Pedra Cancela. "Vários produtores já o estão a fazer, como no nosso caso. Temos linhas diferentes para vinhos mais jovens, mais fáceis, mais sem grande complexidade e outros que vamos deixar em garrafa para lançar muito mais tarde".


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