Angola pretende posicionar-se entre os grandes destinos turísticos de África e afirma ter um trunfo pouco comum: o seu "potencial inexplorado".
Após mais de 30 anos de conflito armado, o turismo no país teve pouca margem para crescer. Contudo, com um contexto de maior estabilidade e com novas infraestruturas em desenvolvimento, o Governo de Luanda quer acelerar a recuperação do tempo perdido. Em entrevista ao JN, o secretário de Estado do Turismo de Angola, Augusto Kalikemala, sustenta que o país representa uma "oportunidade rara" para investidores, ao permitir criar um "novo destino com um imenso potencial" numa fase em que o Mundo procura alternativas ao turismo de massas.
Turismo em Angola: recursos naturais e o "potencial inexplorado"
De acordo com Kalikemala, esse "potencial inexplorado" é amplo e diversificado: mais de 1600 quilómetros de costa atlântica, deserto no sul, floresta tropical no norte e zonas propícias ao turismo de safari no leste. Para o governante, esta combinação traduz-se numa janela concreta para novos projetos: "Apresentamos um país com um potencial inexplorado e com um conjunto de oportunidades para investidores iniciarem projetos novos", afirma o governante. E reforça que "Todas estas oportunidades continuam completamente inexploradas".
Investimento, incentivos e o desafio das infraestruturas
O secretário de Estado sublinha que Angola dispõe de incentivos e mecanismos desenhados para simplificar o investimento privado, tanto nacional como estrangeiro. Ainda assim, reconhece obstáculos relevantes, com destaque para a insuficiência de infraestruturas.
O ponto crítico, diz, é levar acessos a áreas onde se concentram muitos recursos turísticos. "Temos grandes recursos turísticos em áreas remotas em que é preciso facilitar o acesso", admite ao JN, salientando que o Estado pretende assumir um papel ativo no investimento em estradas, bem como em energia, água e saneamento.
Turismo integrado e sustentável com ligação às comunidades
A orientação passa igualmente por um modelo de turismo mais integrado e sustentável, com ligação direta às comunidades locais. Além do incentivo à comercialização de produtos locais, Kalikemala aponta a possibilidade de reconverter atividades tradicionalmente prejudiciais à preservação ambiental.
Nesse âmbito, dá o exemplo da caça furtiva e do potencial de transformação associado ao turismo de natureza: "Com o desenvolvimento de mais atividades de safari e a implementação de resorts ecológicos, temos a oportunidade de converter os caçadores furtivos em guias de turismo. Podemos converter as atividades económicas que geram danos ambientais numa atividade também económica, mas que tem mais um aspeto de preservação e conservação", exemplifica.
Visto regional para circular em África
Atualmente, Angola é procurada sobretudo por razões profissionais, mas a meta passa por aumentar o peso do turismo de lazer. Ainda assim, o país não pretende promover-se de forma isolada: Luanda quer afirmar Angola como porta de entrada para o turismo na África Austral e defende uma promoção mais articulada do continente.
A lógica é oferecer viagens mais completas e interligadas. "Queremos promover uma experiência integrada, que permita aos turistas circular por vários países numa única viagem", continua Kalikemala ao JN. E acrescenta: "África tem de se apresentar como um destino global com várias potencialidades. Cada país tem a sua".
Com esse objetivo, Angola quer apostar no "marketing conjunto" dos países da África Austral enquanto destino regional e desenvolver uma rede coordenada que torne a circulação de turistas mais simples. Entre os elementos referidos estão o novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto e as ligações a hubs regionais como Joanesburgo ou Cidade do Cabo.
Em paralelo, o país tem vindo a facilitar a entrada, através da isenção de vistos para mais de 100 países, e está a trabalhar com a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) na criação de um visto regional. "Isso vai facilitar a mobilidade dos turistas e permitir que, numa única viagem, possam conhecer vários países e experiências distintas", sublinha o secretário de Estado. O projeto, conhecido como Univisa, poderá servir de base a um modelo mais abrangente no continente.
"Partir para a ação"
Confrontado pelo JN com a Cimeira de Investimento do Global Tourism Forum, marcada para Luanda a 18 e 19 de junho, Kalikemala explica que a intenção é ultrapassar o debate e assegurar resultados práticos. A iniciativa junta investidores internacionais, decisores políticos e líderes do setor, com o objetivo de apresentar oportunidades no turismo e captar capital para projetos no país. "Queremos partir mesmo para a ação, não é uma discussão do ponto de vista teórico e concetual", afirma.
Para materializar essa ambição, o programa prevê "dealing rooms" e ações de "matchmaking" entre investidores e projetos, com a intenção de fechar compromissos ainda durante a cimeira. "Queremos que, durante a própria realização, possamos ter memorandos de entendimento e propostas firmes de investimento nos ativos turísticos", destaca.
Além das sessões de debate, estão planeadas visitas no terreno. "Teremos uma exposição das oportunidades de investimento e também visitas aos locais onde pretendemos desenvolver ativos turísticos", explica. Entre os locais apontados está Caboledo, uma zona costeira a cerca de 100 quilómetros de Luanda. A expectativa é que estas deslocações contribuam para acelerar decisões no terreno.
Para que os anúncios não fiquem apenas por intenções, o Governo antecipa um acompanhamento direto aos investidores após o encontro. "Vamos criar uma equipa de acompanhamento e trabalhar com a nossa agência de promoção de investimento para garantir facilidades e incentivos fiscais e aduaneiros", refere. "Queremos que aquilo que é assumido como compromisso se transforme em realidade".
Além de mobilizar investidores, Angola pretende usar a cimeira para transmitir uma "mensagem clara": "Somos um país aberto ao investimento privado e estamos a criar oportunidades reais".
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