A primeira coisa que se nota não é a forma - é o som. Um “clac” grave, quase teatral, quando a jovem na zona de exposição puxa um painel escondido de algo que, à primeira vista, parece um sofá normal de dois lugares. Ela vive num T0 arrendado de 23 m², nos subúrbios exteriores, e já está farta de pedir desculpa sempre que alguém fica a dormir em casa por causa do seu velho sofá-cama cheio de lombas. A funcionária da Ikea sorri e convida-a a sentar-se, depois a deitar-se, e por fim a arrumar um conjunto completo de roupa de cama num compartimento que parece engolir tudo como num truque de magia. À volta, outros clientes filmam com o telemóvel, meio fascinados, meio desconfiados. Será este o fim do sofá-cama clássico com que crescemos em casa dos avós? Ou apenas mais um artifício na moda do mobiliário “inteligente”?
Alguma coisa naquele espaço sugere: está a começar, em silêncio, uma pequena revolução.
Por dentro da aposta arrojada da Ikea: um sofá que quer substituir o seu quarto de hóspedes
À primeira vista, o novo sofá multifuncional da Ikea até parece demasiado discreto. Linhas simples, dimensões relativamente compactas, um estilo capaz de se apagar diante de uma parede branca em qualquer apartamento urbano. Mas depois saltam à vista as costuras, uma profundidade pouco comum e umas pegas quase invisíveis. Isto não é um sofá que se limita a abrir e virar colchão para cumprir calendário. Desliza, roda, abre, empilha. Quer funcionar como cama, zona de descanso, arrumação e até como uma espécie de base para a vida diária em poucos metros quadrados.
Sente-se a ambição da marca: dizer adeus ao velho sofá-cama com estrutura metálica que deixa nódoas negras nas canelas e nas costas de quem lá dorme.
A parte polémica aparece na forma como a Ikea o apresenta. Acabam-se as mensagens de “solução de emergência”. Desaparece o tom modesto de “cama de hóspedes”. Nas imagens de marketing, vêem-se casais a viverem ali a tempo inteiro: a trabalhar, a fazer sestas, a ver séries seguidas, a receber visitas que passam a noite sem a mínima expressão de desconforto. O produto é colocado como o novo centro do microapartamento, substituindo numa só pegada a cama tradicional e o sofá-cama clássico.
É precisamente aqui que os fãs do sofá de abrir de outros tempos franzem a testa. O sofá-cama, com a sua mecânica desajeitada e o meio afundado, podia ser feio - mas ao menos era previsível.
No fundo, a Ikea está a tocar numa ansiedade mais profunda: até que ponto conseguimos comprimir a vida em poucos metros quadrados antes de algo ceder? O sofá multifuncional torna-se o símbolo dessa compressão. Um móvel que tem de render do pequeno-almoço à meia-noite - para dormir, comer, fazer videochamadas no Zoom e prolongar a preguiça de domingo. No papel, soa racional e quase utópico. Na prática, mexe com um nervo: estamos a optimizar a casa ou a admitir que, para muita gente nas cidades, ter um verdadeiro quarto de hóspedes já é uma fantasia de luxo?
A discussão não é só sobre tecido e espuma; é sobre o que aceitamos sacrificar por renda e localização.
Como é que este novo sofá funciona mesmo no dia a dia (e o que quase ninguém lhe diz)
É no mecanismo que se percebe onde os engenheiros da Ikea se divertiram. Nada de armações metálicas a chiar e a abrir como se fossem instrumentos de tortura, nem contorcionismo para fechar pernas sem prender os dedos. Aqui, o assento desliza em calhas, uma plataforma oculta eleva-se e as almofadas do encosto encaixam certinhas para formar uma superfície plana para dormir. Debaixo de um dos lados há arrumação integrada, dimensionada para edredão, almofadas e aqueles lençóis de hóspedes que fingimos passar a ferro. Depois de o fazer duas vezes, a passagem do modo dia para o modo noite demora menos de um minuto.
A sensação é quase a de estar a brincar com uma peça de LEGO em tamanho real.
Pense-se na Lena, 31 anos, que trocou um T1 de 40 m² por um estúdio de 24 m² depois de um aumento da renda. No TikTok, publicou um vídeo a montar o novo sofá multifuncional e chamou-lhe a sua “segunda divisão falsa”. De manhã, enfia a roupa de cama na arrumação, atira duas almofadas e uma manta por cima, e o espaço passa logo por sala arrumada. À noite, o cenário muda outra vez e o mesmo objecto transforma-se numa cama onde cabem dois adultos, desde que não sejam demasiado esquisitos. Os pais detestam; os amigos não falam de outra coisa.
Todos já tivemos aquele momento em que vemos um apartamento minúsculo a transformar-se e pensamos: a minha casa também podia funcionar assim.
Por trás da demonstração impecável, no entanto, há uma realidade simples: este sofá exige disciplina. O “truque” só resulta mesmo se, todos os dias, mudar de modo com rigor. Lençóis guardados, almofadas sacudidas, arrumação fechada, chão desimpedido. Sejamos honestos: quase ninguém cumpre isto todos os dias. É aí que começam as críticas. Há quem diga que, passados alguns meses, o sofá fica quase sempre a meio caminho - meio aberto, como uma vida que nunca decide bem se é dia ou noite. Outros queixam-se de que a superfície para dormir serve para visitas ocasionais, mas não é a melhor opção para quem tem dores crónicas nas costas. A Ikea está a apostar que o equilíbrio entre conveniência, arrumação e estética vai ganhar. A velha guarda dos amantes do sofá-cama não está totalmente convencida.
Tomar partido: como perceber se este sofá “tudo-em-um” é mesmo para si
Se está com vontade de trocar o seu sofá-cama por este novo modelo multifuncional, o primeiro passo não é escolher a cor. É ficar no meio da sala e, literalmente, mapear o seu dia. Onde toma o café da manhã? Onde trabalha com o portátil? Onde é que as visitas largam as malas? Quanto mais funções o seu sofá já acumular, mais sentido este híbrido começa a fazer. Não está apenas a comprar mobiliário - está a redesenhar a coreografia do espaço.
Pegue numa fita métrica e registe a distância à parede, à janela e às portas. É aí que a verdade aparece.
A armadilha mais comum é apaixonarmo-nos pelo lado “transformer” e esquecermo-nos dos nossos hábitos. Se detesta fazer a cama, um sistema que pede abrir e fechar diariamente pode tornar-se rapidamente um fardo. Se costuma receber familiares mais velhos, pergunte a si próprio se eles vão descansar bem numa superfície mais firme do que uma cama tradicional e mais baixa do que muitos sofás-cama. Por outro lado, se vive sozinho(a) ou em casal e só recebe amigos de vez em quando, a troca pode saber a libertação.
Uma auditoria honesta ao nível de desarrumação numa terça-feira à noite vale mais do que qualquer demonstração em loja.
O designer da Ikea, Mikael Axelsson, resumiu-o no lançamento: “Não quisemos matar o sofá-cama. Tentámos responder a uma pergunta muito directa: o que faz quando o quarto simplesmente não cabe?” É essa a tensão no centro deste objecto. Não é apenas “mais prático”. É uma admissão silenciosa de que, em muitas cidades, ter divisões separadas está a tornar-se um privilégio.
- Pense nas costas: experimente a posição deitado(a) durante, pelo menos, 10–15 minutos - não apenas um sentar rápido.
- Pense nas visitas: imagine o seu melhor amigo a dormir ali depois de uma noite longa.
- Pense na rotina: seja sincero(a) sobre se vai mesmo fechá-lo quando sair a correr de manhã.
- Pense no ruído: deslize e levante o mecanismo várias vezes para perceber como soa à meia-noite.
- Pense numa futura mudança: consegue desmontá-lo e levá-lo por outra escada estreita?
Um sofá que divide opiniões, como espelho da forma como vivemos hoje
O que faz este lançamento da Ikea dar tanto que falar não é só o produto - é a conversa que ele obriga a ter e que, regra geral, evitamos. De quanto espaço precisamos, afinal, para nos sentirmos em casa? Quantos compromissos aceitamos - em conforto, privacidade e estética - quando o custo de um quarto separado parece inalcançável? Para uns, o sofá multifuncional é um aliado esperto num mercado habitacional que deixa pouca margem de escolha. Para outros, é um símbolo de resignação: a prova de que estamos a normalizar viver em caixas cada vez mais pequenas, desde que o mobiliário pareça “inteligente” nas redes sociais.
Talvez a verdadeira divisão não seja entre fãs da cama de hóspedes tradicional e fãs do novo sofá, mas entre quem ainda acredita em portas e quem está a aprender a viver sem elas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Design que poupa espaço | Plataforma deslizante, arrumação oculta, sem estrutura metálica volumosa | Ajuda a transformar uma sala pequena num espaço flexível de dia e de noite |
| Impacto na rotina diária | Exige dobrar, arrumar e alternar modos com regularidade | Promove melhor organização, mas pode tornar-se exigente com o tempo |
| Compromissos de conforto | Superfície modular e firme, adequada a uso de curto e médio prazo | Funciona para visitas e para alguns utilizadores a tempo inteiro; menos indicada para dor crónica ou hábitos de “zero esforço” |
Perguntas frequentes:
- O novo sofá multifuncional da Ikea é mesmo mais confortável do que um sofá-cama clássico? Em geral, é mais estável e não tem as barras metálicas antigas a pressionar as costas, mas a sensação é mais firme e mais próxima de uma “cama de dia” do que de uma cama de hotel. Deite-se durante vários minutos antes de decidir.
- Dá para dormir nele todas as noites sem estragar as costas? Muitos utilizadores fazem-no, sobretudo em estúdios, e estão satisfeitos. Se tem problemas de costas ou precisa de um colchão muito macio, pode precisar de um sobrecolchão (topper) ou, em alternativa, de uma cama dedicada.
- Substitui mesmo um sofá e uma cama num apartamento pequeno? Sim - essa é a proposta, sobretudo para estúdios ou casas de uma divisão. Ganha-se espaço no chão e arrumação, mas perde-se a separação psicológica entre “sala” e “quarto”.
- É prático para hóspedes de idades e tamanhos diferentes? Para visitas ocasionais, incluindo casais, costuma resultar bem. Pessoas mais velhas ou quem tenha dificuldade em levantar-se de assentos baixos pode achar menos confortável do que uma cama de hóspedes tradicional, mais alta.
- É melhor do que manter um sofá-cama tradicional? Se vive num espaço muito pequeno e precisa de arrumação e flexibilidade diária, pode ser um grande avanço. Se tem um quarto extra ou dá prioridade a um colchão dedicado e espesso para as visitas, uma boa cama de hóspedes pode continuar a ganhar.
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